Estudo conclui que fechar as escolas pode reduzir mobilidade em mais de 20%

Estudo suíço mostra que o encerramento de escolas pode reduzir em 21,6% a mobilidade das pessoas e travar o ritmo de circulação do vírus, com crianças e pais confinados em casa. Mas há também muitos possíveis efeitos colaterais negativos da medida.

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Em Portugal, tal como noutros países europeus, há uma discussão sobre o encerramento ou não das escolas Nelson Garrido

É mais uma achega para o complexo dilema sobre o encerramento de escolas. Um estudo realizado na Suíça concluiu que a decisão de fechar escolas durante a Primavera de 2020 naquele país teve um impacto importante na redução da mobilidade das pessoas e, por causa disso, na transmissão de covid-19. O trabalho divulgado este fim-de-semana refere esta medida reduziu a mobilidade de 21,6% e foi a terceira medida com mais sucesso nas restrições de mobilidade, logo a seguir à proibição de ajuntamentos com mais de cinco pessoas e ao fecho de comércio e restauração. Porém, para tomar decisões sobre um fecho total ou parcial (de apenas alguns níveis de ensino) é preciso também ter em conta o impacto social e económico desta medida.

A equipa do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH) em Zurique analisou 1,5 mil milhões de viagens a partir de dados anónimos de telecomunicações entre 10 de Fevereiro e 26 de Abril de 2020. Na pré-publicação disponível na plataforma arxiv, o trabalho de investigação que ainda não foi revisto pelos pares conclui que as várias restrições impostas neste período resultaram numa quebra na ordem dos 49,1% dos movimentos da população, quando comparados os dados com os registos da mesma altura no ano anterior. Na Suíça, o encerramento de escolas foi decidido oficialmente a 16 de Março e esteve em vigor durante cerca de dois meses antes da reabertura gradual.

O trabalho de monitorização da epidemia com dados de telecomunicações permitiu concluir que o primeiro factor na redução do movimento foi a proibição de reuniões com mais de cinco pessoas (com um impacto de 24,9%), e o segundo factor foi o encerramento de bares, restaurantes e outros negócios não essenciais, que significou um decréscimo de 22,3%. Em terceiro lugar surge o encerramento de escolas que terá reduzido em 21,6% o movimento das pessoas. “A nossa análise confirma que o encerramento de escolas é uma medida que reduz a velocidade do vírus ao reduzir as viagens”, disse Stefan Feuerriegel, professor de informática e gestão no ETH e que liderou o estudo, em declarações à agência AFP, citado em várias notícias.

O artigo explica que “a mobilidade humana num determinado dia prevê casos comunicados com 7-13 dias de antecedência” e que “uma redução de 1% na mobilidade humana prevê uma redução de 0,88-1,11 % nos casos comunicados diariamente de covid-19”. “Se as escolas estiverem fechadas, podemos esperar uma grande mudança de comportamento”, referiu Stefan Feuerriegel à AFP. No entanto, os autores do estudo avisam que na controversa decisão de encerramento de escolas para evitar a propagação do vírus devem ser considerados outros factores.

As estatísticas e vários estudos publicados já mostraram que as crianças serão afectadas com menos gravidade pela covid-19, embora o seu papel na pandemia ainda não esteja totalmente claro, uma vez que podem ter um peso importante na transmissão da infecção. Um estudo de cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia, publicado este mês na New England Journal of Medicine mostrou que apenas uma criança em cada 130 mil foi tratada numa unidade de cuidados intensivos por causa da covid-19, no período entre Março e Junho de 2020. Na Suécia, o ensino à distância foi posto em prática para escolas secundárias nos ciclos mais avançados, mas não para pré-escolas, escolas primárias ou primeiros ciclos das secundárias que, em vez disso, permaneceram abertas.

No Reino Unido, o “Estudo de Infecção nas Escolas”, uma parceria entre a Public Health England (equivalente à Direcção-Geral da Saúde), o Instituto Nacional de Estatísticas britânico e a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que testou dez mil estudantes e pessoal de escolas em Inglaterra durante o mês de Novembro, assustou o Governo. Este terá sido aliás um dos fundamentos para não reabrir a maioria das escolas após as férias do Natal.

Nesta nova vaga de infecções, os governos de vários países têm sido confrontados com decisões difíceis para conter a pandemia e, por estes dias, uma das mais polémicas tem sido o encerramento de estabelecimentos de ensino. Entre apoiantes e críticos desta medida há bons argumentos de todos os lados (e são mais do que dois, desde o económico, o social o da educação e da saúde pública) e nenhuma solução óbvia para o dilema. Neste caso, a popular relação custo-benefício envolve na realidade muitos custos e outros tantos possíveis benefícios e é quase impossível saber o que mais pode e deve pesar.

Entre os custos do fecho das escolas, muitos têm destacado o risco de a medida poder agravar as desigualdades na educação com o prejuízo dos mais carenciados. Sublinha-se ainda as limitações do ensino à distância na formação e avaliação dos jovens, bem como o impacto na saúde mental que o isolamento pode causar.

Em Portugal, o Governo já disse que o novo confinamento geral que começa na quinta-feira deverá manter as escolas abertas. No entanto, a decisão final só será conhecida quarta-feira, já depois da reunião no Infarmed que juntará decisores políticos e especialistas em saúde pública. Esta segunda-feira, questionada sobre a hipótese do fecho das escolas, a ministra da Saúde, Marta Temido, disse que o Governo vai ouvir na terça-feira os peritos, um aconselhamento que considerou “muito importante”. “Tomámos uma opção no passado mês de Março em relação a esta matéria, numa altura em que o aconselhamento técnico ia num determinado sentido e o Governo decidiu encerrar porque considerava que assim se conseguia conter a transmissão de um fenómeno novo e que conhecíamos ainda mal”, afirmou. E acrescentou: “Hoje, o conhecimento é muito diferente e sabemos os efeitos nefastos que o encerramento de escolas trouxe sobre os processos de aprendizagem, de escolarização, sobretudo dos mais frágeis, os mais vulneráveis, e é um tema que temos de encarar com a maior ponderação porque é sem dúvida uma decisão extrema.”

O agravamento da situação epidemiológica em Portugal levantou já a hipótese de os alunos do secundário deixarem de ter aulas presenciais. “Nada substitui a presença em sala de aula, mas perante a situação que o país atravessa neste momento percebemos que é preciso tomar medidas”, referiu Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), em declarações à agência Lusa, defendendo o “ensino misto para os mais velhos”.

A posição é corroborada pelo presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANADEP), que lembrou que menos alunos na escola significam menos pessoas nos transportes públicos. Filinto Lima explicou que é melhor que sejam os mais velhos a ficar em casa, uma vez que têm mais maturidade para acompanhar as aulas online.