Lockdown

A dimensão e extensão do presente confinamento fazem-nos antever o pior. Não é por duas semanas, não é até ao fim de Janeiro, é um mês e meio. Um mês e meio para vacinar o maior número de pessoas.

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LUSA/FACUNDO ARRIZABALAGA

Dezembro de 2020 e o Reino Unido ainda longe de compreender a nova variante do coronavírus e como a sua rápida transmissão levaria a recordes diários de casos de infecção. Não obstante e temendo o pior, ou não fossem já várias as vozes de especialistas, infecciologistas e demais, o município de Greenwich, no sudeste de Londres decretou o encerramento das suas escolas. 

A razão, simples, não era senão a da protecção dos seus, das suas crianças, famílias, professores e comunidade em redor na esperança que outros municípios seguissem iguais passos. A reacção do Governo, musculada, não se fez esperar, ameaçando os dirigentes municipais com acções judiciais ou não estivessem os mesmos a colocar em cheque não apenas o bem-estar físico e emocional de milhares de crianças mas também o seu futuro. Resultado: as escolas de Greenwich não só não fecharam antes do Natal, como todas e quaisquer ideias para seguir tal exemplo encontraram rapidamente o seu fim no braço armado dos dirigentes britânicos.

De então para cá, tivemos a realidade dos números e um coro cada vez maior de cientistas, investigadores, sindicatos e partidos políticos. Teimosamente, a resposta do Governo foi uma e só uma, a da premissa fundamental que é a manutenção de todas as escolas abertas. Ainda no fim-de-semana passado, o primeiro-ministro ordenava o regresso ao trabalho aos professores das escolas primárias de áreas menos restritas, ou não fossem estas “seguras” e as crianças “menos susceptíveis de contrair a doença”. E quanto aos adultos em redor? O primeiro-ministro gaguejou na resposta.

Entretanto, delegou-se nas escolas a responsabilidade da testagem semanal de milhões de crianças e respectivos professores com milhares de kits a serem distribuídos nos estabelecimentos de ensino a 4 de Janeiro. Diante da ansiedade de quem tem pouco mais que uma semana para transformar o seu lugar de trabalho de sempre num centro de testes para a covid-19, arregaçámos as mangas e pusemos mãos à obra. Em 12 horas aprendemos sobre esterilização, testes serológicos, exsudados naso e orofaríngeos, zaragatoas, controlo de infecção, entre outros procedimentos hospitalares. E de repente as brumas do medo e do desconhecido não parecem assim tão impenetráveis, não parecem tão desconhecidas. 

No entanto, e já habituados à tal pulga atrás da orelha diante de um Governo que já habituou os eleitores a repetitivos 180° à última da hora sempre que os planos não lhe correm de feição, mantivemo-nos atentos. E ainda mais atentos ficámos no domingo transacto após a exigência do líder trabalhista para um lockdown nacional, traduzido à letra como confinamento geral.

Nada, no entanto, faria prever a dimensão da cedência do Governo de Sua Majestade: diante da nova variante do coronavírus e recordes diários de número de infecções, o Reino Unido está a partir de hoje em lockdown e assim ficaremos pelo menos até meio de Fevereiro. Por culpa da inacção. A mesma culpa que levou ao fim do Natal para dezenas de milhões de britânicos quando a 19 de Dezembro cancelámos toda a esperança de um Natal em família e nos preparámos para uma consoada a sós.

A mesma culpa de quem se recusa a ouvir os avisos de conterrâneos, congéneres e especialistas, negando a verdade dos factos a pés juntos até que é tarde demais — e quando digo tarde demais não me refiro a nós, mas às mais de 75 mil almas já perdidas neste país para a pandemia. Foi assim quando o Governo britânico “desconfinou” à velocidade da luz às portas do Verão. Foi assim quando o Governo se recusou a confinar em meados de Outubro de modo a prevenir males maiores pelo Natal. Foi assim quando o Governo se recusou a implementar medidas mais restritivas antes e depois do Natal.

Até cair em si ao fim do primeiro dia de trabalho para milhões findas as festividades natalícias, dia esse cujos dividendos em termos de vidas humanas estarão igualmente à vista daqui por um mês. No fim, as escolas já não são seguras. Nem as universidades, locais de trabalho e transportes públicos. E se depois de dez meses de restrições, o Governo pensa manter em casa quem menos ganha, desengane-se. Sem apoios, as pessoas continuarão a sair para a rua. 

E nem nos perguntem pelo famoso sistema de rastreio “de nível mundial”. Se quem dirige este barco não tem resposta, o que diremos nós? A dimensão e extensão do presente confinamento fazem-nos antever o pior. Não é por duas semanas, não é até ao fim de Janeiro, é um mês e meio. Um mês e meio para vacinar o maior número de pessoas agora que a vacina de Oxford está também a ser administrada em paralelo com a vacina da Pfizer. 

Dois passos atrás, se queremos dar um passo em frente. E entretanto o confinamento, escolas e empresas cerradas, ruas vazias, cidades vazias, a vida outra vez vazia entre quatro paredes enquanto esperamos por um milagre na ponta de uma agulha. Até lá, sustemos a respiração, mais uma vez