As pombas brancas vencem sempre

O pretendente a ditador está satisfeito. Julga-se brilhante. Como Portugal estaria melhor se ele tivesse nascido mais cedo. A culpa é dos pais. Ou será dos avós? O pretendente a ditador fica confuso.

Era uma vez um pretendente a ditador. Chega a casa cansado. Isto de fazer horas extraordinárias a ensinar os outros a fugir aos impostos e a colocarem o dinheiro ao fresco em offshores é extremamente cansativo, mas muito lucrativo. Veste o seu pijama de cetim. De pé, admira-se. Galanteia-se. Imita poses. Devora discursos de ditadores. Admira a personalidade forte do magnata americano. Fica babado de comoção. Aquela invasão ao Capitólio é de homens com tomates grandes. Gesticula em frente ao imenso espelho de moldura grossa e dourada. Coisa de novo rico. Faz ensaios. Em breve estará na rua ou em qualquer barraca. Agradece à multidão. Estica o braço, firma-se hirto e grita Portugal. Depois senta-se na borda da cama e afaga os lençóis. Fecha os olhos. Viaja até Vimioso e fica em silêncio. Faz a vénia ao estadista do ouro e da miséria. Sempre devemos ter respeito por aqueles que idolatramos. Folheia um livro com fotografias dos comícios de Nuremberga. Aquilo é que eram comícios. E aquele homem. Uma lenda. Um santo. Um dia será como ele, um salvador. Em breve terá praças e ruas cheias de gente a gritar pelo seu nome. E o pretendente a ditador fica de peito cheio. Coloca a mão na cabeça de uma criança. Pega num bebé ao colo. Ri. Vaidoso. Reza sem convicção. Chora à moda de telenovela mexicana. E as câmaras filmam. Descobre o seu lado paternal. É o líder, o pai protector de todos os portugueses. Grita alto. Saem os perdigotos e as frases mal construídas. Decora passagens do ditador italiano. Diga-se, que o pretendente a ditador não nos está a ouvir, que o italiano sempre era mais inteligente. As réplicas nunca são a mesma coisa. Fica tresloucado. Congelado como estátua de bronze oco. Ajeita o pijama de cetim. Bebe um whisky. Bebe dois. Vai até à poltrona. Suado. Puxa pelos neurónios. A custo. Muito a custo. Chama pela mulher. Precisa de relaxar. Pôr os pés de molho. Como está cansado. Isto de ser líder não é para todos. Levanta-se num rompante. Teve uma visão. O alguidar de porcelana derrama a água suja sobre o tapete de Arraiolos. Doutor, doutor, tive uma visão. Qual, meu querido líder. Vamos colocar uma bomba só para assustar. Ai, meu líder, não me faça ser nostálgico. Não, patareco, Deus mostrou-me o caminho de Belém. Meu querido líder, com todo o respeito, já lhe disse que esse whisky só lhe traz fantasias.

O pretendente a ditador está satisfeito. Julga-se brilhante. Como Portugal estaria melhor se ele tivesse nascido mais cedo. A culpa é dos pais. Ou será dos avós? O pretendente a ditador fica confuso. Hoje o país era outro se tivesse nascido no tempo da outra senhora. Com as nossas colónias, as nossas aldeias. Os nossos analfabetos para trabalhar. Os ricos para estudar. Sempre têm outra cabeça. A fome destrói os neurónios. Coitados. Deus terá a porta dos céus aberta para os receber. Bem-bom. Nada de vaidades terrestres. Não teríamos pretos na metrópole e os ciganos estariam na ordem. Numa reserva talvez. Eleições só a fingir como no seu partido. Portugal teria o seu homem. Ele próprio. Teria os seus polícias. As suas vigarices. O pretendente a ditador está vaidoso. Deita-se em lençóis perfumados. É um génio. Aconchega a almofada de penas de ganso. A mulher dá-lhe um beijo e compõe-lhe a gola do pijama. Tenho tanto orgulho em ti, diz ela. O ressonar já faz tremer os cristais e os sinistros bustos. A coelha de estimação salta perdida à procura da salvação.

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Libertação do campo de concentração de Auschwitz

Pela manhã, o pretendente a ditador bebe o seu chá preto. Faz vista grossa aos jornais. Falam abundantemente dele. Que bom. Devia ser da primeira à última página. Lá chegará o tempo. Fica-lhe bem a gravata cor-de-rosa choque. Combina com os sapatos de biqueira fina. É um doutor. Dos finórios. Mas fala como se estivesse na taberna. Afinal também nasceu na merda e subiu a pulso na vida. Diz bom dia ao seu motorista. Dá a ordem para ir à Assembleia. De vez em quando tem de se picar o ponto. Parece mal. O motorista sorri. 

O pretendente a ditador anda agitado. Tem muito trabalho. Agora são os perfis falsos nas redes sociais. Encalhou no João e gastou todos os apelidos do mercado. Depois é necessário escrever os comentários. Para isso tem uma equipa empreendedora. Trabalham de sol a sol e têm uma imaginação fértil. E os memes e as fotografias falsas. E os soundbites que a comunicação social come de cebolada. Aquilo é trabalho puxado. Depois existem as expulsões dos militantes. As lutas internas pelos tachos. Os financiamentos por debaixo da mesa. Uma canseira. O pretendente a ditador por vezes tem vontade em desistir desta vida dura. Calejada. Oprimida. Mas não vira as costas ao sinal divino que recebeu. É um messias. Um enviado. Da Idade Média, talvez.

Era uma vez um pretendente a ditador. Era. Eram tão monstruosas as suas ideias que acabou os seus dias numa praça cheia de pombas brancas. Gritava frases soltas. Esfarrapado, sozinho e louco. Como todos os ditadores devem acabar. Venham eles de onde vierem.