Na segunda fase da pandemia, mortes por covid-19 quase duplicaram em Portugal

Em 17 dos 27 países da União Europeia, entre o início de Agosto e 6 de Dezembro morreram mais pessoas por covid-19 do que nos cinco primeiros meses da pandemia. Portugal é um deles.

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Paulo Pimenta

Os especialistas avisaram que a segunda onda da pandemia de covid-19 poderia ser mais mortal do que a primeira. Em Portugal e na maior parte dos países da União Europeia (UE) é isso mesmo que está a acontecer. Os óbitos por covid-19 quase duplicaram em Portugal em pouco mais de quatro meses, entre o início de Agosto e a primeira semana de Dezembro (3228), em comparação com os cinco primeiros meses da pandemia (1735). Mas há países em que as mortes aumentaram de forma bem mais expressiva nesta segunda fase, sobretudo os da Europa Central e do Leste que tinham sido pouco afectados na Primavera.

No cômputo geral dos 27 países da UE, a diferença de mortalidade por covid-19 entre o primeiro e o segundo período da pandemia é menos significativa – cerca de 136 mil óbitos no total entre Março e Julho e 152 mil, entre Agosto e 6 de Dezembro e isso explica-se em grande parte porque aqueles em que se observou um enorme pico de mortalidade na Primavera – como Espanha, Itália e Suécia, por exemplo – estão a registar agora menos mortes. Ainda assim, a UE totaliza nesta segunda fase 31 mortes a mais por cada milhão de habitantes do que nos cinco meses iniciais da pandemia e ainda falta atravessar o Inverno. São 17 os países em que este Outono se está a revelar mais letal do que a Primavera.

São dados das mortes confirmadas por covid-19 nos 27 países da UE que foram analisados pelo jornal El País a partir das estatísticas do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) e da Universidade John Hopkins e que revelam três tendências distintas. Frisando que há “diferenças substanciais de um país para outro”, o ECDC especifica que há países, como a Áustria, a Grécia e a Hungria, tal como Portugal, “que registaram mais mortes durante o Outono”. Em sentido contrário destacam-se “aqueles onde ocorreram mais mortes na Primavera do que no Outono”, caso de Espanha, da Itália, dos Países Baixos e da Suécia. Por fim, há “um terceiro grupo que teve um número semelhante de mortes na Primavera e no Outono”, nomeadamente a Alemanha e a Bélgica, ainda que na Alemanha os números sejam substancialmente inferiores aos da maior parte dos países. 

Mais infecções na população de risco

Como se explica a quase duplicação de mortes em Portugal do primeiro para o segundo período? “São fenómenos complicados que queremos simplificar”, mas percebe-se desde logo que nesta segunda fase “o número de infecções é superior, atingindo mais pessoas nas faixas etárias dos mais idosos, que são as de maior risco”, enquadra Vasco Ricota Peixoto, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública.

Na primeira onda, lembra o médico de saúde pública, Portugal “cortou a cabeça ao bicho muito cedo, ao impor um lockdown [confinamento] durante um mês e meio”, enquanto em Espanha e Itália a circulação não detectada do novo coronavírus desde o início do ano provocou uma transmissão comunitária que se espalhou “a grande velocidade”, uma disseminação “descontrolada” que causou uma altíssima mortalidade.

“Houve muito mais casos nas faixas etárias de risco elevado de morte” ao longo do segundo período do que na primeira onda “devido ao confinamento, ao medo que as pessoas tinham inicialmente, à redução de contactos”, e também porque, “enquanto na primeira vaga houve uma subdetecção brutal [das infecções], na segunda estamos a testar mais, as pessoas com sintomas ligeiros são hoje mais testadas, basta ver que tivemos uma subida da taxa de positividade de 5% para 16%”, sintetiza Vasco Peixoto.

“Além disso, os países com uma primeira onda pesada podem estar agora a fazer um trabalho de prevenção nas faixas etárias mais avançadas, enquanto outros, como Portugal, podem não estar a conseguir proteger a população mais idosa. O problema é proteger os idosos. É preciso evitar os casos nesta população de risco. Mas não é fácil. São as vidas familiares de que as pessoas não abdicam, é a transmissão nas instituições que é difícil de controlar, porque alguns trabalhadores moram em bairros de alto risco”, enfatiza.

Voltando à análise do conjunto da União Europeia, países que tinham escapado quase imunes na primeira onda estão agora a registar uma mortalidade muito elevada. O caso mais expressivo é o da República Checa, onde os óbitos se multiplicaram por 20, mas há outros países onde as mortes dispararam, como na Polónia (dez vezes mais), na Hungria, na Roménia e na Bulgária, só para citar alguns. No sentido inverso, a diminuição no número de mortes por milhão de habitantes entre a Primavera e o Outono foi mais expressiva na Suécia, na Irlanda e em Espanha. No caso espanhol isso fica a dever-se essencialmente à elevadíssima mortalidade da primeira onda.

“Alguns países, como a República Checa, fecharam as suas fronteiras no início da Primavera e talvez isso tenha contribuído para os números muito baixos nessa altura”, observa Marc van Ranst, virologista e pesquisador da Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) citado pelo El País. Mas o virologista admite não ter “nenhuma explicação clara da razão por que nesses países quase não houve uma primeira onda”, nem por que razão a segunda está a ser “tão mortífera”. Marc van Ranst recorda que as férias de Verão foram um dos elementos que contribuíram para a propagação do vírus e teme que “isso se repita durante o Natal em países que não adoptarem medidas rígidas”.

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