Voucher de Natal do Bonfim, no Porto, foi “um presente para quem não se pode juntar”

Impossibilitada de realizar o habitual almoço de Natal, a Junta de Freguesia do Bonfim criou o voucher Refeição de Natal Sénior para combater o isolamento desta faixa etária e, simultaneamente, ajudar os restaurantes da freguesia. Houve 221 inscritos.

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A Junta de Freguesia do Bonfim organizou a iniciativa com nove restaurantes da freguesia Manuel Roberto

Na semana passada, ligaram para a secretaria da Junta de Freguesia do Bonfim a pedir para falar com o presidente, José Manuel Carvalho. Nada de atípico no dia-a-dia de um autarca acostumado a parar o que está a fazer para ouvir aqueles que representa. “Era uma senhora que me queria agradecer pelo almoço, disse-me que foi com três amigas e que correu muito bem”, recorda ao PÚBLICO com um sorriso. A cidadã do Bonfim referia-se à refeição natalícia oferecida pela junta através do voucher Refeição Sénior de Natal, que dava direito a uma refeição para pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, durante o mês de Dezembro, num dos nove restaurantes da freguesia parceiros da iniciativa.

Esta foi a alternativa encontrada para proporcionar aos residentes do Bonfim o momento de convívio que todos os anos assinala a quadra festiva. Desta vez, na impossibilidade de realizar o tradicional almoço que reúne centenas de seniores no salão nobre da junta, foi criado um voucher com o duplo propósito de combater o isolamento desta faixa etária, particularmente afectada pelas restrições decorrentes da pandemia, e estimular a economia local através de uma colaboração com restaurantes da zona. Dos 15 restaurantes contactados, “nove responderam favoravelmente”. “Inscreveram-se 221 pessoas e todas levaram um voucher [para usar nos restaurantes listados]”, revela José Manuel Carvalho.

Entre os restaurantes aderentes estão a Nova Era – Churrasqueira e o Restaurante Nova Era 2, que nas últimas semanas receberam cerca de 60 pessoas para fazer uma refeição. “Não tem havido uma adesão muito grande, mas não tem sido mau”, adianta o o sócio-gerente da Nova Era. Manuel Carvalho refere que iniciativas como esta “são uma boa ajuda quer para os restaurantes quer para as pessoas”. “Se calhar de outra forma não viriam”, comenta. Os beneficiários que ali passaram, sozinhos ou em grupos reduzidos, fizeram-se acompanhar de pratos como polvo à lagareiro, bacalhau assado ou posta à mirandesa.

Alguns quiseram tudo a que o voucher dava direito – sopa, prato principal, sobremesa e bebida, no valor de cerca de 20€ por pessoa –, outros “só quiseram o prato e meia garrafinha de vinho, e depois levaram alguma coisa [para perfazer o valor total], outros ainda pagaram o excesso do valor que consumiram. Todos saíram satisfeitos, reconhece Manuel Carvalho, para quem “deveria haver mais iniciativas destas”. Também Ana Carvalho, empregada de mesa no Caetano, refere que a Refeição Sénior de Natal devolveu algum movimento ao restaurante, que estava há meses “com poucos clientes”.

Embora a adesão não tenha sido substancialmente diferente dos restaurantes anteriores, quem lá foi desfrutou de uma pausa no ano turbulento com um momento de partilha, conforto e alegria. “Isto foi um presente para as pessoas que não se podem juntar [conseguirem fazê-lo de outra forma]”. O Caetano contabilizou, até agora, à volta de 25 pessoas que usufruíram da oferta e que puderam escolher entre almoçar ou jantar no estabelecimento ou levar para casa especialidades como a vitela ou bacalhau assados.

“Tem a ver não só com o almoço, mas sobretudo com a companhia, o convívio, o sair da rotina. Todas essas coisas são muito importantes”, sublinha José Manuel Carvalho. O valor humano e solidário desta acção é, aliás, a maior compensação que traz, de acordo com Nelson Manuel, dono do restaurante Manuel Alves. Aqui apenas 12 pessoas tiraram partido da iniciativa, por isso não foi grande o impacto na facturação. Até porque, diz o proprietário, há várias condicionantes transversais ao contexto actual que limitam a própria utilização dos vales. “Os horários [o encerramento às 13h00 nos feriados e fins-de-semana] são muito complicados. É preciso gerir muito bem a cozinha para não sobrar comida”, desabafa.