Onde está o extremismo da Esquerda?

“Extrema-esquerda” na Europa em geral, em Espanha, em Portugal? As propostas, mesmo dos grupos de reflexão mais à esquerda, não passam de estimáveis propostas social-democratas.

Só a rodagem à direita que tem havido no mundo político e social, a nível não só europeu como mundial, é que pode dar azo a que se fale de extremismos de esquerda. As antigas nomenclaturas estão desajustadas às práticas políticas actuais. Só um mundo de superficialidade intelectual e dominado pelo pensamento e prática capitalistas pode chamar de extrema-esquerda partidos com assento parlamentar cujas práticas e objectivos não vão além de uma social-democracia moderada.

É corrente, diríamos que quase diário, o discurso político, em que para se falar da presença real e afirmativa da extrema-direita, no palco da cena, da representação e do poder político, se mete na narrativa “a extrema-esquerda”. Uma análise desta linguagem levar-nos-ia a encontrar com frequência a expressão “os dois extremos”, “os extremismos de esquerda e de direita”, “os acordos do Governo e do PS com a extrema-esquerda”. Esta narrativa aparece, ou simplesmente para defender posicionamentos assumidos de direita, ou para falar em nome da “moderação”, do “centro”, do “equilíbrio”. Curiosamente este “centro” aparece sempre a defender um dos lados: o das grandes empresas contra os trabalhadores, o dos serviços privados contra os públicos, o do corte nas pensões e nos salários, o das privatizações. A moderação e o equilíbrio residem apenas numa espécie de cortesia política, na linguagem.

Vejamos então onde está o procedimento e os objectivos da chamada “extrema-esquerda” parlamentar. Observe-se as propostas do Partido Comunista (PC) que foram aceites na área da Saúde, sendo que as do Bloco de Esquerda eram semelhantes. Ficaram separados por razões tácticas, que não vão ser discutidas aqui. Razões tácticas, que são afinal as que restam à “extrema-esquerda”, já tão longe dos seus objectivos estratégicos. Mas felizmente que o Orçamento para 2021 passou, apesar das suas insuficiências. Aponto as do PC, porque foi o partido que o deixou passar. Foi aprovado um reforço no orçamento da Saúde em 20%, ou seja, 1637 milhões de euros, o que não vai chegar à média per capita da OCDE e fica muito abaixo dos países da social-democracia. Foram destinados 59,5 milhões de euros para equipamento pesado e modernização e inovação tecnológica. Nada que não seja urgente, porque nos últimos nove anos poucos foram os novos equipamentos e degradaram-se os de endoscopias, broncoscopias e outros exames que o serviço público se vê obrigado a comprar a privados.

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Foram cedidos os objectivos de contratação de 935 médicos de medicina geral e familiar, 626 enfermeiros e 198 assistentes operacionais. Perante o panorama actual, alguém ousa dizer que isto é extremismo? Para além da Saúde, foi aceite o prolongamento do subsídio de desemprego por mais seis meses, quando terminar em 2021. É extremismo, perante a tragédia social que vemos todos os dias? Foi suspenso o pagamento por conta das pequenas e médias empresas, para assegurar três salários mínimos por trabalhadores e técnicos. Sim, são empresas. Extremismo, isto? E, cereja em cima do bolo: vão ser dados mais 10 euros a todas as pensões e reformas até 658 euros! Até custa a dizer isto! Tanto estes 10 euros mensais como os 86 euros por mês que tiraram aos subsídios de apoio em Rabo de Peixe, faz lembrar uma história de uma crónica de António Lobo Antunes em que uma das tias dava os vinte e cinco tostões semanais ao “seu” pobre e lhe dizia “agora vê lá se vais gastar em vinho” e ele respondia “não, vou comprar um Cadillac”. Estamos nisto…

A “extrema-esquerda” parlamentar, que nunca esteve no poder, mas apenas em acordo, não consegue arrancar mais do que tímidas reivindicações social-democratas, muito aquém das posições dos partidos escandinavos como tal designados e que subsistem na linhagem dos primeiros partidos formados na Europa com o programa “de cada um conforme as suas possibilidades, a cada um conforme as suas necessidades” (Programa de Gotha, social-democracia alemã). Pouco a pouco fomo-nos afastando desse ideal humanista. Extremista e com voz pública poderosa só nos resta o Papa. Os partidos socialistas e trabalhistas foram-se deslocando para a direita, pela mão de personalidades como Blair, e tentam apenas ganhar espaço na arena do pensamento capitalista dominante.

Quanto ao Partido Social-Democrata português, tem, como se sabe, um nome equivocado, explicado por razões históricas oriundas do processo revolucionário. Só mesmo para o seu antigo chefe ele pode ser social-democrata, quando sempre seguiu o pensamento de Reagan e Thatcher, a instalação do chamado neoliberalismo e do domínio da finança e do individualismo. Esse partido e uma chuva de comentadores reclamam-se da “democracia liberal”. Mas também aqui a palavra “liberal” é um equívoco, para mascarar de democracia o liberalismo económico e herdar o bom nome das lutas liberais históricas. Liberais também são os regimes liberticidas da Polónia e da Hungria, em que nem sequer há separação de poderes, quanto mais democracia.

“Extrema-esquerda” na Europa em geral, em Espanha, em Portugal? Cultura marxista? As propostas, mesmo dos grupos de reflexão mais à esquerda, não passam de estimáveis propostas social-democratas: combate às desigualdades e à pobreza, melhores salários, respeito pelos direitos dos trabalhadores, casa para toda a gente, mais Estado nos serviços públicos. E entre os comentadores só vejo um que assume, não o dizendo, uma análise marxista – Pacheco Pereira. Perante a situação política faz a análise das classes em jogo, chama-as pelo nome e assume a defesa dos que estão em baixo.

Esta Esquerda que não é extremista pode no entanto ter esperança. Apesar de tantas derrotas, se olhar para trás, as grandes conquistas para a humanidade, que hoje são assumidas pela maioria, como suas, fazem parte dos movimentos e partidos que lhe pertenceram historicamente. Desde que a Esquerda se chama esquerda (deixamos para trás, sem nome, todas as lutas dos oprimidos contra os opressores), portanto, desde a Revolução Francesa, que foi ela que as obteve: que cada pessoa seja um cidadão e não um súbdito, com direitos iguais para todos; que se tenha obtido o fim da escravatura; que tenha saído vitoriosa a luta pelo sufrágio das mulheres; que se chegasse à jornada de oito horas, aos weekends, às férias pagas, às caixas de reforma, ao fim do trabalho infantil; aos serviços estatais de saúde e educação. Que haja igualdade de género e origem geográfica, pelo menos na lei; que haja liberdade de escolha sexual. Estas são as vitórias que caracterizam a Esquerda, são o seu currículo, e não os slogans, as frases feitas e as liturgias. Muita direita dirá que também está de acordo e que isto é adquirido. Pois… Agora. Todavia, são fruto de muitas batalhas. Donde se deduz que a Esquerda, com mais ou menos derrota, tem que ir prosseguindo a sua luta, por vezes passo a passo.

Médica, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, membro do grupo Estamos do Lado da Solução