Covid-19: Querer ou não querer ser vacinado?

Analogamente ao que se passa em época de eleições, estes 65% de portugueses com dúvidas, são uma espécie de abstencionistas que urge deixarem de o ser. Porque esta abstenção põe em causa a saúde de todos nós.

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"Dedicação, humanismo, altruísmo e competência foram os motivos porque o escolhi para padrinho de curso" LUSA/JOSE COELHO

— Querer ou não querer ser vacinado com a vacina anti-covid?
Eis uma questão que me deixa estarrecida.
Não tem nada de filosófico, como o “Ser ou não ser”,
e não consigo compreender como é possível, na actual situação de arrastada pandemia à escala planetária, existir ainda alguma dúvida.

No dia 1 da vacinação no nosso país, a primeira pessoa a ser vacinada encheu-me de orgulho e boas recordações.
O Prof. Dr. António Sarmento, que há mais de 20 anos escolhi para abençoar a minha cartola amarela.
Dedicação, humanismo, altruísmo e competência foram os motivos porque o escolhi para padrinho de curso.
Foi um dos meus modelos para seguir em frente como médica.

Como seria de esperar, falou assertivamente:
“— Estou absolutamente tranquilo com a vacina... Confiante e optimista.”
“— E como qualquer cidadão, não corri atrás da vacina (...)
O risco não é zero, mas isso nunca é, como para qualquer medicação, ou vacina nova.”

Nas suas palavras serenas,
renovei forças para continuar a trabalhar vestida como astronauta,
até chegar a minha vez de ser vacinada.
Eu, e espero também, o maior número possível de pessoas,
pois só assim a pandemia nos vai dar tréguas.

É bom sinal que os dados recentes do barómetro de covid -19 da Escola Nacional de Saúde Pública indiquem que apenas 2% dos portugueses não queiram ser vacinados. Mas é preocupante que 65% ainda prefiram esperar, o que revela, segundo o estudo, falta de confiança.

Um dos principais motivos é o do costume: a desinformação.
Já escrevi que os doutorados em covid iriam entrar em extinção.
Infelizmente, e tal como ainda teremos longos meses de pandemia pela frente,
também estes seres que infestam as redes sociais, cheios de certezas absolutas, vão demorar a desaparecer.

Ainda mal aterravam os lotes em Portugal e já os doutorados opinavam sobre a vacina.
No padrão habitual dos donos da verdade, costuram mantas de retalhos com ressuscitados mitos sobre o perigo das vacinas em geral,
dissertam teorias alternativas sobre os motivos ocultos para a vacina ter surgido com uma alegada excessiva rapidez,
disseminam imagens de reacções vacinais,
e chegam ao cúmulo de preferirem ser imunizados pela infecção “natural” do que por uma “manhosa” vacina processada em laboratório.

E se muitos de nós não se deixam convencer por argumentos vazios e falaciosos, ocos e despropositados,
existem sempre os que, à cautela, ficam a matutar, porque não há fumo sem fogo.
Mas neste caso, sim, há muito fumo, fumo até demais e que começa a desoxigenar os cérebros de quem gostaria de encerrar o capítulo trágico da História humana que é a pandemia, esse sim o verdadeiro incêndio que tarda em se apagar.

Analogamente ao que se passa em época de eleições, estes 65% de portugueses com dúvidas, são uma espécie de abstencionistas que urge deixarem de o ser. Porque esta abstenção põe em causa a saúde de todos nós.

Se é um facto que teremos de aguardar pela nossa vez,
(vacinarem-nos todos ao mesmo tempo, não era logisticamente viável),
não vejo motivo para querer adiar esse momento.

Cada pessoa que se vacinar contra o coronavírus, está a proteger-se a si, e a evitar a transmissão para os outros.
Tão simples, quanto isto.

Então, para quê adiar?

  • Adiar a drástica redução de mortalidade causada pela covid, só possível com uma imunização massiva?
  •  Adiar que os Profissionais de Saúde possam voltar a dedicar atenção plena às doenças não-covid?
  • Adiar a ida dos nossos filhos para as escolas, ​sem o sentimento de medo, ao qual até já se habituaram dada a enorme capacidade de adaptação das crianças e adolescentes?
  • Adiar a reconstrução da economia?
  • Adiar espalhar sorrisos?
  • Adiar o regresso dos abraços sem restrições?
  • Adiar celebrações, festas, concertos ao ar livre?
  • Adiar toda a liberdade que como portugueses tínhamos o privilégio de sentir, antes da pandemia?

Não adiamos já o suficiente, não colocamos em lista de espera para depois da pandemia um infindável número de coisas boas para fazer?

Intriga-me muito esta falta de confiança numa vacina, 
aquela em que se deposita a verdadeira esperança
para podermos seguir em frente as nossas vidas.

Respiramos ar poluído,
a nossa alimentação está contaminada por pesticidas, hormonas e aditivos,
em nossas casas temos aparelhos eléctricos que podem entrar em curto-circuito e botijas de gás ou caldeiras que podem explodir,
podemos ser atropelados mal saímos à rua e nas estradas onde conduzimos,
o perigo espreita em cada esquina.
Para não falar em catástrofes naturais, cuja imprevisibilidade é inegável.
Vamos deixar de respirar, de nos alimentar, de ter luz eléctrica, aquecimento em casa ou de sair à rua por desconfiança ou medo?

O que falta a 65% dos portugueses para sentirem confiança na vacina?
Como podem sentir mais confiança em correrem o risco de serem infectados do que em serem vacinados?
Não é isto absurdo?

Já não vamos “todos ficar bem” porque muitos, infelizmente, já morreram.
As sequelas da infecção pelo coronavírus não são ainda completamente conhecidas.
Mas para que o máximo possível de pessoas “fique bem” é necessário que o maior número possível seja vacinado.

“— Deixar-se vacinar é uma enorme ajuda para a humanidade.”
As palavras sábias do meu padrinho de curso, o Prof. Dr. António Sarmento, depois de ser vacinado.
Que mais é preciso para confiar na vacina?