Covid-19: cientistas britânicos temem que vacinas não sejam eficazes contra variante da África do Sul

Especialistas alertam que variante detectada na África do Sul tem mutações na proteína-espícula que estão a gerar preocupação, apesar de considerarem prematuro tirar conclusões quanto à eficácia das vacinas contra esta nova variante.

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Vacina da Universidade de Oxford/Astrazeneca já começou a ser administrada no Reino Unido Reuters/POOL

Alguns cientistas britânicos estão preocupados com a possibilidade de as vacinas que estão a ser administradas no Reino Unido, entre elas a da Pfizer-BioNTech, que está a ser usada em Portugal, não serem eficazes contra a nova variante do coronavírus detectada na África do Sul.

O alarme soou depois do ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, ter dito numa entrevista à BBC que está “incrivelmente preocupado” com a nova variante do vírus, que considera um “problema bastante significativo”, o que levou o Governo a restringir todos os voos provenientes da África do Sul.

As declarações de Hancock surgiram após uma entrevista do reputado cientista britânico John Bell, da Universidade de Oxford, ter levantado dúvidas quanto à eficácia da vacina contra a variante encontrada na África do Sul, apesar de ter garantido que contra a variante britânica detectada em Kent é eficaz.

“Não sei quanto à variante da África do Sul. É um grande ponto de interrogação”, disse Bell, acrescentando que os especialistas estão a fazer testes para confirmar a eficácia da vacina.

Francois Balloux, professor de Biologia Computacional e professor na University College, em Londres, explica que a variante sul-africana contém uma mutação na proteína-espícula chamada E484K que não está presente na variante do Reino Unido e que pode reduzir a resistência imunitária dada pela vacina.

“Foi demonstrado que a mutação E484K reduz o reconhecimento de anticorpos. Como tal, ajuda o vírus SARS-CoV-2 a contornar a protecção imunológica causada por infecção anterior ou vacinação”, contextualiza o cientista, admitindo que “é possível que novas variantes afectem a eficácia das vacinas contra a covid-19”, apesar de de considerar que ainda é cedo para tirar conclusões quanto à variante sul-africana.

Alguns cientistas têm alertado para a possibilidade de alterações significativas na proteína-espícula – utilizada pelo vírus para infectar as células humanas –, o que poderia levar a que a vacina não fosse tão eficaz.

No entanto, a comunidade científica tem apelado à calma, reiterando que não existem provas científicas de que as vacinas que estão a ser administradas não sejam eficazes contra as novas variantes do SARS-Cov-2, mais contagiosas do que as anteriores.

É preciso encontrar o equilíbrio “entre avisar as pessoas sobre algo que pode ser importante e criar pânico, que é o que acho que está a acontecer”, defende Ravi Gupta, professor de Microbiologia Clínica na Universidade de Cambridge, ao The Guardian.

Mutações na proteína-espícula 

Os especialistas têm sublinhado que as mutações do coronavírus são expectáveis, mas que as vacinas deverão funcionar contra as novas variantes. O caso da África do Sul, no entanto, está a gerar mais preocupação.

“A chamada variante sul-africana tem uma série de alterações, e os cientistas estão a trabalhar para compreender o seu significado”, disse ao The Guardian James Naismith, director do Instituto Rosalind Franklin e professor da Universidade de Oxford. “Algumas das mudanças são bastante significativas e os cientistas estão a prestar muita atenção. Ainda não sabemos o suficiente para dizer mais do que isto”, acrescentou.

Sobre essa série de alterações detectadas na variante sul-africana, Simon Clarke, professor de Microbiologia Celular na Universidade de Reading, disse que as mutações são “preocupantes” e que as alterações na proteína-espícula “podem tornar o vírus menos susceptível à resposta imunitária desencadeada pelas vacinas”, além de que esta nova variante é mais contagiosa, o que não leva necessariamente a uma forma mais grave da doença

Além disso, a variante sul-africana é um vírus mais difícil de rastrear, pois carece de algumas mutações na proteína-espícula encontrada no vírus de Kent, que torna mais facilmente detectável pelo teste de PCR [reacção em cadeia da polimerase] usado pelo serviço nacional de saúde”, acrescentou Clarke.

“A acumulação de mais mutações da espícula na variante sul-africana é mais preocupante e pode levar à diminuição da protecção imunitária”, corrobora o virologista Lawrence Young, na Universidade de Warwick, acrescentando que as variantes sul-africana e britânica têm “mudanças no gene da proteína-espícula consistentes com a possibilidade de serem mais infecciosas”.

John Bell e outros cientistas, como o CEO da BioNTechUgur Shain, confirmaram que é possível fazer actualizações às vacinas no prazo de seis semanas. A vacina da Pfizer-BioNTech começou a ser administrada em Dezembro, enquanto a vacina da Universidade de Oxford e da Astrazeneca foi utilizada pela primeira vez na segunda-feira, no Reino Unido.