Num ano “terrível”, hotéis esperam um réveillon “para esquecer”

Ainda há esperança nas reservas de última hora, porém a “bolha de oxigénio” de outros anos é “para esquecer”, dizem hoteleiros. “Não é ano para festas” — e nem promoções históricas atraem clientes. Mas há excepções.

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Nem todos os hotéis se queixam: “Temos estado completos”, refere proprietária das Casas da Lapa DR/João Armando Ribeiro

O agravamento das medidas restritivas impostas pelo governo para o Ano Novo “comprometeu definitivamente o fim de ano no Algarve”, resume o presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas. “A perspectiva de haver alguma ocupação gorou-se completamente.”

Se 2020 foi um ano “horrível, terrível, desastroso, catastrófico e todos os adjectivos que se possam utilizar”, “o fim de ano é para esquecer”, vaticina o responsável. Este ano, cerca do dobro das unidades hoteleiras da região decidiram encerrar durante o Inverno (80%) e a grande maioria optou por não abrir para o réveillon, “tradicionalmente uma bolha de oxigénio na estação baixa que, já de si, é deficitária”. “Só 20% é que estão em funcionamento e a procura que existe para essas unidades é meramente residual.”

Para Elidérico Viegas, as restrições impostas são “excessivas e despropositadas” e traduzem-se num impacto “desproporcionado” no sector, quando “não há conhecimento de infecções em unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos”. “Estamos à beira de um precipício económico e social na região, provocado pela crise pandémica, pelas medidas restritivas e pela falta de apoios governamentais” que, acusa, têm “sido prometidos” mas “nunca vieram”.

Recorde-se que António Costa assumia a intenção de “proteger o Natal, com o sacrifício da passagem de ano” ao distinguir as medidas restritivas impostas nos dois momentos da quadra festiva, puxando o “travão de mão” às celebrações da última noite de 2020. Ente as medidas impostas inclui-se o fecho dos restaurantes às 22h30 e proibição de circulação na via pública a partir das 23h do dia 31 de Dezembro, a proibição de circulação entre concelhos desde o último dia de 2020 até 4 de Janeiro e o recolher obrigatório a partir das 13h de 1 a 3 de Janeiro.

João Cardoso, administrador de três unidades hoteleiras no Algarve, assume que não esperava que as regras “fossem tão restritivas”, embora previsse limitações. “A passagem de ano é normalmente celebrada com grande aglomeração de pessoas, portanto alguma coisa tinha de ser feita para evitar a propagação da doença.” Apesar de o grupo ter como “filosofia” a ideia de que “um hotel é para estar aberto o ano todo”, acabaram por decidir encerrar o resort Vida Mar durante a época baixa e cancelar a tradicional festa de ano novo.

Já nas duas outras unidades hoteleiras, Salgados Beach Villas e São Rafael Villas, Apartments e Guesthouse, “neste momento, [a taxa de ocupação] num andará por volta dos 30% e, no outro, entre os 35 e os 40%”. O habitual seria ultrapassarem os 80%. É esperado que “haja algumas reservas de última hora”, até porque esse é o comportamento “tradicional” do cliente português, antecipa o responsável, mas os números não deverão subir muito mais, ainda que o preço tenha sido ajustado para corresponder à baixa procura. “Estão com 15 a 25% de desconto em relação ao ano anterior.”

no Sheraton Lisboa, “nunca na história houve quartos a 42€ por casal com pequeno-almoço incluído”, aponta o director-geral da unidade hoteleira, Thierry Henrot. Muito menos na noite de Ano Novo, quando os preços ascendiam aos 200€. Mas é precisamente essa a promoção para o réveillon, anunciada há cerca de uma semana quando, habitualmente, seria comunicada “no fim de Agosto ou início de Setembro”. O jantar de gala no restaurante Panorama, com um menu de degustação de seis pratos, também está “com mais de 50% de redução no preço” e, na reserva da refeição, é possível passar a última noite do ano no hotel por “21 euros por pessoa”. Para contornar a limitação de horário imposta, a sobremesa, o champanhe e as tradicionais passas são entregues em serviço de take away. Ainda assim, dos 369 quartos do hotel, Thierry Henrot espera ter “entre 60 a 80 quartos ocupados”. Em anos anteriores, a taxa de ocupação poderia chegar aos 85%.

No inquérito relativo a Novembro realizado pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, já se perspectivava um mês em quebra para o sector a nível nacional, com “mais de 45% das empresas” a estimar “uma taxa de ocupação zero” em Dezembro e “mais de 32% das empresas” a perspectivar uma ocupação máxima “de 10%”.

Na Serra da Estrela, se em meados de Novembro o Hotel Eurosol Seia Camelo já estava completo para a passagem de ano de 2019/2020, desta vez as contas estão “muito más”, garante Acácio Mendes, director geral do grupo com cinco unidades hoteleiras. A ocupação rondou os cinquenta por cento entre o Natal e o Ano Novo, mas para os últimos dias de 2020 o número de reservas é “perfeitamente residual” e a partir do dia 30 “passa a zero”. “Temos uma ou duas reservas, que provavelmente serão canceladas”, anota Acácio Mendes, sem mecanismos para enfrentar os limites de circulação impostos.

O Hotel Eurosol ainda fez pacotes especiais para os primeiros fins-de-semana de Dezembro que acabaria por cancelar. “Para agora não criámos nenhum pacote porque vimos que não valeria a pena”, diz o director-geral de um grupo que há um ano tinha “casa cheia”. “Este ano até temos a sorte de haver neve e tudo, coisa que não aconteceu no ano passado”. Se Seia sair da lista de concelhos de risco muito e extremamente elevado, espera-se uma “procura considerável” para os fins-de-semana de Janeiro, Fevereiro e Março ("as pessoas estão ávidas de sair de casa"). Mas Acácio Mendes só espera “alguma recuperação ténue” a partir de Abril e em resultado da vacinação que já deu início.

A 800 metros de altitude, as Casas da Lapa propõem terminar o ano numa aldeia na montanha e com a Serra da Estrela como enquadramento. Inaugurada há 15 anos, a unidade de alojamento, situada a poucos quilómetros de Seia, foi requalificada e reabriu com 15 quartos em Junho em plena pandemia. “Temos estado completos”, contabiliza a proprietária Maria Manuel, com metade das suites reservadas para este fim de ano.

As Casas da Lapa apresentam um programa de quatro noites (de 31 de Dezembro a 4 de Janeiro), embora a duração possa ser encurtada para duas ou três noites. A ideia é “retemperar baterias e preparar-se para o ano novo que aí vem”. O programa inclui pequeno-almoço e jantar — opções vegetarianas e veganas sempre presentes —, caminhadas diárias e piqueniques, acesso à piscina interior e à sauna. Vinho do Porto e chocolates caseiros à chegada, ceia de fim de ano, contagem decrescente à volta da fogueira e brunch “sem horas” nos primeiros dias de 2021. Os valores para esta entrada “de luxo” em 2021 ronda os mil euros por casal para as quatro noites. “No fim de um ano tão complexo, acreditamos que a entrada em 2021 deve ser celebrada de forma redobrada — por representar a esperança no Ano Novo e porque aqui podemos fazê-lo em paz e em harmonia com a natureza”, considera Maria Manuel.

No Alentejo, o Torre de Palma Wine Hotel, com apenas 19 quartos, está confiante numa quadra com ocupação “a 100%”, culminando um mês de Dezembro que “tem corrido acima das expectativas”, em contraciclo com o panorama no sector, aponta uma das proprietárias, Luísa Rebelo.

Como este “não é tempo de fazer festas”, a unidade localizada no concelho de Monforte não terá DJ nem bar aberto, como em anos anteriores. “Foi mais vocacionar esta altura do ano para aquilo que as pessoas geralmente procuram quando nos visitam, que é a natureza, a calma e, no fundo, entrar no ano novo nesse ambiente e aproveitar para descansar e sair das cidades.” O jantar vai começar e terminar mais cedo, mas o fogo-de-artifício lançado do alto da torre não foi cancelado. “Decidimos manter só para marcar a hora.”

Já na Herdade da Malhadinha Nova, apesar de não haver festa nem música, como era habitual, o programa de fim de ano dura quatro dias (de 30 de Dezembro a 2 de Janeiro) e “já esgotou para a totalidade dos quartos há alguns meses”, revela uma das proprietárias, Rita Soares. 

Além do jantar iniciar mais cedo “de forma a terminar à hora imposta”, será preparado “em cada quarto e villa uma forma de cada família celebrar individualmente” as doze badaladas. Quanto a 2021, Rita Soares assume ser “muito difícil ainda de prever”, mas acredita “num futuro promissor para projectos com as características da Malhadinha, para o Alentejo em particular e para Portugal”. Mas “alguma normalidade”, só mesmo em 2022.