Em Portugal será possível vacinar contra a covid-19 até 75 mil pessoas por dia

Francisco Ramos, coordenador da taskforce criada pelo Governo para gerir o plano de vacinação contra a covid-19, diz que Portugal deverá comprar mais do que os 22,8 milhões de doses que já estão acordados com as farmacêuticas nos próximos meses. “É um enorme erro que qualquer país seja egoísta e queira as vacinas só para si. Não é possível ficarmos protegidos se nos vacinarmos só a nós.”

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"Quem já esteve infectado pode receber a vacina", diz Francisco Ramos Rui Gaudêncio

O coordenador da taskforce criada pelo Governo para gerir o plano de vacinação contra a covid-19 em Portugal, o ex-secretário de Estado da Saúde Francisco Ramos, acredita que será possível atingir a imunidade de grupo no próximo Verão, “porque o que os especialistas dizem” que “será conseguida com 60 a 70% da população” vacinada.

Mas pede “extrema prudência”. A vacina “é apenas uma parte da solução, não é um milagre, não é o golpe de mágica que tudo vai resolver”. Adianta também que vai recomendar ao Governo que peça um parecer ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida sobre o consentimento esclarecido das pessoas com demência. E não acha que seja problemático chegar às pessoas que não têm telemóvel — e que não podem assim receber um SMS que as questiona sobre se querem ou não ser vacinadas. “Numa grande cidade será provavelmente [através de] uma carta, numa pequena localidade, [através de] um recado que alguém fará chegar à própria pessoa”, explica. 

Quando chegam as primeiras doses da primeira vacina, a Pfizer-BioNTech?
No dia 24 ou no dia 26. A distribuição ocorrerá em simultâneo nos 27 Estados-membros da União Europeia e o que já está fechado é o acordo político de que o início do processo de vacinação arrancará em todos os países entre os dias 27 e 29 de Dezembro.

Quais são os hospitais selecionados para a administração das primeiras doses a profissionais de saúde?
Essa lista ainda não está fechada, mas serão grandes hospitais por uma razão logística, de distribuição. Como estamos a falar de duas caixas com 9750 doses, temos que limitar o número de hospitais para começar. É um primeiro momento simbólico. Depois o que está confirmado é a entrega de cerca de 300 mil doses em Janeiro, 420 mil na primeira semana de Fevereiro e 490 mil na primeira semana de Março.

São muitos os profissionais de saúde que não querem ser vacinados?
A única informação que tenho, de um hospital que conheço, é que 85% dos inquiridos aceitaram vacinar-se, o que me parece francamente positivo, quando se compara com a vacina da gripe em que nunca mais de 50% aderem à vacinação.

Os infectados vão ou não ser vacinados?
Quem já esteve infectado pode receber a vacina, porque nos ensaios clínicos a vacina foi administrada a pessoas que já tinham contraído a doença e, portanto, continuou a ser segura.

Mas isso não é um desperdício, uma vez que em princípio já desenvolveram anticorpos?
Ainda não há consenso nem uma decisão científica que talvez venha a haver quando [nesta segunda-feira] a Agência Europeia do Medicamento produzir o seu parecer final [sobre a vacina da Pfizer] no sentido de dizer que, apesar de já terem alguns anticorpos, vale a pena tomarem a vacina, porque isso reforça a protecção ou não.

Disse que a eficácia será inferior aos cerca de 95% anunciados nos ensaios clínicos e que deverá oscilar entre 70 a 80%. Porquê?
Em todas as tecnologias acontece isso. Apostaria que vai ser bem abaixo de 95%. E se ficar por esses números [70% a 80%] será uma efectividade excelente, muito acima do que é normal nas outras vacinas.

Em caso de reacções adversas graves, quem é que se vai responsabilizar? Os Estados ou as farmacêuticas?
Francamente, essa questão não me preocupa neste momento, mas sim a de garantir que há condições de segurança nos locais de administração para que essas situações sejam atendidas de imediato.

Mas as farmacêuticas pediram aos Estados apoio se alguma coisa corresse mal, não foi?
Se há processo em que a Europa se portou muito bem foi este. A Europa começou por dar apoio à ciência, no desenvolvimento da vacina, e foram larguíssimos milhares de milhões de euros. Deu apoio à indústria, sobretudo com compras antecipadas e com a garantia de que as vacinas serão pagas mesmo que não sejam aprovadas. Foi isso que permitiu que começassem a produzir em larga escala mesmo antes da aprovação.

No plano prevêem o chamado consentimento esclarecido antes da administração da vacina contra a covid. Como é que isso vai ser feito?
Isso não coloca qualquer problema novo. A regra do consentimento informado aplica-se a todos os cuidados de saúde, seja a uma vacina, a qualquer medicamento, a qualquer acto de diagnóstico. É um princípio básico.

Mas isso não acontece com as vacinas anuais do Programa Nacional de Vacinação…
Acontece sim. Presume-se que está a consentir em tomar uma vacina pelo facto de se apresentar para a tomar. 

O problema é que esta vacina é nova. Como é que as pessoas vão ser informadas das eventuais reacções adversas? Como é que se faz com as pessoas com demência?
Essa é uma questão que provavelmente ainda terá que ser esclarecida. Acho que devemos solicitar um parecer ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida para ver como se obtém o consentimento informado das pessoas que não têm capacidade de decidir por si próprias.

Nos lares de idosos, uma parte substancial dos residentes sofrem de demência. O parecer ainda virá a tempo, quando se prevê que a vacinação arranque em Janeiro e termine em Fevereiro nos lares?
Espero que sim, que seja possível obter todos os esclarecimentos sobre isso até que a vacinação arranque.

E se não for possível?
Hão-de-ser vacinados ou não mesmo sem parecer do Conselho de Ética. Como é que se fez na gripe? Levantada a questão, acho que deve ser o Governo a pedir um parecer, o que recomendo é que peça. Esta vacina é nova, foi desenvolvida rapidamente, mas ou temos confiança nas agências do medicamento ou não. E já se pronunciaram [aprovaram a da Pfizer] a agência canadiana, a britânica, a norte-americana, hoje [sábado] foi a da Suíça. Acho que é mais do que suficiente para termos a garantia de que é segura.

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EMA dá hoje o seu parecer final sobre a vacina da BioNTech REUTERS/Piroschka van de Wouw

Já sabem quantos funcionários e residentes em lares e internados em unidades de cuidados continuados querem ser imunizados?
Esse é um processo que já está a decorrer e está a ser promovido pelas unidades de saúde a nível local. Na maior parte das situações, aliás, serão as equipas de cuidados da comunidade dos centros de saúde que se deslocarão aos lares para vacinar. Se as equipas tiverem confiança suficiente nas equipas de enfermagem dos lares articularão com estas.

Haverá lares mais prioritários do que outros?
Não. Queremos ir a todos os lares em Janeiro e Fevereiro. A expectativa é que, só em Janeiro, se consiga atingir 75% das pessoas residentes em lares. Faz mais sentido usar a rotina que já foi estabelecida em anteriores situações, por exemplo na vacinação da gripe, do que estar agora com grandes elucubrações à procura de priorizações.

Diz que basta envolver 20% dos enfermeiros dos centros de saúde na primeira fase. Não serão poucos?
Nas estimativas que temos para uma velocidade cruzeiro, de 50 mil doses por dia, é suficiente envolver 20% dos enfermeiros que trabalham nos cuidados de saúde primários. Mas vai haver momentos em que precisaremos de administrar mais do que 50 mil por dia. Como é que vamos conseguir aumentar a capacidade? Por exemplo, com os centros dedicados exclusivamente à vacinação, sobretudo nos centros urbanos, nas cidades. Mas a minha estimativa é que antes de Maio não haverá vacinas suficientes em Portugal para que isso seja necessário, a menos que aconteça algum milagre. As vacinas que vamos receber no primeiro trimestre dificilmente ultrapassarão os 2,5 milhões e, mesmo isso é num cenário optimista, que implica que a aprovação da vacina da Astrazeneca ocorra muito depressa. Muito provavelmente será menos do que isso, seguramente um milhão e meio, entre a vacina da Pfizer e a da Moderna.

No plano antecipam, porém, dois cenários que passam pela vacinação a duas velocidades.
Se mantiverem 50 mil inoculações por dia, são 25 mil pessoas vacinadas diariamente [porque são necessárias duas doses], e, assim, para vacinar 10 milhões de portugueses seriam necessários 400 dias. Temos que ser capazes de fazer mais depressa. Portanto, uma das formas de fazer mais depressa é ter centros de vacinação, outra é, por exemplo, envolver nessa fase também as farmácias.

Falam mesmo na possibilidade de chegar às 150 mil por dia. Isso é exequível?
Se tivermos nalgum mês três milhões de doses para administrar, precisamos de ser capazes de o fazer a um ritmo de 150 mil doses por dia [75 mil pessoas por dia]. O plano estima uma capacidade máxima de vacinação de 150 mil inoculações por dia, mas há dados que baralham um bocadinho as contas, porque a vacina da Janssen é só uma dose e essa, se tudo correr bem, em Junho poderá estar disponível para ser usada também. 

Portugal vai receber apenas os 22,8 milhões de doses que estão já pré-acordadas ou as aquisições ainda vão ser alargadas nos próximos meses?
Seguramente vão ser alargadas. Comprar mais fará todo o sentido. Houve já [um pré-acordo] com mais uma nova empresa [Novavax] e haverá provavelmente com outras. Espero que toda a Europa assuma as suas responsabilidades no sentido de dispensar algumas dessas vacinas aos países que terão mais dificuldades em comprá-las. É um enorme erro que qualquer país seja egoísta e queira as vacinas só para si. Não é possível ficarmos protegidos se nos vacinarmos só a nós.

As compras para Portugal podem atingir que quantidade? Trinta milhões de doses?
Bastante mais do que isso. Já imaginou a quantidade de pessoas em África, América do Sul, Ásia, que só terão vacinas se países como os europeus, os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, suportarem a aquisição de vacinas para eles?

A nova estirpe que surgiu no Reino Unido não vai ter impacto nos planos de vacinação?
Não arrisco meter-me nisso...

É razoável pensar que conseguiremos chegar a imunidade de grupo no Verão?
Sim, é possível, porque o que os especialistas dizem é que a imunidade será conseguida com 60% a 70% da população. Mas temos que ter extrema prudência. A prioridade agora é mantermos todos os cuidados. A vacina é uma enorme esperança para conseguirmos ultrapassar a pandemia, mas é apenas uma parte da solução, não é um milagre, não é o golpe de mágica que tudo vai resolver e, sobretudo, o início da vacinação não deve implicar qualquer alteração nas exigências que teremos que manter pelo menos por seis meses.

Como é que tencionam informar a população que está cheia de dúvidas sobre todo este processo?
Provavelmente ainda este mês vamos começar a difundir SMS com informação. O veículo será o sistema de protecção civil que tem sido usado para situações como o mau tempo, incêndios, etc.

Mas como vão chegar às pessoas que não têm telemóvel? No plano diz-se que os incluídos no grupo dos 400 mil com co-morbilidades receberão um SMS a perguntar se querem ou não ser vacinados.
No caso das pessoas que não têm telemóvel, os serviços de saúde procurarão soluções alternativas. Numa grande cidade será provavelmente uma carta, numa pequena localidade, um recado que alguém fará chegar à própria pessoa. Dada a capilaridade que o Serviço Nacional de Saúde tem, haverá certamente formatos muitos diferentes de chegarmos às pessoas. Vamos tentar chegar a todas. Vai haver também um portal interactivo onde as pessoas podem obter informação, como uma previsão sobre o calendário da sua vacinação. Haverá igualmente uma linha telefónica onde podem obter todos os esclarecimentos.

O presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar diz que há muito mais do que 400 mil pessoas a partir dos 50 anos com as doenças mais graves incluídas na primeira fase da vacinação. Diz que serão o dobro.
A DGS [Direcção-Geral da Saúde] está a trabalhar com as sociedades científicas no sentido de fazer uma caracterização mais fina. Os 400 mil são meramente uma estimativa, não se fez uma identificação prévia.

As vacinas vão chegar de avião?
Suponho que sim, mas não lhe posso garantir isso. As duas primeiras caixas vão chegar de avião, agora no caso das 300 mil doses [do segundo lote] já não consigo garantir. É a Pfizer que entrega as vacinas nos locais indicados no contrato — um no Continente, na região Centro, outro no Funchal e outro em Ponta Delgada.

Está definido a que aeroporto vão chegar?
Espero que sim, mas não me pergunte a mim qual é. Enquanto taskforce, nós temos que nos preocupar, a partir do momento em que chegam ao tal armazém central, em guardá-las e distribuí-las. Até lá, a responsável é a Pfizer. As vacinas vão sair dos armazéns em veículos de transporte habituais das empresas que fazem distribuição de medicamentos, já foram contactados dois ou três grossistas, que as levarão ou para locais onde será feita a repartição, ou directamente para pontos de vacinação finais.  

Vão para as cinco administrações regionais de saúde (ARS)?
As ARS vão eventualmente superintender o processo. Por exemplo, uma caixa com 4875 doses sai do armazém central para a ARS do Alentejo em Évora. Os serviços farmacêuticos da ARS dividem um determinado número de doses que vão para o lar da Nossa Senhora do Rosário, para o da Dona Maria... Quem transporta são as empresas distribuidoras de medicamentos que têm experiência, todos os dias colocam medicamentos em 2700 farmácias do país. E já reduzimos os pontos de vacinação, estão para já previstos 733.