A cultura precisa de diversidade

Nas últimas décadas, no setor da cultura, as mulheres têm saído cada vez mais da sombra dos homens. Mas o caminho para uma maior igualdade continua a ser íngreme e rochoso.

Em fevereiro de 2020, ao aceitar o Urso de Ouro Honorário no Festival de Cinema de Berlim, a atriz britânica Helen Mirren afirmou: “Quando comecei a trabalhar em cinema, entre uma centena de pessoas no cenário havia, com sorte, três mulheres. Isso está a mudar, mas ainda não o suficiente.” E acrescentou: “A única razão pela qual quero continuar nesta brilhante indústria é para testemunhar mais dessa mudança que considero tão libertadora e tão excitante.”

Nas últimas décadas, no setor da cultura, as mulheres têm saído cada vez mais da sombra dos homens. Mas o caminho para uma maior igualdade continua a ser íngreme e rochoso. Não se conseguiu o suficiente desde que, em 1982, a artista americana Isabel Bishop afirmou: “Eu não queria ser uma artista mulher. Eu só queria ser uma artista.”

A pandemia da covid-19 e as restrições à vida pública atingiram duramente o setor cultural e criativo e inverteram muitos dos progressos até agora conquistados. Há cada vez mais motivos de preocupação de que o sucesso alcançado pelas mulheres artistas e outras mulheres em campos criativos possa ser aniquilado pelos efeitos do novo coronavírus. A pandemia tornou mais visíveis os persistentes estereótipos e desigualdades de género e, em muitos casos, reforçou-os. A questão da igualdade de género na cultura é demasiado importante para ser adiada para quando a pandemia tiver terminado.

Felizmente, há cada vez mais pessoas a dar-se conta de que a igualdade de género não é simplesmente um favor concedido às mulheres; pelo contrário, é essencial para a valorização da diversidade cultural que nos une. É, por isso, adequado que o lema da UE seja “Unidos na diversidade”. Contudo, para estarmos verdadeiramente unidos na diversidade, devemos aproveitar todo o potencial disponível nas nossas sociedades e não excluir metade da nossa população criativa de moldar o nosso futuro.

Assim sendo, nós, as ministras da Cultura da Alemanha, Croácia e Portugal, pretendemos trabalhar com os nossos colegas europeus para desenvolver projetos e medidas inovadoras para a cultura. Estamos a aproveitar a oportunidade oferecida pelas nossas três presidências sucessivas do Conselho da União Europeia para colocar, pela primeira vez, o tema da igualdade de género na agenda política cultural europeia, bem como no quadro do trio atual.

Em conjunto com os nossos homólogos nos ministérios da Cultura da União Europeia, e com as instituições europeias, procuraremos formas de tornar possível às mulheres artistas prosseguirem a sua vocação sem terem de enfrentar discriminação. Parte deste esforço é assegurar a representação igualitária das mulheres em cargos de gestão e liderança.

Muitos dos nossos comités têm já representação igualitária, mas não é suficiente. Queremos aumentar a visibilidade das mulheres no sector cultural e criativo, promovendo a representação igualitária das obras das mulheres em exposições, museus, galerias, teatros, festivais e concertos. Esta é a única forma de sair dos papéis rígidos e confinados do género.

Um bom exemplo é a exposição “Lutando pela Visibilidade: Women Artists in the Nationalgalerie before 1919”, que teve lugar na Alte Nationalgalerie de Berlim, entre outubro de 2019 a março de 2020, na qual foram exibidas obras-primas de mulheres artistas, que tinham estado armazenadas no museu durante décadas, recebendo, assim, o devido destaque.

No âmbito da Presidência do Conselho da UE, durante o primeiro semestre de 2021, Portugal previu uma exposição no Bozar dedicada às mulheres artistas do início do século XX. Este projeto cultural pretende não só promover o trabalho das mulheres nas artes, mas também reforçar o debate sobre o papel das mulheres nas artes e na cultura.

Se não queremos que a atual geração de mulheres artistas tenha de esperar décadas para receber o reconhecimento que merecem, temos de agir em conjunto agora. Inúmeras mulheres artistas, atrizes, realizadoras, curadoras, músicas e de outros campos criativos, de destacado talento, podem dar um enorme contributo para a diversidade na Europa.

Aproveitemos as oportunidades que daí resultam! Aproveitemos o potencial e perspetivas adicionais que estas mulheres oferecem! Façamos a nossa parte para assegurar que a cultura e as artes usem o seu apelo generalizado e o seu papel exemplar ao serviço da igualdade de oportunidades e da igualdade de género!

As autoras escrevem segundo o novo acordo ortográfico