Alfredo Cunha: “Acho a minha reportagem do 25 de Abril um trabalho medíocre”

Depois de mais de 50 anos a mexer em tudo o que diz respeito à fotografia, desde a oficina à criação, Alfredo Cunha ainda não sente a cabeça a explodir de imagens. Resiliente, teimoso, empreendedor, meticuloso e pouco preocupado com a gestão de silêncios. Eis um fotógrafo com cinco décadas de trabalho nos olhos e que agora se compara a Satanás: “Sou como o Diabo — sabe muito, mas não é por ter estudado, é por ser velho”.

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Não caiu num caldeirão com poção mágica, qual Obélix, mas o cheiro a revelador e a outros químicos da prática fotográfica sempre fizeram parte da vida de Alfredo Cunha (Celorico da Beira, 1953). Embora tenha começado a contragosto, obrigado pelo pai a fazer as tarefas mais rotineiras do ofício, a fotografia entranhou-se em si profundamente — aos 17 anos já registava a pobreza e a miséria a céu aberto na então freguesia da Amadora; aos 20 entrava no turbilhão 25 de Abril, dia em que captou imagens que nos deram um dos melhores frescos da Revolução, mas que ele não considera tão boas assim. O que fotografou na Amadora, em 1970, podia não ser ainda a expressão plena de uma atitude política, mas aquela realidade suscitou-lhe “muitas interrogações”. E terá nascido ali o empenho permanente em denunciar o que está mal. Este é apenas um dos traços que percorrem as cinco décadas que a prática fotográfica de Alfredo Cunha já leva e que este ano se assinalam. Podemos encontrar outros, como o instinto para estar no lugar e no momento certos, a omnipresença da figura e do rosto humano, a procura da beleza, a atenção ao que acontece à sua volta, a teimosia em fazer fotografia pelo simples prazer de fotografar. E tantos outros.

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