Britânicos e alemães põem as escolas sob suspeita na transmissão da covid-19

Países do sul da Europa estão a esforçar-se por manter o ensino presencial, ainda que a pandemia esteja a crescer. Estudos sugerem que ainda está mal compreendido o papel das crianças no contágio pelo novo coronavírus.

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Crianças de regresso à escola primária esta semana na Lombardia, em Itália Reuters/MARZIO TONIOLO
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Crianças a ter aulas em casa em Milton Keynes, Inglaterra Reuters/ANDREW BOYERS
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Uma escola vazia, sem aulas, em Newcastle-under-Lyme, Stratfordshire, Reino Unido Reuters/CARL RECINE

O que convenceu Boris Johnson a encerrar as escolas no Reino Unido, quando decretou novo confinamento por causa da covid-19? Estudos de cientistas britânicos divulgados em Dezembro, quando o número de casos de covid-19 começou a disparar e foi detectada a nova variante do coronavírus, mostraram uma clara relação entre as taxas de infecção entre os alunos e pessoal das escolas e as da comunidade.

Antes, o primeiro-ministro britânico defendia ser “de importância vital” que as crianças pudessem manter-se na escola – juntando-se ao consenso internacional sobre os efeitos de ter interrompido as aulas presenciais em todo o mundo na Primavera, quando foi declarada a pandemia. Mas o Estudo de Infecção nas Escolas, uma parceria entre a Public Health England (equivalente à Direcção-Geral da Saúde), o Instituto Nacional de Estatísticas britânico e a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que testou dez mil estudantes e pessoal de escolas em Inglaterra durante o mês de Novembro, assustou o Governo.

A conclusão, divulgada online a 17 de Dezembro, foi que 1,24% dos alunos e 1,29% dos funcionários tinham tido um teste positivo para a infecção pelo novo coronavírus – com um peso maior nas escolas secundárias do que nas escolas primárias. Um outro estudo revelava que 1,2% da população de Inglaterra tinha sido infectada na semana de 8 a 14 de Novembro.

Foi nestes estudos que se começou a basear o conselho do Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências (conhecido pela sigla SAGE, “sábio” em inglês) para não reabrir a maioria das escolas após as férias do Natal. Só dessa maneira se manteria o valor do R – a velocidade a que o vírus se espalha na população – abaixo de 1 e a epidemia poderia ser controlada. Daí saiu também a proposta para que fosse decretado um novo confinamento geral, como o que actualmente está a ser vivido, com o Serviço Nacional de Saúde britânico a dar sinais de saturação. Em Portugal, o Governo já disse que o novo confinamento geral que começa na quinta-feira deverá manter as escolas abertas. A decisão final será conhecida na véspera, já depois da reunião no Infarmed que juntará decisores políticos e especialistas em saúde pública.

Os dados da última semana do Instituto Nacional de Estatísticas britânico já mostram uma redução do número de casos entre as crianças em idade escolar e nos adultos de 35 a 49 anos – e um aumento em todos os outros. Mas a maior parte do ensino está a fazer-se à distância. Só os filhos de trabalhadores considerados essenciais estão a ir à escola, bem como crianças consideradas vulneráveis.

Mas creches e jardins-de-infância continuam a funcionar normalmente. Além disso, há planos para introduzir um sistema de testes regulares de despistagem nas escolas secundárias, para permitir a sua reabertura.

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Mais crianças contaminadas

O caso do Reino Unido é talvez o melhor conhecido, e o mais falado, pela dimensão que a pandemia reassumiu naquele país. Mas este não é o único país europeu que, face à escalada de infecções, voltou atrás na política de manter as escolas abertas, pelo receio de que as crianças possam espalhar o vírus, apesar de não terem sintomas.

A Alemanha é um deles: o encerramento das escolas foi incluído nas medidas mais restritivas impostas a partir de 13 de Dezembro. No dia 5, a chanceler Angela Merkel anunciou que creches, escolas e lojas não essenciais devem permanecer encerradas até 31 de Janeiro, e foram limitados os deslocamentos a um raio de 15 km em torno do domicílio, nas zonas onde o número de casos é superior a 200 por 100 mil habitantes.

A 4 de Janeiro, relata a Deutsche Welle (DW), a equipa do microbiólogo Michael Wagner, da Universidade de Viena (Áustria), que tem defendido a necessidade de testar mais, apresentou um estudo em que dizia ter detectado uma criança infectada e sem sintomas em cada três a quatro das turmas que estudaram. Diz que as crianças deviam ser testadas mais frequentemente. “Pergunto-me se haverá mais casos – se não testarmos crianças sem sintomas, não podemos adivinhar a origem da infecção”, defendeu.

A Áustria está desde dia 7 e até 15 de Janeiro em regime de ensino remoto. Para regressar ao ensino presencial, o ministro da Educação, Heinz Fassmann, anunciou que as escolas vão receber, a partir de dia 18, os 5000 kits de testes de despistagem do coronavírus adquiridos para tentar tornar as aulas mais seguras. No caso das crianças mais pequenas, vai ser pedido aos pais que façam o teste aos seus filhos em casa. “Claro que haverá pais que vão recusar”, reconheceu o ministro, citado pela Reuters. “Mas é a oportunidade de reabrir as escolas.”

Outro estudo, da cientista alemã Annette-Gabriele Ziegler, do Centro de Investigação da Saúde Ambiental, usou testes de anticorpos para testar amostras de sangue de 12 mil crianças da Baviera (com idades entre 12 meses e 18 anos) e descobriu que as infecções pelo novo coronavírus são seis vezes mais frequentes do que se pensava até agora – o que pode afastar a ideia de que as crianças desempenham apenas um papel marginal na disseminação da covid-19, explica ainda a DW.

Outros países, mais a Sul, resistem ainda ao encerramento. Espanha tem mantido as escolas abertas, tal como França, que retomou o calendário escolar esta semana, a 4 de Janeiro, sem alterações ao protocolo sanitário em vigor. “É uma escolha profundamente educativa e social e também política, de preservar o direito das crianças à educação”, declarou o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer.

Isto apesar de o próprio director-geral da Saúde, Jérôme Salomon, ter dito que as duas novas variantes do coronavírus que estão a preocupar, identificadas no Reino Unido e na África do Sul, parecerem afectar mais os jovens e, por isso, ser necessário estar mais atento “ao meio escolar e universitário”.

Em Bagneux, decorre neste momento uma despistagem em massa em três escolas, desde sexta-feira, depois de ter sido identificado um caso de doença pela nova variante britânica, uma pessoa que trabalhava em dois estabelecimentos de ensino da cidade. Todos os habitantes são convidados a ir fazer o teste PCR, diz o Le Monde.

Em Itália, onde cresce o alarme devido aos já chamados “contágios panettone”, por estarem relacionados com as festas de Natal, as escolas primárias reabriram a 7 de Janeiro – mas no Sul, onde a pandemia atacou com muito mais força desta vez, só devem reabrir no fim desta semana, início da próxima. O ensino superior só regressará a partir desta segunda-feira (com 50% do ensino em formato presencial), também com grandes variações regionais.