Para Cavaco, PS nada tem que ver com a social-democracia

O Presidente da República entre 2006 e 2016 afirma ver a actualidade longe da vida política activa, mas não hesita em comentar os acontecimentos.

Foto
Cavaco Silva na apresentação do seu livro Nuno Ferreira Santos

O antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva considera que o PS nada tem que ver com a social-democracia e que o partido fundado por Mário Soares se afastou da via reformista. O PS e o Governo de António Costa “abandonaram totalmente a via reformista que caracteriza a social-democracia”, diz a propósito do recente lançamento do seu 24.º livro Uma Experiência da Social-Democracia Moderna.

Apesar de se declarar afastado da vida política activa, em entrevista à rádio Observador, o ex-Presidente da República e antigo primeiro-ministro não foge a dar a sua opinião sobre temas da actualidade. “O Governo depende de uma força política que de democracia tem pouco”, afirma, referindo-se à viabilização pelo PCP do Orçamento do Estado para 2021.

Metendo os socialistas de Costa no  mesmo “saco” que o Bloco de Esquerda, Cavaco identifica o que, a seu ver, são os pontos comuns a estas duas forças políticas: estatização da economia; secundarização da Concertação Social; posição contra a iniciativa privada na saúde e educação; defesa de um Estado grande e de impostos elevados. Acresce ainda o que define como uma incerteza jurídica e fiscal que inviabiliza os investimentos estrangeiros.

Não reivindicando o palco político activo, o antigo Presidente, porém, não se exime a abordar o que, para si, são os erros do Governo de António Costa. Fá-lo quase em ordem cronológica: redução das 40 horas para 35 horas do trabalho semanal na função pública; reversão da privatização da TAP e não recondução de Vítor Caldeira à frente do Tribunal de Contas. Neste ponto, faz um paralelo com a não recondução da procuradora Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República, que já tinha criticado antes.

Aníbal Cavaco Silva faz uma acérrima defesa do executivo e personalidade de Pedro Passos Coelho. Assegura que “a tão propalada devolução dos rendimentos foi iniciada por Passos Coelho” e diz que o antigo primeiro-ministro “seguia a via reformista que é o método decisivo da social-democracia”.

“Estou convencido de que, se continuasse no governo (…), daria passos importantes para a aplicação da social-democracia moderna no domínio da justiça social”, enfatiza. Já não se pronuncia sobre se o actual presidente do PSD, Rui Rio, tem ideais reformistas. “Quanto a isso não faço julgamentos. Estou afastado da vida política activa”, sublinha, várias vezes.

Quanto às comparações entre o deputado único do Chega, André Ventura, e Francisco Sá Carneiro, Cavaco não as partilha: “Sá Carneiro era um social-democrata convicto. A resposta é esta e não precisa de mais nada.”

O acordo parlamentar com o Chega de viabilização do executivo regional açoriano do PSD-CDS/PP e PPM deriva, para o antigo Presidente da República, do entendimento do líder do PSD regional. Contudo, admite: “Não tenho dúvida quanto à afirmação de que era tempo de mudar.”