EUA: covid-19 chegou às pequenas comunidades e está a devastar a América rural

A pandemia já não é só um problema das grandes cidades e as taxas de infecção e mortes per capita têm disparado nos estados mais rurais, como o Dakota do Norte ou o Dakota do Sul. Populações mais envelhecidas e expostas à doença são também mais conservadoras e reticentes quanto ao uso de máscara.

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Doente internada com covid-19 no hospital de Hutchinson, no estado do Kansas Reuters/CALLAGHAN O'HARE

Nos primeiros meses da pandemia de covid-19 nos Estados Unidos, foram atingidas principalmente as grandes cidades, como Nova Iorque ou Nova Jérsia, com as localidades rurais a serem poupadas na primeira vaga. Mas, com o passar dos meses e o número de infecções e mortes sem dar sinais de abrandar, a covid-19 chegou à América rural, com consequências devastadores para as localidades com precários serviços de saúde e populações envelhecidas, muitas vezes cépticas quanto ao distanciamento físico ou ao uso de máscara.

Desde o início da pandemia, mais de 20 milhões de pessoas foram infectadas com o SARS-CoV-2 e mais de 347 mil morreram nos Estados Unidos devido à covid-19, a doença causada pelo vírus, com o país a registar uma média superior a 200 mil novos casos de infecção diários. Perante este cenário, Anthony Fauci, director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, admitiu que a situação epidemiológica está “fora de controlo” e que poderá piorar nas próximas semanas, continuando a devastar não só as grandes metrópoles como também as comunidades longe das cidades.

Nos últimos meses, a pandemia expandiu-se aos quatro cantos dos Estados Unidos. Uma análise da NPR feita em Setembro sobre os primeiros 100 mil mortos no país dava conta de que um quinto das vítimas vivia em zonas rurais. Nas 100 mil mortes seguintes, os números triplicaram nas pequenas localidades e metade dos óbitos verificou-se fora das grandes metrópoles, com as mortes per capita a dispararem nos últimos meses.

Um dos casos mais paradigmáticos deu-se no início de Dezembro, no Dakota do Norte, quando se atingiu a marca de uma morte por cada 800 habitantes causada pela covid-19, o número mais elevado em todo o mundo, segundo a Forbes. No vizinho Dakota do Sul, na mesma altura, a situação não era muito melhor: uma pessoa por cada mil habitantes tinha morrido devido à covid-19.

Negacionismo

O Dakota do Norte e o Dakota do Sul são também estados maioritariamente conservadores – nas eleições presidenciais de Novembro, Donald Trump conseguiu mais de 60% dos votos em ambos os estados -, com uma parte substancial da população a resistir à utilização de máscara e propensa a acreditar em teorias da conspiração sobre a pandemia. 

“Ainda existem pessoas que negam que [a covid-19] seja real”, disse ao Buzzfeed Ashley Kingdon-Reese, enfermeira num hospital da cidade de Huron, no Dakota do Sul, onde vivem pouco mais de 13 mil pessoas.

“Desde o QAnon [teoria da conspiração] aos apoiantes de Donald Trump, tudo se tornou muito político. É quase mais prejudicial do que a própria doença. Parece que estamos a combater duas pandemias: o vírus e a desinformação”, acrescentou a enfermeira, lamentando a resistência de muitos dos habitantes da sua cidade em usar máscara.

Em Rapid City, também no Dakota do Sul, conta a Associated Press, a tensão quanto a uma proposta do executivo local para a obrigatoriedade do uso de máscara levou a assédio e ameaças a vários políticos, tendo a medida acabado por cair. A governadora do estado, Kristi Noem, apoiante de Trump, continua a rejeitar medidas mais restritivas para conter a pandemia, apesar de os hospitais estarem no limite.

“Continuo a ouvir pessoas a dizerem que não acreditam que [a covid-19] seja mais grave do que uma gripe comum”, disse à AP Stephen Neabore, médico num hospital de Rapid City, que, contra a inacção das autoridades estaduais e o cepticismo de grande parte dos habitantes locais, continua a recomendar o uso de máscara aos seus doentes.

Saída de profissionais de saúde

Contudo, nem todos os profissionais de saúde têm mantido a perseverança de Stephen Neabore e os últimos meses têm sido marcados por vagas de demissões nos hospitais, principalmente em cargos administrativos, mas também em profissionais de saúde como médicos ou enfermeiros.

É o caso de Kristina Darnauer, que apresentou a sua demissão de directora clínica do condado de Rice, no estado do Kansas, após uma vaga de críticas por parte de pessoas que, antes da pandemia, lhe pediam conselhos médicos na igreja ou durante os jogos de futebol dos filhos, mas que agora a desprezam ou insultam por defender o uso de máscara.

“É de partir o coração”, disse à NPR Darnauer, que se mudou para Sterling, no Kansas, há dez anos, para criar os seus filhos numa localidade mais pequena de acordo com os valores de “trabalho árduo, comunidade e preocupação com o próximo”. “As coisas difíceis deveriam unir-nos. Ao invés disso, isto [covid-19] criou uma divisão entre nós”, lamentou.

Populações vulneráveis

Mas a saída de médicos, administradores ou outros profissionais é apenas mais um dos problemas que os hospitais das localidades rurais um pouco por todos os Estados Unidos enfrentam. Com a pandemia de covid-19, o frágil sistema de saúde ficou sobrecarregado e nos hospitais começa a faltar tudo, desde camas em cuidados intensivos a equipamentos médicos, deixando populações frágeis e mais expostas ao coronavírus ainda mais vulneráveis.

A elevada mortalidade nas áreas rurais, onde vivem mais de 46 milhões de norte-americanos, explica-se em parte pelo facto de a população ser mais envelhecida e por isso sujeita a mais doenças crónicas, como hipertensão arterial, diabetes ou obesidade, factores de risco da covid-19. Acresce que os habitantes destas zonas são tendencialmente mais pobres, e por isso com menos acesso a melhores cuidados de saúde, vivendo mais isolados e susceptíveis à toxicodependência ou a doenças mentais.

Tendo em conta todos estes factores de risco, com o início da vacinação dos Estados Unidos, vem agora um novo desafio para a América rural: chegar às pequenas comunidades e localidades com as maiores taxas de infecção e infra-estruturas de saúde precárias - ao nível do armazenamento das vacinas, por exemplo -, além do cepticismo existente entre a população quanto à inoculação.

“É nas pequenas localidades que vivem as pessoas que mais precisam de serviços de saúde e que menos opções disponíveis têm”, disse ao The Wall Street Journal Alan Morgan, chefe da Associação Nacional de Saúde Rural, uma organização sem fins lucrativos que auxilia pequenas comunidades em questões relacionadas com a saúde, defendendo que as populações rurais e vulneráveis devem ter prioridade na administração das vacinas.

“Estas populações foram duramente atingidas pela covid-19 e têm uma rede de segurança muito frágil no que diz respeito aos prestadores de cuidados de saúde”, justificou Morgan.