Que haveria de fazer fechado em casa um rapaz de 78 anos chamado Paul McCartney?

Chama-se III por ser o terceiro álbum que, ao longo da sua carreira, compõe, toca e grava sozinho. O primeiro chegou no fim dos Beatles, o segundo quando os Wings se despediam, este quando uma pandemia o fechou em casa. Os anteriores foram refúgio experimental que a posteridade canonizou. III, editado esta sexta-feira, é McCartney por inteiro, transparente.

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Sonny McCartney

Parte 1: em 1970, quando McCartney anunciou que a sua estreia a solo estava a chegar e que era álbum gravado em casa, ou seja, criação lo-fi antes de o termo ter sido inventado, o mundo entrou em sobressalto. Não por causa da música do álbum, mas pelo seu anúncio conter, no comunicado em forma de entrevista enviado à imprensa, uma notícia bombástica: o fim dos Beatles. A crítica arrasou o disco e o público não lhe prestou muita atenção, mas a posteridade fez-lhe bem. McCartney é hoje visto como o segundo melhor álbum a solo de Paul — com a concorrência de Ram, creditado também a Linda McCartney e editado no ano seguinte. Um retrato diverso, sincero e desequilibrado, o que só aumenta o seu charme, de um músico a retrair-se em intimidade e criando sem filtros para se proteger das convulsões de um mundo, que fora o seu durante uma década, em colapso. No comunicado, convidado a descrever o álbum em poucas palavras, escolheu três, “lar, família, amor”. 

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