Um Novo Ano sob o signo da lucidez

O recuo dos resultados dos alunos portugueses a Matemática deveria constituir um grito de alarme contra o facilitismo que a “geringonça” quis introduzir no sistema educativo.

Neste aproximar do final de um ano invulgar, dominado por medos e restrições de liberdade, por teletrabalho e preocupações sanitárias, foi preocupante assistirmos à descida da classificação de Portugal na avaliação internacional dos conhecimentos dos alunos, no âmbito do TIMSS. Este facto, pela sua gravidade, deveria constituir um grito de alarme contra o facilitismo que a “geringonça” (e certos membros mais radicais do Governo) quis introduzir no sistema educativo, destruindo boa parte da exigência de governos anteriores.

Se é evidente que o aluno deve ser o centro do sistema, não o é menos que a densificação da transmissão dos conhecimentos, a exigência e o rigor no ensino das línguas e nas disciplinas científicas, o reforço da componente tecnológica num mundo que caminha para a generalização da inteligência artificial, tal como a dignificação e defesa do estatuto dos professores, constituem pilares essenciais de um ensino que promova realmente a igualdade de oportunidades entre todos os jovens e os prepare científica e tecnologicamente para o exercício de profissões que tornem o País economicamente mais resiliente e internacionalmente mais competitivo.

A qualidade do ensino, a quem cabe fazer fermentar o racionalismo contra os preconceitos de toda a espécie, bem como a desmistificação das ideias simplistas, ainda que superficialmente generosas, dos que defendem o facilitismo na Educação, constitui um instrumento poderoso e insubstituível do combate pela cultura e pela civilização das Luzes, contra as trevas da ignorância que deixam os jovens à mercê de uma pseudo-cultura mediática que os manipula e lhes inculca um conjunto de ideias infantilizantes, quando não também perversas.

Ora, o recuo do espírito científico em grande parte da população, em proporção inversa à vulgarização de certos lugares comuns transformados em novas ideologias, com todo o radicalismo e intolerância que caraterizam uma nova ideologia, não deixam de ser preocupantes.

A saída do sistema de ensino de jovens com graves lacunas na abordagem das Ciências Humanas e com notórios défices em matérias científicas essenciais representa um tremendo falhanço na construção de uma sociedade em que haja verdadeira igualdade de oportunidades.

E também um falhanço na formação de futuros cidadãos, com capacidade de reflexão, de discernimento e de discussão que os imunize à ditadura do politicamente correto (que também lhes é inculcado nos meios de comunicação social, para não falar nos social media) e lhes permita serem no futuro cidadãos livres e pensantes numa sociedade democrática.

Existem em Portugal algumas forças, com presença mediática muito superior à sua representação no conjunto da população, que fazem propostas agressivas (e tanto mais perigosas quanto simplistas!).

Ao sistema educativo cabe, sem renúncias, sem tibiezas e sem facilitismos, potenciar as inteligências e as energias dos nossos vastos recursos humanos e orientá-los para o grande objetivo da construção de uma sociedade democrática robusta, crítica, plural, tolerante face à diversidade de opiniões, que saiba desmascarar e opor-se às propostas extremistas baseadas na demagogia e no ressentimento. E também uma sociedade que crie bem estar material e o saiba repartir pelas suas componentes de forma equitativa e socialmente justa, sem nunca esquecer a recompensa do mérito e o incentivo ao esforço.

Esperemos que este novo espírito venha a iluminar o Novo Ano, que trará, em paralelo com o ansiado fim desta pandemia devastadora para a saúde física e mental e para a vida social, novos desafios de vária natureza, que exigirão inteligência e criatividade, para que a recuperação económica se faça a um ritmo sustentado, protegendo o nosso potencial produtivo (largamente dependente da inovação e do conhecimento) e impulsionando novos mecanismos que possam combater o desemprego e o alargamento das desigualdades resultantes destes longos meses de intermitentes confinamentos e suspensões da atividade empresarial ao ritmo dos avanços e recuos da covid-19.

Só podemos, desta vez com propriedade, desejar a todos um 2021 verdadeiramente novo!

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico