Israel e Palestina são exemplo do fosso no acesso às vacinas no mundo

O Estado hebraico diz que não tem obrigação de vacinar os palestinianos na Cisjordânia e Gaza, grupos de direitos humanos apelam à vacinação.

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A vacinação em Israel decorre a um ritmo incomparável no mundo ABIR SULTAN/EPA

O contraste entre quem já tem vacinas e quem ainda não tem é grande pelo mundo, com uma série de países ricos a vacinar e uma série de outros países ainda a esperar a sua vez. Mas a diferença dificilmente é maior em algum local do que em Israel e nos territórios palestinianos. O Estado hebraico comemorou este domingo um milhão de vacinas dadas e a marca de 10% da população vacinada, os palestinianos continuam sem ideia de quando poderão esperar as primeiras vacinas, que deverão servir para vacinar 3% dos 5 milhões de palestinianos a viver na Cisjordânia e Faixa de Gaza.

Israel argumenta que não tem qualquer obrigação de ter vacinas para a população da Cisjordânia e Faixa de Gaza porque estas têm o seu próprio governo. Israel tem controlo sobre o que entra ou sai dos territórios, incluindo medicamentos (ou vacinas), como tem sobre a recolha de impostos, como poder ocupante, mas os executivos são palestinianos – do Hamas, no caso da Faixa de Gaza, e da Autoridade Palestiniana, no caso da Cisjordânia.

Israel é um caso de sucesso mundial nas vacinas, mantendo-se na primeira posição de país com maior taxa de vacinação em relação à população, sendo o primeiro a vacinar 10% da sua população, e vacinando em média mais de 100 mil pessoas por dia, só superado por países incomparavelmente maiores EUA e China, segundo a base de dados da Universidade de Oxford Our World in Data.

Tem havido vacinação em estádios, praças, em postos drive-through, e as autoridades dizem esperar que o Estado hebraico possa ser o primeiro país do mundo a vacinar todos os seus habitantes.

Apesar disso, está a notar-se alguma resistência numa parte da população, os cidadãos árabes de Israel. O vacinado número “um milhão”, cuja vacinação contou com a presença do primeiro-ministro israelita  e se tornou um acontecimento mediático, era árabe, e nos últimos dias Benjamin Netanyahu esteve ainda em duas cidades com grande população árabe – também porque a sua estratégia eleitoral passará, segundo alguns analistas, por trazer para o Likud alguns dos eleitores árabes israelitas, tentando capitalizar o apoio entre esta fatia do eleitorado aos acordos entre Israel e países árabes (e fazendo uma volta de 180 graus à estratégia das últimas campanhas, que foi precisamente tentar afastar esta minoria das urnas).

Foi também durante o mandato de Netanyahu que os árabes israelitas viram o seu estatuto descer no país (com a chamada lei de Estado nação de 2018 em que Israel é definido como Estado para os judeus e em que o árabe deixava de ser uma das línguas oficiais e passava a ter apenas um “estatuto protegido”).

Apesar de não haver dados separados, as autoridades de saúde têm registado alguma relutância da minoria árabe em vacinar-se, num ambiente com muita propaganda nas redes sociais. Isso é preocupante não só para a imunidade de grupo no país (os árabes israelitas são cerca de um quinto da população), mas ainda mais porque uma parte substancial de cuidados de saúde – cuidados de enfermagem, por exemplo – são assegurados por árabes israelitas, nota o jornal Times of Israel.

Quanto aos territórios ocupados, as autoridades israelitas sublinham que a competência sobre a saúde nos territórios é da Autoridade Palestiniana e dizem não ter recebido qualquer pedido de coordenação do outro lado. A não vacinação dos palestinianos, especialmente da Cisjordânia, poderá ter também consequências para Israel, já que muitos trabalham em território israelita e também nos colonatos judaicos na Cisjordânia (em Gaza, o facto de o território estar praticamente fechado com um número residual de saídas torna o problema menos relevante, por outro lado, grande parte das saídas autorizadas são para tratamentos médicos em hospitais em Israel).

Israel está neste momento num terceiro confinamento nacional, e registou 6976 novos casos e 19 mortes nesta segunda-feira, enquanto nos territórios palestinianos foram registados 1009 novos casos e 20 mortes.

Um preço muito diferente

A razão pela qual Israel está a conseguir este ritmo de vacinação tem a ver, claro, com o esforço de organização e mobilização e com o bom sistema de saúde, mas também com ter comprado rapidamente um bom número de doses de vacinas. Um responsável do Ministério da Saúde de Israel citado num artigo do jornal britânico The Observer disse que as vacinas (da BioNTech/Pfizer) tinham sido pagas a 62 dólares (50,6 euros) a dose, quando os EUA pagaram 19,50 dólares (15,8 euros). A União Europeia pagou 12 euros (o preço pago pela União Europeia não era conhecido até ter sido publicado acidentalmente pela ministra da Saúde belga no Twitter).

No caso dos palestinianos, onde o governo tem um orçamento muito mais apertado, as primeiras vacinas deverão vir da aliança Covax (aliança de países mais pobres), que prevê um total de doses para 20% da população no total – o primeiro lote vacinará apenas 3% da população e espera-se que chegue, no melhor dos cenários, em Fevereiro.

O resto das vacinas para os palestinianos deverão ser conseguidas através de compras directas às farmacêuticas, mas até agora não houve ainda anúncio de qualquer contrato assinado, excepto uma notícia sobre a compra de 4 milhões de vacinas Sputnik V à Rússia entretanto não confirmada, e outra sobre uma potencial compra à AstraZeneca, que poderia ser usada em 20% dos 5 milhões de palestinianos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Quando no melhor dos casos haverá 3% dos palestinianos vacinados durante o mês de Fevereiro, no fim de Janeiro Israel já terá pelo menos 25% da população vacinada, segundo as expectativas actuais.

Há quem alegue, como o grupo israelita de defesa de direitos humanos Gisha (que se dedica à defesa da liberdade de movimento dos palestinianos), que Israel tem “a derradeira responsabilidade em relação aos palestinianos sob ocupação”, sublinhando ainda que os Acordos de Oslo, em que se baseia a divisão de competências, é um acordo interino de meados dos anos 1990 e que previa um acordo definitivo cinco anos depois, um acordo que nunca aconteceu. Também a organização Médicos pelos Direitos Humanos apelou aos líderes israelitas para que vacinem os palestinianos nos territórios ocupados.

O ministro da Saúde de Israel, Yuli Edelstein, rejeita o argumento mas admite que é do interesse de Israel que os palestinianos sejam vacinados, cita um artigo no diário norte-americano The Washington Post. O ministro põe a hipótese de que doses excedentes possam ser disponibilizadas para os palestinianos, mas não antes dos cidadãos de Israel estarem vacinados.

Além da discussão sobre a obrigação legal ou moral de Israel com os palestinianos dos territórios ocupados, o caso é o exemplo extremo da disparidade de acesso às vacinas entre quem pode pagar e quem não pode. Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, a esmagadora maioria dos países da União Europeia e outros países mais ricos já começaram as suas campanhas de vacinação enquanto outros países, diz o Washington Post, poderão só receber vacinas em 2024.