Cidadãos de Castro Verde colocaram nas ruas novo presépio para substituir o que a autarquia destruiu

Pároco da vila alentejana reage, acusando muitos dos autores da iniciativa de serem “alheios ou indiferentes à fé católica” e de quererem “estabelecer uma guerra num tema cristão”.

igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria
igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria
igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria
igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria
igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria
igreja,cultura,castro-verde,patrimonio,local,alentejo,
Fotogaleria

Um ano depois de se ter constatado que a Câmara de Castro Verde tinha assumido a destruição de uma dezena de peças recortadas em aço que compunham um presépio estilizado, um grupo de cidadãos movimentou-se e avançou em Fevereiro passado para a sua reposição nos mesmos moldes, mas com mais peças. Após um interregno de meses por força das restrições impostas pela pandemia, os trabalhos para a moldagem dos elementos que compõem o renovado presépio estão concluídos e a obra feita voltou às ruas de Castro Verde.

O processo para a sua reposição passou inicialmente pela tentativa de resgatar as peças do presépio em aço, primeiro junto da sucateira que as adquiriu e depois junto da empresa recicladora que as triturou e exportou para Espanha, onde acabaram numa fundição de metais.

Na documentação a que o PÚBLICO teve acesso, o executivo municipal, liderado por António José Brito, explicou que o presépio não foi exposto na quadra natalícia de 2019 “dado o seu estado avançado de degradação e os graves riscos que representava a exibição pública” para a “segurança das pessoas”. No entanto, garantiu que “em nenhum momento ordenou o desmantelamento propositado do presépio” embora tenha “apurado” no decurso do levantamento da situação, que “algumas peças sofreram danos irreparáveis” quando estavam acondicionadas no estaleiro municipal. O executivo “lamentou” a ocorrência e assumiu-se como “o único responsável pelo sucedido”.

No início de 2020, um grupo de cidadãos “culturalmente inconformados” expressou, através de um apelo público, a sua surpresa e um “sentimento de perda” quando tomaram conhecimento da destruição de um “objecto de eminente significado cultural que une crentes e não crentes, residentes e visitantes, mais velhos e mais novos.”

O apelo, que conseguiu o apoio inicial de cerca de meia centena de cidadãos e que rapidamente se transformou num movimento que passou a apresentar-se sob a sigla “Pelo Nosso Presépio”, dinamizou uma colecta de fundos no facebook e recolheram-se cerca de 15 mil euros para executar as peças do novo presépio.

Joaquim Rosa e Pedro Pinheiro, “artistas da terra” que conceberam o projecto do presépio inicial, voltaram a redesenhá-lo e replicaram um conjunto idêntico ao anterior que fora trabalhado na oficina de Carlos Clemente, também criador e mestre no corte e moldagem da chapa.  

Concluída a obra de arte, o movimento de cidadãos “Pelo Nosso Presépio”, depois de oficiar o presidente da Câmara de Castro Verde do seu propósito de expor nas ruas da vila o conjunto figurativo durante a quadra natalícia, obteve da autarquia “autorização para a exibição pública das peças do presépio.”

Mas para além da sua exposição, o movimento de cidadãos adiantou ao PÚBLICO um outro objectivo prioritário: assegurar a guarda e manutenção, das “peças que serão do povo, mas entregues à guarda das entidades locais”, proposta que inclui as autarquias locais.   

Neste sentido, sugeriram que a câmara e as juntas de freguesia de Castro Verde pudessem vir a ser “as guardiãs/fiéis depositárias das peças, assegurando a sua manutenção, gestão e exposição, o que inclui o poderem ser expostas em localidades e locais diferentes ao longo dos próximos anos, e, eventualmente, a sua exposição permanente.”

O protocolo de guarda partilhada do presépio com a Câmara de Castro Verde, a União de Freguesias de Castro Verde e Casével, a Junta de Freguesia de Entradas, a Junta de Freguesia de S. Marcos da Ataboeira e a Junta de freguesia de Santa Bárbara de Padrões, já foi assinado.

Quem não está de acordo com a iniciativa é o padre da paróquia de Castro Verde, Luís Miguel Fernandes. Na carta que enviou ao movimento “Pelo Nosso Presépio” e a que PÚBLICO teve acesso, o pároco observa que “seria um desplante e uma falta de noção da nossa parte (paróquia) apresentar ou incentivar a contribuição da nossa instituição ou dos nossos paroquianos” ao projecto do presépio.

Ao fundamentar a sua posição, o padre Miguel Fernandes refere que “muitos dos subscritores (do apelo) são alheios ou indiferentes à fé católica. Assim, nós não queremos nem apoiamos o mesmo projecto que tem como pano de fundo, não a fé católica, mas apenas a utilização do tema para fazer valer uma expressão plástica e artística de alguns e partidarismos de outros”, salienta o pároco. Incisivo, encontra um propósito para justificar a recuperação do presépio: “Querem estabelecer uma guerra num tema cristão”. E deixa um reparo final: “Que bom seria que nascesse um movimento cívico muito mais útil” para aquilo que “é verdadeiramente necessário e não para um acessório que pretende gerar mal-estar - mesmo não sendo essa a vossa finalidade”.

O concelho de Castro Verde passa assim a dispor de dois presépios. A Câmara de Castro Verde já tinha assinado em Março outro protocolo de colaboração com a paróquia local para a criação de um presépio novo e a “concepção, execução ou aquisição de peças públicas alusivas à quadra” natalícia.