K.C. Jones nunca precisou das estatísticas para ser dos maiores

Um dos basquetebolistas mais titulados da NBA morreu vítima de Alzheimer no dia de Natal.

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K.C. Jones em acção DR

Muitos gracejavam que o “C” no nome de K.C. Jones era uma referência a campeonatos. E é fácil perceber porquê. Jogou nove temporadas na Liga Norte-americana de Basquetebol profissional (NBA), sempre nos Boston Celtics, e foi oito vezes campeão, a que juntou mais quatro títulos enquanto treinador. K.C. Jones morreu no dia de Natal, com 88 anos.

Nascido no Texas, em 1932, K.C. Jones foi um dos bases de uma das equipas mais emblemáticas dos Celtics, comandada a partir do banco por Red Auerbach e, décadas depois, foi ele próprio o técnico dos “verde e brancos” orientando jogadores como Larry Bird, Kevin McHale e Robert Parish, com os quais voltaria a ser campeão (1984 e 1986) - somou ainda mais dois títulos como adjunto.

K.C. Jones teve, de facto, uma carreira repleta de conquistas. Começou a destacar-se ainda na liga universitária, triunfando ao serviço da Universidade de São Francisco em 1955 e 1956.

Nesse ano, sagrou-se campeão olímpico pelos Estados Unidos nos jogos de Melbourne. Seguiram-se os anos de glória nos Celtics, conquistando oito anéis de campeão como jogador (1959-1966) e tornando-se num dos únicos oito jogadores da história da NBA (juntamente com Michael Jordan, Magic Johnson, Jerry Lucas, Bill Russel, Anthony Davis, Quinn Buckner e Clyde Lovellette) a conquistar campeonatos universitários e profissionais e um título olímpico, ou seja, alcançando a “tríplice coroa”. Conquistas que abriram a K.C. Jones as portas do Hall of Fame da NBA em 1989.

O camisola 25 dos Celtics – que decidiram não a entregar a mais ninguém por respeito a K.C. Jones – não era senhor de estatísticas de encher o olho - média de 7,4 pontos, 4,3 assistências e uma percentagem de acerto de lançamento de 38,7%. Mas K.C. Jones compensava estes números com uma entrega ao jogo inquestionável.

“Nunca percebi como é que alguém que lançava tão mal como ele podia jogar na NBA”, confessou Bob Cousy, famoso base da equipa dos Celtics e de quem Jones começou por ser suplente e depois substituiu. ‘'Não acreditava que as suas outras qualidades fossem suficientes para o manter na equipa. Mas estava enganado. O homem revelou-se incrível a defender e acabou por aprender o suficiente a atacar para que os adversários não se pudessem dar ao luxo de não o marcar”, acrescentou.

K.C. Jones jogou até 1967, precisamente o único dos nove anos em que competiu na NBA e em que não celebrou o título de campeão, tendo, pouco depois e com 34 anos de vida, decidido abandonar a carreira de jogador.

A sua etapa como técnico inicia-se como treinador universitário em Brandeis e Harvard, juntando-se depois aos Los Angeles Lakers como treinador adjunto de Bill Sharman, onde conquistou mais um anel de campeão, em 1972, o primeiro ganho a partir do banco.

Nos Celtics, Jones foi campeão pela primeira vez em 1981, ainda como adjunto de Bill Fitch, assumindo depois o cargo de técnico principal e conduzindo a equipa liderada por Larry Bird, Dennis Johnson, Kevin McHale e Robert Parish a quatro finais da NBA consecutivas (1984-87) e ganhando os de 1984 e 1986.

“Todo ele era classe e, para além disso, adorava a competição. Enquanto seu jogador querias fazer o teu melhor para agradar-lhe. Para além disso, tinha uma enorme amabilidade e gentileza que lhe permitia saber sempre o que dizer no momento certo”, revelou Danny Ainge, o “sexto” jogador daqueles Celtics que derrotaram os Lakers nas finais de 1984 (4-3) e os Rockets nas de 1986 (4-2).

“K.C. foi o homem mais amável que conheci na vida. Sempre fazia os possíveis para que as pessoas se sentissem bem. Foi uma honra enorme ter sido seu jogador”, declarou Bird. “As suas conquistas são demasiadas para as enumerar mas, para mim, a maior de todas foi ter sido uma pessoa tão incrível com todos aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer. Sentiremos a falta dele”, acrescentou.

Depois de perder com os Pistons nas finais da Conferência em 1988, K.C. Jones deixou os Boston e foi treinar os Seattle SuperSonics e mais tarde os Detroit Pistons, mas nunca mais repetiu os êxitos que marcaram a sua carreira em Boston, tendo alcançado um registo enquanto treinador de 552 vitórias e 306 derrotas (64,3%).

Os Celtics, o seu clube de sempre, despediram-se dele resumindo o que foi o legado de K.C. Jones para o basquetebol: “Ele tornou os seus colegas de equipa melhores e conseguiu extrair o melhor dos jogadores que treinou. Sem nunca ter procurado retirar o mérito a quem quer que fosse, a sua glória assentou nos mais basilares ideiais do basquetebol — fazer parte de uma equipa vencedora.”