Na primeira pessoa

Eu ainda gosto de chocolates, como ela, de dançar, como tu, de açaí, como você, dos sonhos, como ele, da lareira, como nós, de viagens, como eles, da vida, como Vós, de mimos, como elas.

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"Eles sempre gostaram de celebrar o aniversário dela. Ela adorava fazer anos. Tu adoravas chamar as amigas" Annie Spratt/Unsplash

Ela largou a chupeta e, a partir daí, foi sempre a abrir. A luz do sótão. As férias de Verão. Os M&M’s. Fez a divisão dos peluches, uns para casa da mãe, outros para casa do pai. Ela ficou triste pela separação dos peluches. Os ovos Kinder. Os Monstros e Companhia. O pente a passar com força no cabelo. As borbulhas que não se podiam coçar. As aulas de natação. O livro com a sereia na capa. Ela aprendeu a escrever os P’s maiúsculos e a saltar à corda. Ela nunca percebeu o fascínio por Nenucos e tinha medo de palhaços. Ela gostava de Hula Hoops, de porta-cd's, do sabor do Maxilase, de forrar livros, das coreografias das Las Ketchup.

Ela queria ser veterinária e tinha o futuro selado nessa carreira promissora desde os quatro anos. Ela descobriu que ser veterinária implicava seringas, sangue e ter de abater animais. Ela já não queria ser veterinária, mas não tinha coragem de dizer, com medo de desiludir os pais, que tinham tanto orgulho neste seu futuro. Passados anos, confessou, com medo das repercussões. Ninguém ligou. Ela trocou o fato-de-banho pelo biquíni. Veio o skate, o primeiro beijinho, o primeiro desgosto. A primeira boleia. “Nunca apanhes boleia.” A segunda boleia. A terceira boleia. Ela gostava de fazer o pino, do cheiro de bombas de gasolina, de presentes pelo tamanho, de apanhar bichos-de-conta, do fim do Cornetto.

Ela não percebe porque começou a falar de si na terceira pessoa, mas agora já está farta de ter iniciado esta terminação. Ela já pode parar, porque ela não é ninguém mais do que tu. Tu, sim, que já não és bem ela. Tu, que mudaste mais vezes de casa do que viveste anos. Tu, que desde que conheceste Caetano Veloso te esqueceste que há mais música.

Tu, que acampaste, percebeste que dormir no chão não é para ti, mas voltaste a acampar como se adorasses, só para não perder nada daqueles momentos de juventude em que se acorda com almôndegas à porta da tenda. Começaste a sair à noite e descobriste o efeito catártico de dançar numa roda com amigas. Tiraste a carta. Deste boleias. Invadiste o backstage de concertos. Tu tinhas amigdalite a cada seis meses. Tu ponderavas tirar as amígdalas. Tu aprendeste a namorar e a acabar. Tu citavas Rilke, mas ainda gostavas do Harry Potter. Tu querias aprender italiano. Tu descobriste o ioga. Tu não tiveste coragem de dizer que não tinhas percebido aquele filme.

Tu foste viver para o Brasil, onde eras sempre você.

Você, que morava na praia, comia açaí e ia aprender a tocar violão. Você, que trazia areia nos livros e no cabelo. Você, que descobriu o pão de queijo, o feijão preto e os áudios do WhatsApp. Você, que não parava em casa. Cadê você? Que iria regressar ao Brasil todo o ano, tatuar o Morro dos Dois Irmãos no pescoço, comprar uma carrinha pão-de-forma.

Você voltou para Portugal e encontrou ele. Ele, que punha paixão nas frases e tinha todos os sonhos do mundo. Ele, que gostava da manhã, de motas e do Benjamin Clementine. E não tardou a virar um nós.

Nós, que fizemos tudo tão depressa. A estante, a árvore na sala, os projectos 3D. Os cães. As obras. A luz amarela. As gravidezes. E num instante, vieram elas. Os sutiãs de amamentação. Os colos, as madrugadas. O Panda e os Caricas. Elas, que vieram animar e desarrumar a casa. Elas, que amam baloiços e bater palmas. Elas, que são obra nossa, mas parecem obra Vossa.

Vós, que criastes o mundo em sete dias. Vós, que não estais muito presente na minha vida, mas a quem agradeço todos os dias estes dois milagres. Vós, que me pusestes a falar conVosco e a ir ao Google pesquisar a conjugação desta tão pouco usada segunda pessoa do plural. Vós sois difícil de conjugar, deveríeis pensar numa forma mais fácil de abordar-Vos. Mas eu agradeço-Vos eternamente. Eu, que até já com Deus falo.

Eu, que cheguei aos 27. Ainda não sei bem o que sou. Sei que não sou veterinária. E que não tirei as amígdalas. Está na hora de fazer alguma coisa de jeito. E de crescer. Porque eu ainda detesto algumas palavras, como “desejo” e “colocar”. Dão-me arrepios. Eu nunca sei se hei-de pedir ou não contribuinte na factura, peço consoante me sinto naquele dia e consoante sinto o tom do empregado de mesa. Às vezes acho mais adulto dizer que sim, outras que não. Mas já me perguntaram: “Deseja que coloque contribuinte?” E é um cocktail molotov na minha alma.

Eu, que tenho uma tendência de dizer que tudo é o melhor de sempre, desde que tenha acontecido agora e tenha sido de facto muito bom. Se comi um bom peixe escalado foi “o melhor peixe que já comi”, desrespeitando profundamente todos os outros.

Eu, que ainda estou a tentar encontrar o equilíbrio exacto do número de publicações no Instagram para mostrar despreocupação, mas para que não se esqueçam de mim. Eu, que se não estou a gostar, largo o livro a meio. Eu, que já gosto do Inverno. Eu, que começo dieta às segundas, descaio-me às terças, às quartas já estou na batata frita e às sextas vem aí uma nova segunda. Eu, que adoro macacões compridos, ser mãe, planos cancelados, cama de rede e podcasts.

Eu, que comecei a fazer análise para descobrir que é tudo culpa dos pais. Sim, foram eles. Eles, que me criaram e me puseram no mundo. Eles, que ligam quase todos os dias. Eles, que me fizeram gostar de ler, de mar com ondas e de caminhadas.

Eu ainda gosto de chocolates, como ela, de dançar, como tu, de açaí, como você, dos sonhos, como ele, da lareira, como nós, de viagens, como eles, da vida, como Vós, de mimos, como elas.

Eles sempre gostaram de celebrar o aniversário dela. Ela adorava fazer anos. Tu adoravas chamar as amigas. Você adorava celebrar o aniversário em Dezembro no calor, com mergulho e samba. Ele finge que não liga ao dia de anos. Nós gostamos de festejar com a família. Elas ainda não sabem o que são aniversários, mas gostam dos doces. Eu já não sou devota, mas não deixo passar a data.

E o aniversário tem isto de bom: é o dia em que eu, tu, ele, nós, vós, eles e elas nos conjugamos todos a cantar à volta de um bolo.