Também tu nascerias por estes dias, Aurora

Para as estatísticas, és mais um entre tantos abortos espontâneos do primeiro trimestre. São tão duros, os números: estima-se que metade de todas as gravidezes termine num aborto espontâneo. São duros, mas também me ajudam a pôr em perspectiva o que me aconteceu.

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Philipp Berndt/Unsplash

Por esta altura, a nossa casa estaria cheia de coisas tuas por todo o lado. Meias do tamanho dos meus dedos, mantinhas, babetes, pijaminhas, gorrinhos… e um carrinho. Céus, onde é que nós íamos pôr um carrinho...? O meu modo desajeitado de ser estaria perante o desafio diário de cuidar da coisa mais delicada a tempo inteiro.

Mas foi assim. Não pudemos conhecer-te.

Para as estatísticas, és mais um entre tantos abortos espontâneos do primeiro trimestre. São tão duros, os números: estima-se que metade de todas as gravidezes termine num aborto espontâneo. São duros, mas também me ajudam a pôr em perspectiva o que me aconteceu. A certeza de sermos muitas traz algo de partilhado a esta dor. De multiplicado, também, mas partilhado.

Lembra-me a importância de falar de ti. De como foi importante para mim saber que alguém que eu conhecia já tinha passado por isto. Sabia apenas de um casal amigo, tinham-me contado já há bastante tempo. Essas pessoas estiveram sempre no meu pensamento na semana em que te perdi. Não porque me esforçasse por me lembrar ou porque estivessem muito presentes, que não estavam… Talvez porque aquela história, aquela dor de que me falaram, eram a minha única referência próxima naqueles dias. E, sabes, depois de eu contar a tua história a mais pessoas, percebi que conhecia muitas mais. Como abri a porta primeiro, elas entraram. Pareciam um exército.

O teu nome lembra a minha mente que tu exististe. Sem registo nem baptismo, nem cartão de cidadão. O meu corpo não contou a ninguém da tua presença. É por isso que ainda oiço tantas vezes que devia engravidar. Que me perguntam quando vou ter também um bebé. Quando vou dar à avó um bisneto, à tia um sobrinho, ou quando chega a minha vez. Nessas alturas, o que não tive cresce como um balão. Aumenta e aumenta e deixa-me com pouco espaço dentro do peito para expandir os pulmões e respirar. Às vezes, conto a tua história. Gosto de sorrir e de a contar em paz, mas nem sempre estou preparada. As pessoas, que estavam só a meter conversa, costumam ficar sem palavras, como se tivessem os bolsos rotos e tivessem caído todas ao chão. Quando consigo partilhar-te, apanhar contigo as suas palavras, dar-lhes nomes e significados, o balão não me esmaga, mas sobe. E eu fico com a sensação de ter deixado algo bom com as pessoas quando falo de ti, sobretudo quando as pessoas com quem falo ainda podem vir a ser mães. E ainda podem vir a não conhecer quem geraram.

Falar de ti pode ser o que alguém que me ouve precisa para não estar tão sozinha. Mesmo que seja daqui a muito tempo. Por isso, o teu nome sai hoje no jornal.