Europa fecha portas ao Reino Unido assustada com nova variante do coronavírus

Mais de 40 países cancelaram as chegadas de voos britânicos e o Governo francês barrou a passagem de camiões com mercadorias. Londres admite reforçar as restrições, mas a Organização Mundial de Saúde diz que não há razão para alarme.

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Se as restrições não forem levantadas rapidamente, o Reino Unido pode sofrer problemas de abastecimento depois do Natal Reuters/TOBY MELVILLE

O Governo britânico admitiu reforçar as restrições a ajuntamentos e deslocações no interior do Reino Unido, nos próximos dias e semanas, devido aos receios da rápida transmissão de uma nova variante do vírus que provoca a covid-19. A ideia de que o território está a braços com um problema grave foi desvalorizada pela Organização Mundial de Saúde, mas levou dezenas de países a proibirem a entrada de passageiros britânicos nos seus territórios, com consequências graves para as importantes ligações entre o porto de Dover e o porto francês de Calais.

Numa conferência de imprensa, na tarde desta segunda-feira, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, tentou tranquilizar o país com a garantia de que os supermercados estão bem abastecidos para os próximos tempos. E pediu aos cidadãos que não repitam as corridas à compra de alimentos e outros bens, que marcaram as primeiras semanas da pandemia.

Entre domingo e esta segunda-feira, dezenas de países fecharam os seus aeroportos a passageiros britânicos, por períodos que variam entre 48 horas (no caso da República da Irlanda), e quase três semanas (no caso de Itália). Mas são as restrições impostas pelo Governo francês que mais afectam o dia-a-dia no Reino Unido – para além das restrições nos aeroportos, Paris suspendeu também a entrada dos milhares de camionistas que circulam entre os dois países todos os dias.

Natal nos camiões

No domingo, o Governo francês anunciou a proibição da entrada de pessoas provenientes do outro lado do Canal da Mancha durante 48 horas, até às 24h de terça-feira. Apesar de a medida não incluir uma proibição das saídas de França, também afecta a entrada de pessoas e mercadorias no Reino Unido – muitos dos camionistas que deveriam partir de França não querem fazer o trajecto porque não sabem quanto tempo terão de ficar em solo britânico, nem em que condições poderão regressar.

Os que ficaram encurralados no Reino Unido, em centenas de camiões alinhados numa fila imóvel na auto-estrada M20, podem ver-se impedidos de passar o Natal em família nos seus países de origem. 

“As minhas hipóteses de ir a casa no Natal estão a baixar”, disse à agência Reuters Stanislaw Olbrich, um camionista polaco de 55 anos, parado a 40 quilómetros de Dover. “Isto é estúpido e eu estou nervoso e muito irritado.”

De acordo com Boris Johnson, as restrições impostas pelo Governo francês e por outros parceiros comerciais do Reino Unido só afectam 20% das mercadorias – as que são movimentadas por camionistas. A grande maioria dos alimentos e medicamentos – 80% do total, disse o primeiro-ministro britânico – chega aos seus destinos em contentores, sem necessidade de intervenção humana nas operações de transporte e nas descargas.

Recados pós-“Brexit"

Na conferência de imprensa, Johnson aproveitou para salientar a “rapidez” com que o seu Governo agiu perante as restrições impostas por França, numa mensagem que também teve como destinatários os negociadores europeus do acordo do comercial pós-“Brexit”

Em particular, o primeiro-ministro britânico disse que o plano de contingência que está a ser preparado para a eventualidade de uma saída sem acordo, a partir de 1 de Janeiro, permitiu o desanuviamento do tráfego nas imediações de Dover, reduzindo o número de camiões parados de 500 para 170. O Governo adquiriu um aeroporto desactivado em Manston, a 30 minutos de Dover, para servir de parque de estacionamento de camiões em situações de emergência – o que acabou por acontecer com as restrições impostas por Paris no domingo.

Mas a mensagem tranquilizadora de Boris Johnson chocou de frente com a falta de certezas que o primeiro-ministro britânico levou para a conferência de imprensa. 

Em relação à pergunta que os britânicos fazem neste momento, em particular os empresários e os trabalhadores de sectores como os transportes e a agricultura – quando é que os camiões poderão voltar a circular livremente entre o Reino Unido e França? –, Johnson disse apenas que falou com o Presidente francês, Emmanuel Macron, e que esperava ver a situação resolvida “nas próximas horas”, ou “o mais rapidamente possível”.

Ao mesmo tempo que o Governo britânico se reuniu de emergência, esta segunda-feira, os países da União Europeia começaram a trabalhar numa resposta comum à situação na fronteira com o Reino Unido. Em particular, espera-se que seja aprovado um regulamento especial para o regresso à normalidade até quarta ou quinta-feira, a tempo do Natal – o que pode passar pela obrigatoriedade de os camionistas se submeterem a testes antes de poderem seguir viagem.

Vacinas são eficazes 

E também são muitas as dúvidas em relação à nova variante do vírus SARS-CoV-2 que se tem espalhado de forma rápida na região de Londres e no sudeste da ilha britânica, onde se inclui Dover.

A esse respeito, o principal conselheiro do Governo britânico para a Ciência, Patrick Vallence, fez três afirmações, com base em estudos preliminares: apesar de ser cada vez mais certo que esta nova variante se transmite de forma mais rápida entre a população, não há nenhum indício de que possa agravar a evolução da doença nem que seja resistente às vacinas que foram desenvolvidas nos últimos meses.

“A resposta do sistema imunitário parece ser igual”, disse Vallence, que esteve na conferência de imprensa ao lado de Boris Johnson.

Vários especialistas desvalorizaram os receios de que a nova variante do vírus justifique medidas como as que foram aprovadas pelo Governo francês. Em particular, contestam a estimativa de que é 70% mais infecciosa – uma informação que surgiu durante uma conferência de imprensa de Boris Johnson, no sábado, e que tem sido repetida desde então.

“De repente, começou a circular um número, 70%, e ninguém sabe sequer o que isso significa”, disse o virologista alemão Christian Drosten, um dos principais conselheiros da União Europeia no combate à covid-19, em declarações à rádio alemã Deutschlandfunk.

“Pergunto-me se não terá acontecido que um cientista deu uma estimativa, talvez questionado sobre o que diria se tivesse de avançar um número, e depois a coisa ganhou vida própria”, disse Drosten. “Depois entra na política, os políticos começam a usar o número e os media repetem-no.”

Novo confinamento?

Apesar das dúvidas quanto a percentagens, o principal conselheiro do Governo britânico disse que é “quase certo” que a nova variante se transmite mais rapidamente, e foi por isso que preparou os britânicos para o reforço das medidas de restrição nos próximos dias e semanas. Principalmente porque a mutação surgiu numa altura de maior proximidade entre as pessoas, sendo preciso evitar contactos para que os hospitais não fiquem mais pressionados.

Ainda que a nova variante não provoque uma doença mais agressiva, a possibilidade de se transmitir de forma mais rápida pode aumentar de forma significativa o número de contágios e levar mais pessoas para as unidades de cuidados intensivos, salientou o cientista.

Perante as dúvidas e os receios, o primeiro-ministro britânico e o seu conselheiro para a Ciência foram questionados sobre se não seria aconselhável alargar o nível de restrições mais elevado a todo o país, e não apenas à região de Londres e ao sudeste.

Em resposta, Patrick Vallence admitiu que a situação no Reino Unido vai piorar nas próximas semanas e Boris Johnson deixou tudo em aberto, dizendo que as medidas serão aprovadas com base na evolução do vírus nos próximos dias – o que inclui a possibilidade de um regresso às aulas mais tarde do que o previsto, a partir de Janeiro, depois de o Governo britânico ter deixado cair a sua promessa de alívio das restrições para esta semana.