Um mundo sem espectáculos: não é uma distopia, foi a realidade

Durante três meses, a pandemia esvaziou radicalmente palcos e plateias. Privado do ritual catártico e fundacional do teatro e da dança ao vivo, o público procurou sucedâneos e depois festejou o regresso às salas. Não as reencontrou “como dantes”, mas reinventou-se com elas, assumindo o privilégio e o fardo fatalmente aumentados de ser testemunha — no limite, a única — de espectáculos mais frágeis e mais fugazes do que nunca.

Foto
100% Pop, espectáculo-manifesto em que a zimbabweana Nora Chipaumir vergastava o público com o chicote da culpa colonial ANDRÉ DELHAYE

Testemunhar era a palavra de ordem, o imperativo moral, que havia nas entrelinhas desse portento com que, transpondo várias dificuldades praticamente intransponíveis (entre as quais uma pandemia e um lockdown), Marlene Monteiro Freitas marcou o ano de 2020 das únicas três comunidades de espectadores — repartidas por Hamburgo, Viena e Lisboa — que tiveram o privilégio de assistir a Mal — Embriaguez Divina. Seguramente um dos mais fulgurantes acontecimentos em palco deste 2020 em que tais proclamações se tornaram radicalmente inseguras ou mesmo absurdas — sobretudo num terreno instável como o das artes vivas e portanto vulneráveis ao contágio e à doença —, a nova criação desta coreógrafa nascida em Cabo Verde, radicada em Portugal e cada vez mais inscrita na cena internacional foi uma das incontáveis vítimas não mortais da covid-19: sucessivamente adiada, sucessivamente cancelada (inclusive a menos de duas horas de subir ao palco, após teste positivo de um dos bailarinos, como aconteceu em Outubro no Teatro Municipal do Porto, onde deveria ter “coroado” um ciclo inteiramente dedicado à obra de Marlene), tornou-se privilégio daqueles que conseguiram vencer as lotações impositivamente reduzidas a metade, as carreiras brutalmente encurtadas, os horários subitamente impraticáveis, e garantir um lugar.

Sugerir correcção
Comentar