10. Outras modernidades

Com a emergência da nova centralidade asiática e a ascensão do Complexo do Pacífico, há uma nova era que se está a abrir aos nossos olhos. O Ocidente já não é o centro do mundo.

O Finantial Times publicou no ano passado (26 de Março de 2019) um artigo cujo título era, por si só, estimulante: “O século asiático estás prestes a começar.” Um gráfico muito simples representava a repartição do PIB mundial entre o conjunto de países que a UNCTAD agrega na categoria Ásia e o Resto do Mundo: em 2020, o primeiro grupo ultrapassaria o segundo.

A expressão Século Asiático mais não era que a analogia com o Século Americano: aquele estava a emergir, este a decair. Para além da escala – nos cinco países com maior PIB há três asiáticos, China, Índia e Japão, e dois ocidentais, EUA e Alemanha –, o que este artigo revela é o incrível dinamismo de algumas economias asiáticas, casos da Indonésia, Filipinas, Bangladesh, Vietname ou Myanmar (Birmânia), cujas taxas de crescimento ao longo das últimas duas décadas são das mais elevadas.

Há uma outra geografia que se evidencia para além do critério dos Continentes: o Complexo do Pacífico que integra, para além do extremo oriente, a Austrália, a Nova Zelândia e a costa oeste dos Estado Unidos e do Canadá. Esta é a zona do globo que revela o maior dinamismo económico e cuja centralidade, mais tarde ou mais cedo, vai afirmar-se. A grande dúvida continua a ser a Índia: integrar-se-á neste Complexo? Conseguirá libertar-se do bloqueio da sua particular forma de estratificação social? É inegável o seu poder económico, o seu elevado potencial de desenvolvimento, mas as profundas desigualdades que marcam o seu sistema social poderão bloquear os múltiplos focos de modernização.

Na linha de Braudel, estes complexos geográficos que designou por economias-mundo sucedem-se na sua hegemonia, do Mediterrâneo (Veneza e mais tarde Génova) para o Mar do Norte (Antuérpia, Amesterdão), do Atlântico (Londres, Nova Iorque) para o Pacífico. Esta é a rota histórica do capitalismo mundial.

Se a tese tem algum fundamento – e eu entendo que tem! –, é uma nova era que se está a abrir aos nossos olhos. O único senão está no facto de ficarmos cada vez mais afastados dessa nova centralidade.

Esta nova reconfiguração da geografia económica mundial encerra ainda características que a distinguem dos seus precedentes. O Ocidente consolidou, desde o século XVIII, a sua hegemonia global com o capitalismo industrial e um programa identificado pela matriz cultural da modernidade. Liberdade, racionalismo, disciplina social e progresso sintetizavam os princípios fundamentais desse programa que sustentou os regimes políticos liberais e democratas, o modelo de Estado-nação e um novo conjunto de instituições sociais. Mas o traço mais marcante estava na sua universalidade, ou seja, na convicção de que essa modernidade, sendo uma construção do Ocidente, era um desígnio para a Humanidade. Todos os povos, mais tarde ou mais cedo, adotariam esses princípios.

Ora, a emergência da nova centralidade asiática contraria alguns dos princípios e os padrões de difusão da modernidade ocidental. No último meio século, os processos de modernização seguiram programas culturais diferenciados e dissociaram o desenvolvimento do capitalismo da modernidade Ocidental: para além de seguirem vias diferentes para a modernidade, configuram outras modernidades. Estamos perante um caso evidente de modernidades múltiplas, tal como as definiu S. N. Eisenstadt (Multiple Modernities, edição portuguesa de 2007).

A modernidade ocidental construiu-se sobre as bases culturais do cristianismo, as modernidades asiáticas sobre uma diversidade assinalável de religiões, do budismo ao taoísmo, do Islão ao hinduísmo e até vastas zonas de predominância católica. A primeira ficou indissociável do que Max Weber definia como “ética protestante”; nas segundas, não obstante o predomínio da ética confucionista na China, Coreia e Japão, inscrevem-se em sistemas de valores e em quadros éticos mais diferenciados.

Se olharmos para os regimes políticos perceberemos que essa diversidade tende a consolidar-se. Democracias liberais (Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia...) convivem de perto com regimes autoritários (China, Vietname, Singapura...) ou democracias iliberais (Índia, Indonésia, Malásia...).

O quadro que o Complexo do Pacífico nos apresenta é de uma incontestável diferenciação das vias de modernização e de estruturação de diferentes modernidades. Este pluralismo estrutural encerra tanto de conflito potencial quanto de cooperação hegemonizada pelos mais poderosos, especialmente por parte da China.

Regressemos à Europa. O que constituiu a sua vantagem competitiva em relação às restantes geografias – um sistema de Estados, o modelo de Estado-nação, uma modernidade generalizada e sistemas políticos assentes nos valores da democracia, da liberdade e do Estado de direito – revela-se agora como uma das suas maiores fragilidades.

Uma tripla ameaça abre as portas a uma crise institucional muito grave na União Europeia: em primeiro lugar, um “Brexit” sem acordo (“hard Brexit” na linguagem de Bruxelas), que em nada ajuda a superar o contexto de recessão económica em que os países europeus se encontram; em segundo lugar, o bloqueio da Hungria e da Polónia ao Orçamento da UE para os próximos sete anos e ao Plano de Recuperação, entretanto superado, mas que deixou a sombra de um episódio recorrente; em terceiro lugar, uma crise sanitária que pôs a descoberto as fragilidades dos sistemas políticos e da sua capacidade de resposta para lidar com fenómenos contingentes, especialmente um manifesto deficit de disciplina social e de solidariedade. Por alguma razão, no recém-publicado ranking da resiliência à covid-19, elaborado pela Bloomberg, apenas quatro países europeus entram nos quinze primeiros mais resilientes. Nesses 15, o conjunto que designámos por Complexo do Pacífico conta com dez.

Adivinha-se mais uma tempestade com enormes feridas abertas ao futuro incerto da Europa, especialmente ao futuro imediato da presidência portuguesa. O velho recurso de trocar dinheiro por soberania parece que nem sempre é eficaz, especialmente quando sabemos que os cordões sanitários e as linhas vermelhas em política raramente dão bons resultados. Excluir em vez de integrar, homogeneizar em vez de diferenciar, são opções legítimas, mas reconheçamos que são pouco realistas e se há algo de diferente que precisamos na política atual é moderação e pragmatismo.

Último de uma série de dez textos de David Justino sobre os desafios que enfrentamos em várias áreas, em Portugal e no Mundo

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico