Um desejo: não regressarmos a 2019

Talvez esteja na hora de assumirmos que estamos a passar por um processo doloroso, e que, sim, existe o perigo de nos confrontarmos pelo caminho com a barbárie, mas não parece que a alternativa seja voltar atrás.

Até agora, na forma colectiva como temos reagido à pandemia, pelo menos na maior parte dos países europeus, não tem havido grandes surpresas. Não estou a negar que as variações existem (ao nível das lideranças políticas e das estratégias adoptadas, ou das classes, comunidades e actividades mais atingidas), e que assistimos a contradições quase diárias, mas sim que há elementos predominantes. Na fase inicial, ou na primeira onda do vírus, foi o medo que serviu de agregador.

Foi a forma de reagir a uma ameaça. O foco era evitar infecções. A economia foi parcialmente suspensa. O vírus não se podia expandir a níveis intoleráveis. Era esse o propósito da quarentena ou do distanciamento físico. Havia a percepção de que estávamos perante um fenómeno de saúde e ciência. Mas na segunda vaga o carácter geral dos acontecimentos mudou. Passou-se do medo à depressão. Coabitámos com o vírus e regressámos, em parte, à vida social, com regras, mas a ameaça não se dissipou e a frustração irrompeu com os sucessivos obstáculos.

Que também não são inesperados. A única solução eficaz em termos de saúde pública conhecida seria o confinamento radical – mas ele não é possível pelos efeitos colaterais ao nível da economia ou da saúde mental. Daí que o modelo adoptado na maior parte dos países europeus preveja um equilíbrio instável entre economia e saúde, ou seja, na segunda vaga, naturalmente como seria por demais evidente, o número de infectados cresceu ao ritmo do receio das consequências que resultam de uma economia parcialmente inoperante.

As incertezas, e as diferentes camadas que compõem o fenómeno, foram-se aglomerando. O aparente consenso da primeira fase diluiu-se, porque, como se tornou evidente, a pandemia é também, sobretudo agora, uma questão política e socioeconómica. Há quem proteste evocando a falta de liberdade individual e os impactos negativos sobre a economia e outras coisas mais místicas. Do outro lado responde-se que é preciso preservar o sentido de comunidade e o valor da vida. Hoje digladiam-se no espaço público diferentes agentes (políticos, economistas, médicos, psicólogos, sociólogos, cientistas), todos eles reclamando para a sua área de entendimento uma verdade qualquer sobre a pandemia (técnica ou teórica, não interessa) mas a ideia que fica é que acaba por ser ilusória, porque parcial. Todos eles terão uma quota-parte de razão, mas poucos parecem ter um conhecimento completo da situação.

E ainda não chegamos ao grande desafio. No horizonte temos a vacina. Existe a expectativa — talvez desmesurada — de que através dela haverá, finalmente, um regresso a uma ansiada normalidade. Resta saber, em primeiro lugar, o grau de universalidade da mesma, e, em segundo, se terá um efeito preventivo sobre uma terceira vaga, ou mesmo se não estaremos perante um cenário em que as pandemias se sucederão. Se a vacina não for eficaz, prevêem-se consequências devastadoras. Da depressão passaremos a sérios problemas de saúde mental, pelo esbater daquilo que percebemos como vida social. E aqui o conflito será mais de ordem existencial, de relação com a realidade, e não tanto entre modelos, sejam científicos ou políticos.

Vamos ver o que acontecerá. Nos últimos dias, nos balanços do ano, ouve-se insistentemente que 2020 é para esquecer. Não creio. Foi catastrófico, sim, mas tem sido também revelador, expondo agonias com décadas (do sistema democrático, da sociedade de consumo, do ambiente, das precariedades e desigualdades) que o conforto da imobilidade, ou do retoque, mesmo com designações de choque como “bazuca financeira”, tentam maquilhar. Certo é que a maior parte ainda sonha com um regresso indolor até 2019. Será ele possível? Visto daqui, de Dezembro de 2020, parece um conto de fadas. Talvez esteja na hora de assumirmos que estamos a passar por um processo complexo e doloroso, e que, sim, existe o perigo de nos confrontarmos pelo caminho com a barbárie, mas que a solução não é voltar atrás, mas ir construindo uma realidade mais igualitária e solidária. E, mesmo que não o queiramos, será que temos alternativa? Encontramo-nos em 2021.