A cidade dos sentimentos: a verdadeira inteligência das smart cities

Assistimos, na primeira fila, aos colossais desafios ambientais, económicos e sociais que requerem transformações significativas em todas as vertentes da sociedade, e em que as smart cities se assumem como uma resposta holística e em tempo real.

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Daniel Rocha

Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas? foi o que Philip K. Dick perguntou ao mundo em 1968. Volvidos 52 anos, tardamos em ter resposta. Pior. Continuamos a ter ainda mais dúvidas e já nos esquecemos do bem-estar do andróide.

Entretanto, este andróide cresceu e é, actualmente, uma cidade que tem vindo a assumir cada vez maior relevância na construção urbana: as cidades inteligentes.

Assistimos, na primeira fila, aos colossais desafios ambientais, económicos e sociais que requerem transformações significativas em todas as vertentes da sociedade, e em que as smart cities se assumem como uma resposta holística e em tempo real.

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Desafios (Autor, dados do Fundo das Nações Unidas para a População, 2020)

Estes desafios tornam-se prementes através da consciencialização social e do sentimento de urgência na resposta a desafios críticos e complexos, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, o esgotamento dos recursos globais e a actual pandemia.

Prevê-se que até 2025 existam pelo menos 26 cidades inteligentes em todo o mundo. No entanto, não são propriamente as que estamos habituados a ver em filmes como Blade Runner (1982) e Minority Report (2002) – ultra-futuristas, distópicas e cheias de néon –, mas sim organismos vivos e cuja missão é optimizar serviços, utilizar recursos de forma eficiente e informar o cidadão para influenciar o seu comportamento.

Essas melhorias traduzem-se em evoluções tecnológicas (nada excitantes quando comparadas com o mundo de Deckard), como: informação em tempo real sobre os horários de transportes; sensores de ruído e qualidade do ar; iluminação da via pública controlada por sensores; semáforos inteligentes que optimizam o fluxo do tráfego para poupar energia e reduzir as emissões.

Porém, no enquadramento actual das smart cities, o cidadão passa para segundo plano. A componente humana destas cidades é negligenciada, uma vez que estas iniciativas são planeadas sem o input e o feedback da comunidade.

Para uma cidade ser verdadeiramente inteligente, o envolvimento da população é vital. As suas funções e planeamento urbano não podem ser desligadas da sua dimensão imaterial, como percepção de segurança e sentimentos de pertença e prazer, o que afecta positiva ou negativamente a saúde e o bem-estar dos cidadãos.

A compreensão do comportamento humano no espaço urbano é essencial para detectar tendências positivas ou negativas e agir em tempo real. Sentir o pulso da cidade é urgente. Neste contexto, a análise de sentimentos poderá ser a nova metodologia que nos permite analisar o conteúdo dos contributos georreferenciados oriundos de redes sociais, atribuir-lhe um valor de sentimento sobre determinado local, caracterizando assim o estado de espírito da cidade.

A percepção do espaço urbano é influenciada pelo contexto socioeconómico, cultura e experiências do cidadão, trazendo alguma luz e compreensão de fenómenos urbanos. A análise de sentimentos poderá dotar as cidades de maior inteligência, na medida em que o feedback do cidadão e a resposta emocional sobre um determinado espaço urbano trarão uma visão (e reacção), em tempo real, de fenómenos não observáveis estatística ou tecnologicamente (por exemplo, o sentimento de (in)segurança de um determinado bairro; poluição/degradação visual).

A cidade, sendo um organismo vivo, e para ser genuinamente inteligente, terá de se centrar na componente humana e na satisfação dos seus habitantes.

E tu, cidade? De que sorris? O que sonhas?