Neste tuk-tuk viaja-se à boleia do fado de Mariana

Mariana de Figueiredo não abandona o fado, que a acompanhou a vida toda. Sem casas de fado abertas, a jovem fadista virou-se para os tuk-tuk e incorporou a música nas viagens por Lisboa.

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Mariana de Figueiredo começou a cantar numa casa de fados há quatro anos, antes de a pandemia fechar o estabelecimento Hélio Carvalho
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A viagem arranca junto ao Elevador da Glória, nos Restauradores, em Lisboa. Mariana de Figueiredo, 29 anos, está vestida de negro, à fadista, a reflectir a saudade que emana das ruas lisboetas. Entra no tuk-tuk: dentro ouve-se uma guitarra portuguesa, e vai conduzindo pela Baixa pombalina enquanto faz uma tour pelo passado do fado e da cidade.

Passa pelo Rossio e pela Rua Áurea, conduz até à Sé e passa pelo Pastel do Fado, uma casa de fados agora “infelizmente” fechada. “Durante quatro anos da minha vida cantei aqui todos os dias. Passava todas as minhas noites a cantar fado”, conta Mariana ao P3.

Uns metros mais à frente, pára no Miradouro das Portas do Sol para ver a sua “querida” e “amada” Alfama de cima. A tarde ainda é soalheira e o tempo está simpático para o turismo.

Depois de a casa de fados onde cantava fechar em Março, devido à pandemia, Mariana de Figueiredo pegou na sua licenciatura por terminar em História, meteu a guitarra atrás do banco do condutor e, em Junho, passou a conduzir um tuk-tuk. O resultado é uma tour diferente das que se fazem em Lisboa: ouve-se a história dos monumentos e locais da cidade, mas também se ouve o fado e a sua história.

Mariana admite que os colegas das outras tours “explicam outras coisas” que ela não explica. “Perde-se aí um bocadinho, mas não se pode explicar tudo”, admite. O fado tenta compensar qualquer lacuna.

Mariana entrou no negócio dos tuk-tuk em Junho Hélio Carvalho
O fado está sempre presente na tour, e ouve-se fado durante a viagem Hélio Carvalho
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“No início, fiz duas tours sem fado e aquilo era um sufoco para mim, precisava de mostrar às pessoas e aos turistas o que é o fado! Passarem por Alfama e não sentirem o fado, não o respirarem, não o presenciarem... E eu também preciso disso: se vier para a rua trabalhar e não cantar fado, não é um dia para mim”, afirma a lisboeta.

Volta a entrar no tuk-tuk, cumprimenta uma colega e segue caminho até à Senhora do Monte, “sem dúvida nenhuma” a colina com a melhor vista da cidade. Lá, tira a guitarra, senta-se num banco e, com o sol a bater-lhe na cara, começa a entoar Eu queria cantar-te um fado, de Amália Rodrigues.

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A jovem pára sempre na Senhora do Monte para cantar um par de fados Hélio Carvalho

Depois do primeiro fado, uma pequena legião de turistas já se tinha juntado à sua frente. Normalmente, Mariana canta para os turistas, que, revela, ficam “muito surpreendidos” com os dotes da condutora. “Os turistas reagem muito bem por a condutora começar a cantar fado. Ficam maravilhados e gostam muito. Houve muitos que se emocionaram e que eu não estava à espera disso.”

Amália como um espelho de uma vida sofrida

Toca e canta mais um fado de Amália, antes de voltar ao tuk-tuk e descer para Alfama. Mariana de Figueiredo é uma viciada na “diva do fado”: menciona Amália constantemente, canta o seu fado e a sua saudade, revê-se nela.

O fascínio pelo fado partiu da tia-avó Fernanda, de 95 anos, com quem ainda vive e de quem cuida. A voz da fadista mais famosa de sempre ecoa nas paredes lá de casa, e o primeiro fado que aprendeu foi através da tia-avó, Quando eu era pequenina. “Ela começou a ver o meu interesse pelo fado e por cantar Amália Rodrigues, começámos a partilhar muitas canções da Amália e eu ficava a ouvir.”

A voz de Amália serviu para a tia-avó influenciar Mariana a cantar como ela nunca pôde. “Ela era filha de uma comandante da Legião Portuguesa e o pai não a deixou prosseguir nesta vida artística. Na altura não era muito bem visto ter uma filha fadista ou cantadeira. Mas o desejo dela sempre foi ser fadista e cantava para os amigos e para as colectividades”, explica a jovem.

No dia em que a tia-avó Fernanda fez 91 anos, Mariana cantou um fado de Amália no Pastel do Fado e foi aí que a sua carreira arrancou. O fado dedicado foi, claro, de Amália.

“A personagem de Amália, para mim, é uma coisa inexplicável. A Amália é, sem dúvida, a personificação do fado e da tristeza”, diz aos tropeções, olhando para o céu enquanto pensa na cantora.

A jovem fadista confessa que se revê na “estranha forma de vida” que Amália também teve. Uma vida que reflecte o fado português: há momentos alegres, fados e marchas contentes, “picos de alegria”, mas a maior parte do tempo é passado rodeado de “amargura”. “A minha história de vida também foi uma ‘estranha história de vida’, em que de repente estava a ser cuidada por uma pessoa com 70 anos, o que, para uma menina de seis anos, é uma diferença gigante. Parece que ganhei esta alma velha e esta forma de ver a vida muito antiga”, reflecte Mariana.

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Amália Rodrigues é, defende Mariana, a maior diva do fado e a sua maior inspiração Hélio Carvalho

Mas nem tudo é negativo, salienta. A carreira no fado começou tarde por falta de oportunidades, houve tristeza e mágoa até começar a cantar profissionalmente, mas a jovem acredita que esse caminho foi essencial para entender o fado.

“Acho que precisamos de experienciar coisas da vida. Não têm de ser necessariamente más, mas precisamos de saber o que é ter o coração partido, precisamos de saber o que é quando alguém morre, saber aquela dor e aquela saudade de não poder estar com aquela pessoa. Acho que, para sentir o fado, precisei dessas experiências.”

Por um fado sem limites

Chegada a Alfama, Mariana estaciona o tuk-tuk em frente do Museu do Fado e caminha pelas ruas tradicionais lisboetas, que em época de santos populares se costumam encher de festa e arraiais.

Pára num degrau, numa rua sem marcos ou monumentos, e senta-se para cantar a sua versão solitária de Alfama, um fado escrito por Ary dos Santos e Alain Oulman e cantado, em tempos, por Amália.

Quando depois toca a Marcha de Alfama, já há várias cabeças a espreitar pelas janelas e outras que pararam para a ouvir. Uma delas acompanha a fadista, canta atrás da máscara e bate palmas. No final, há aplausos.

Alfama cheira a fado e Mariana faz questão de dar a conhecer as suas ruas aos turistas Hélio Carvalho
Há muitas plateias inesperadas quando a fadista se senta a cantar Hélio Carvalho
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Mariana toca e canta sozinha, e defende que "não deve haver limites no fado" Hélio Carvalho
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Em episódios de Anda o Sol na Minha Rua, da RTP2, Mariana gravou alguns destes fados e, além da guitarra na mão, também tinha uma maquilhagem colorida e brilhante, uma estética que contrasta com a sobriedade do fado. Mariana de Figueiredo concorda que há formas tradicionais a manter de cantar e sentir o fado, mas vinca que é preciso “romper as tradições”.

“As pessoas não conseguem identificar logo que é fado porque não tem a guitarra portuguesa, porque é tudo alusivo à guitarra portuguesa, mas para mim também é uma forma de fado. O fado até pode ser cantado a capella.

Admite que, quando cantava na casa de fados, começou por haver alguma relutância por “não cantar igual a uma fadista que cantava nos anos 50”. “Porque é que não posso cantar da maneira que estou a sentir? Cantei duas vezes os mesmos fados e nunca são iguais, nunca serão iguais, porque passados cinco minutos já estou a sentir outra coisa. Não sou um robô. Acho que não deve haver limites na música e não deve haver limites no fado.”

Para já, os fados cantados, sentidos e modernizados não são só seus; originais, “em princípio, para 2021, quando isto estiver mais calmo”. “Vou começar a publicar originais de fado, só com a viola ou com outras sonoridades, um pouco como se fez com o Raül Refree. Lá está, outra diferença no fado”, sublinha Mariana, antes de rematar: “Há que romper para poder evoluir.”

Cantar na rua é bom, mas insustentável

Já sentada nos degraus do Largo de São Miguel, escondida da luz, Mariana de Figueiredo diz sentir “muita saudade” em cantar numa casa de fados, mas, apesar de o retorno financeiro não ser sustentável, cantar nas ruas para quem passa e usar o fado nas tours é, pelo menos, uma forma de ganhar reconhecimento.

“Quando estava naquela casa de fados, só os turistas e poucos portugueses me ouviam. Como cantava todos os dias, não tinha muita elasticidade para poder ir a outros sítios. Nesta pandemia, tive, se calhar, mais oportunidades do que em quatro anos de estar a cantar numa casa de fados”, conta Mariana.

Não ter o fado como um trabalho fixo não é ideal. Mariana de Figueiredo esclarece que “não é vergonha nenhuma cantar na rua, é só difícil”. “Não podemos ser idealistas e dizer que é tudo muito bonito estar a cantar na rua; é claro que preciso de sobreviver e tenho a minha tia-avó para cuidar.”

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Mariana de Figueiredo espera começar a lançar originais em 2021, quando a pandemia "acalmar" Hélio Carvalho

Com a lição dada, Mariana arruma a guitarra no saco, volta ao tuk-tuk e termina o roteiro na casa de partida, nos Restauradores, com Lisboa já debaixo de um fresco anoitecer.

O objectivo da jovem pós-pandemia é simples: “Conseguir um lugarzinho no espaço musical.” Apesar da crise na cultura, Mariana não baixa os braços e continua esperançosa em “ir cantar a outros sítios, não só em Lisboa”.

“Cada um tem o seu fado, o seu destino”, conclui. Até lá fica, o seu fado fica preso ao turismo, mas Mariana promete continuar a conduzir e a cantar para turistas, até que a voz lhe doa.