Redução do valor dos imóveis entre os maiores riscos para os bancos

Relatório de Estabilidade Financeira de Dezembro alerta para o aumento do endividamento decorrente do impacto da pandemia de covid-19. Centeno pede “responsabilidade” ao sector bancário e a outros interveniente políticos.

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Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, alerta para riscos decorrentes da pandemia LUSA/TIAGO PETINGA

Com a pandemia de covid-19, “o sector bancário assumiu uma função central no financiamento do sector não financeiro” e “o aumento do endividamento foi uma consequência natural, mas não sem riscos”, refere o Banco de Portugal (BdP) no Relatório de Estabilidade Financeira de Dezembro, que prevê um aumento do crédito de risco, os designados NPL (em inglês, non-performing loans).

E são vários os riscos ou vulnerabilidades elencados pela instituição liderada por Mário Centeno para os tempos mais próximos, com destaque para “as reduções abruptas e significativas de valor em activos financeiros, face a potenciais episódios de volatilidade extrema nos mercados financeiros”, e para “uma correcção em baixa dos preços do imobiliário residencial”. Já “o menor dinamismo no mercado imobiliário comercial em Portugal, no período que antecedeu a pandemia, limita a acumulação de vulnerabilidades”. 

O relatório, divulgado esta quinta-feira, alerta ainda para o risco de “agravamento da dívida das empresas, podendo pressionar a sua solvabilidade”, a que se junta “o endividamento dos particulares e das administrações públicas no médio prazo”.

A perspectiva de rendibilidade para o sector financeiro "é baixa”, condicionada “pelo ambiente de taxas de juro muito reduzidas, pelas expectativas de materialização do risco de crédito e pelos desafios trazidos por novos intervenientes na actividade de intermediação financeira”, refere o documento.

Tendo em conta a indefinição da duração da crise pandémica, o BdP recomenda aos bancos que tirem partido “da flexibilidade que lhes foi concedida pelas autoridades para utilizar as suas reservas de fundos próprios na absorção de perdas e no financiamento de particulares e empresas viáveis”. E ainda que “as instituições deverão continuar a monitorizar a qualidade de crédito dos mutuários, evitando o reconhecimento tardio de perdas”.

A crescente digitalização da intermediação financeira, “empurrada” pela pandemia, deve levar os bancos “a acautelar os riscos” inerentes a esse processo, “minimizando o ciber-risco e os riscos de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo”. A entidade liderada pelo ex-ministro das finanças também aconselha o conjunto de instituições “a preparar-se para os riscos associados à transição para uma economia mais sustentável, que a médio prazo será intensificada”.

Na sessão de apresentação do documento, Mário Centeno, apelou à responsabilidade do sector bancário português e de outros intervenientes públicos, na resposta à crise, mas também em relação ao dossier Novo Banco.

O sistema bancário “deve fazer, neste momento, um esforço de preservação do capital e estar preparado para continuar a ser parte da solução, como aliás foi até aqui”, afirmou o ex-ministro das Finanças, uma declaração que surge depois das recomendações do Banco Central Europeu para que os bancos “congelem” a distribuição de dividendos e de outros bónus.

Questionado sobre o Novo Banco e a anulação da transferência de 476 milhões de euros do Fundo de Resolução, Centeno também apelou à responsabilidade de “todos os outros intervenientes” no sector financeiro. Na sequência da pandemia e após a recuperação do sistema financeiro nos últimos anos, “não devemos desafiá-lo de forma a trazer novas dificuldades para esse processo”, declarou. Com Lusa