Os nós de Lenine

Se o conteúdo do Orçamento não é essencial para Boaventura de Sousa Santos, isso só pode ser por uma de duas razões: ou o OE 2021 e a vida social são irrelevantes para Boaventura, ou o debate que procurou fazer com o Bloco de Esquerda deslocou-se do seu campo real, o do próprio Orçamento, porque o conteúdo deste atrapalha a defesa da tese de Boaventura.

Boaventura de Sousa Santos trouxe ao PÚBLICO de 7 de dezembro um texto sob o título “Lenine e nós”, de facto sobre as votações do Bloco de Esquerda e do PCP no Orçamento do Estado para 2021.

Estranhamente, num artigo de página, Boaventura não faz qualquer análise ou apreciação sobre o OE, isto é, sobre os meios de responder às crises sanitária, económica e social. Boaventura não caracteriza a política expressa pelo Governo do PS neste Orçamento nem a sua relação com o semáforo de Bruxelas, ou qualquer das suas consequências no investimento público ou na economia. Serão os meios orçamentais justos e suficientes para responder à crise? Serão adequados?

Boaventura não partilha o entendimento (esse cinismo é estranho à esquerda) de que o OE e o debate de soluções sejam um mero pretexto para o jogo político e para a justificação do Governo em qualquer contexto. Mas se o conteúdo do Orçamento não é essencial, isso só pode ser por uma de duas razões: ou o OE 2021 e a vida social são irrelevantes para Boaventura, ou o debate que procurou fazer com o Bloco de Esquerda deslocou-se do seu campo real, o do próprio Orçamento, porque o conteúdo deste atrapalha a defesa da tese de Boaventura.

A “geringonça" pode ter deixado boas recordações, mas devo lembrar que não se pode ressuscitá-la depois de abandonada pelo PS e pelo Governo: faltam participantes e o único elemento desse antigo acordo que ainda tentou dar-lhe continuidade foi precisamente o Bloco de Esquerda. Mesmo que a votação deste OE tivesse juntado Bloco, PCP e PS, isso não seria prova de existência de “geringonça”. O Orçamento do Estado para 2020 já passou sem tal acordo, depois das legislativas do ano passado.

Surpresa como a que o Papa causaria se invocasse o Corão como recurso moral, provoca Boaventura ao decidir citar abundantemente as críticas de Lenine ao esquerdismo. É bem certo que se distancia de qualquer influência do dirigente comunista de Outubro de 1917, mas a escolha da autoridade política e intelectual de Lenine não é candidamente acidental. O Bloco provém de ideários marxistas, sem outros “ismos” de referência coletiva. Lenine, ou outras figuras da esquerda, são arquétipos de estudo no passado. Ainda assim, ninguém hoje pode ignorar a análise de Lenine sobre o imperialismo, entre outros contributos teóricos. Com isso quero dizer que as citações profusas de O Esquerdismo não afligem especialmente a epiderme do Bloco. De resto, a experiência do Bloco de Esquerda fala por si em matéria de compromissos com outras forças, pesem hegemonismos e sectarismos com que nos temos deparado. António Costa só foi primeiro-ministro porque o Bloco apoiou essa solução. Tivesse sido outra a opção e teria Boaventura, então sim, boa razão de censura por ultraesquerdismo – e não seria o único a castigar o Bloco nas eleições gerais.

Caricaturas de infantilidade – ou “imaturidade”, como prefere o primeiro-ministro – visam desqualificar o Bloco de Esquerda e a sua autonomia de identidade e projeto.

Por abundantes que sejam, citações fora de contexto merecem reserva do leitor menos dado a liturgias. Lenine desenvolveu estratégias de poder sem nunca tirar o pé da luta política e social real e bem real. Afinal, para o líder bolchevique, os nós a desatar no processo político, as contradições a resolver, provinham da vida. Cito Lenine, do mais conhecido: “A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo.”

Debater o voto num Orçamento sem debater esse Orçamento é mesmo uma transgressão, com Lenine ou sem ele.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico