Jorge Torgal: “A bem da saúde, nada obstaria a que as eleições presidenciais fossem mais tarde”

Céptico das virtudes do confinamento total, o especialista em Saúde Pública defende o adiamento das Presidenciais: “Estamos aqui numa contradição”, afirma. Afinal, é o mesmo Governo que vai decretar o confinamento para “proteger os cidadãos” que lhes diz “que têm que infringir essa protecção para cumprir um acto cívico”

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Nuno Ferreira Santos

Vamos fechar tudo outra vez?
O confinamento baixará a transmissão da infecção mas não vai resolver aquilo que para mim é o essencial, que é baixar o número de mortos pela doença. Sabemos que a maioria das infecções não provoca doença e, olhando para a mortalidade, sabemos que são aqueles que têm mais de 80 anos que morrem com covid. Não é que a covid os mate: a covid é o factor desencadeante das outras patologias e fragilidades que essas pessoas têm. Podemos confinar, politicamente será difícil fugir a essa decisão, é aquela que os países da Europa na sua generalidade têm tomado com a excepção da Alemanha que tomou medidas bem precisas e localizadas. A força política para que isso aconteça é muito grande. Basta ler os jornais que há dois dias pedem que tudo se feche. E esta é também uma forma de acalmar o medo que se foi instalando. Mas a eficácia do confinamento é muito baixa.

Fechar tudo tem uma eficácia baixa? Porquê?
A eficácia para evitar as mortes é muito baixa. E a mim o que me preocupa é evitar que as pessoas morram. Acho que devíamos tomar medidas diferenciadas. Ando a pedir isso desde Outubro, medidas dirigidas àqueles que têm mais de 80 anos, as que estão nos lares, as que vivem sozinhas e as que as câmaras municipais sabem que vivem isoladas dentro da comunidade urbana. É junto delas que devemos actuar. E por uma dupla razão: estamos a viver uma época de frio e só o frio é um factor de morte muito importante. O frio conjugado com a infecção é exponenciar o risco de mortalidade. Acho que o Governo e os municípios deviam ter capacidade de actuar com medidas directas juntos dos mais frágeis da comunidade, ajudando-os a passar este período, quer com o frio, quer com a alimentação. Confinar não vai ajudar as pessoas a obter os seus alimentos de uma forma normal, nem ajudar a que as famílias lá vão. Por outro lado, é preciso apoiar as instituições. Vemos todos os dias que numa instituição há 50 idosos infectados e 20 funcionários infectados. E quem toma conta dessas pessoas? Onde estão as pessoas para lhes dar de comer, de cuidar delas do ponto de vista da higiene pessoal? Verificar se têm febre, se têm necessidade de oxigénio? Há um conjunto de medidas simples que se devem tomar e não a medida geral de ficar em casa.

Não baixará a mortalidade?
Baixa a transmissão, mas não diminui a mortalidade e isso é muito preocupante. E é preciso ver que estas pessoas têm outra fragilidade da maior importância, a fragilidade social. Eu lembro que há um milhão e novecentos mil portugueses que vivem com pensões de reforma abaixo de 400 euros. Estas pessoas não têm meios para ter aquecimentos eléctricos ou ter funcionários que as apoiem. As câmaras municipais e o Governo podiam e deviam tomar acções directas junto da comunidade. O confinamento vai provocar enormes problemas sociais e pode mesmo ter efeitos contraproducentes na população com menos meios que vive em habitações sobrelotadas. A medida simples de confinamento que é politicamente desejada por muitos – não sei bem porquê, talvez pelo medo – tem consequências económicas muito graves, consequências sociais graves e não resolve aquilo que para mim é o essencial, a mortalidade. Dizem que o confinamento permite baixar a pressão sobre os hospitais. Mas a gente já sabe que os nossos colegas dos hospitais sofrem muitos todos os anos no Inverno. São poucos, as condições de trabalho são difíceis, andaram-se 10 anos a diminuir as camas dos hospitais porque não eram precisas… Mas todos os anos no Inverno, basta ler os jornais do ano passado… A pressão nos hospitais também se diminui agindo a montante, junto dos mais frágeis.

Mas o que se pode fazer para evitar as mortes dos maiores de 80? As câmaras apoiarem as pessoas que vivem sozinhas?
As câmaras podem levar a casa [dos idosos] alimentos, mantas, ver se têm condições para se proteger do frio, dando números de telefone de contacto. As câmaras sabem muito bem como se faz esta acção social. Numa situação de emergência, tem que haver um programa mais decisivo. Tem que ser o Governo a incentivar as câmaras.

As escolas vão ficar abertas, como o senhor já defendeu no passado…
Todos os dados indicam, agora mais do que no passado, que a transmissibilidade nos jovens não é relevante, tem pouco impacto em termos da epidemia. As escolas devem continuar abertas. É um factor de normalização da sociedade. A sociedade não pode estar fechada. Nós não podemos parar a sociedade com medo de um vírus que é letal, mas vemos que a sua letalidade é bem marcada. E tem aumentado nos maiores de 80 anos. A meio de Novembro era de 135 mortes em cada 1000 infectados e no dia 5 de Janeiro era já de 144. A diferença é abissal. Entre as pessoas entre 50 e 59 anos a mortalidade é 4 em cada 1000.

Acha que as eleições presidenciais devem ser adiadas? Não há um risco da população idosa não ir às mesas de voto por medo?
Acho que aquilo que a Comissão Nacional de Eleições disse, que os idosos devem ir votar e voltar para casa, é para apanhar um golpe de frio que os vai matar. Por outro lado, é aumentar o risco do contágio que vai contra a lógica de baixar a contagiosidade em geral com o confinamento. Acho que os idosos são aqueles que mais votam, olhando para os últimos anos. Havendo um problema tão grande de abstenção, ainda vai aumentar mais esse problema. É evidente que estas eleições são particulares, como em todas as outras o Presidente que se recandidata é reeleito. Mas de qualquer modo eu não gostaria de ser reeleito com uma abstenção superior a 50 por cento seja para que for. Acho que se pudessem ser adiadas, poderiam e deveriam ser. Se é constitucionalmente possível…

Pode-se fazer uma revisão constitucional relâmpago…
Isso já não é comigo (risos). Mas do ponto de vista da saúde da sociedade [a realização da eleição a 24 de Janeiro] é um acto que não facilita a saúde pública, principalmente no grupo mais frágil. Se esse grupo seguir as recomendações, não vai votar. Não deve ir votar. Estamos aqui numa contradição: o mesmo Governo que quer proteger os cidadãos, diz-lhes que têm que infringir essa protecção para cumprir um acto cívico. Acho que há aqui uma contradição. A bem da saúde, nada obstaria a que as eleições presidenciais fossem mais tarde.

Agora começámos a vacinação…
Gostava que as pessoas entendessem que as vacinas não vão acabar com o vírus na sociedade. A covid vai continuar por muitos anos. A vacina irá evitar que as pessoas infectadas venham a ter uma doença grave. Vai evitar a morte. É por isso que devíamos pôr como primeira prioridade os maiores de 80 anos e os profissionais de saúde que estão a trabalhar na primeira linha. Não o geral dos profissionais de saúde, esses deviam vir a seguir. Podemos ter 20 mil casos de infecção por dia desde que não haja 100 mortes por dia.