Dia 123: Avós, netos e um calendário de desafios para tornar o Natal mágico

É porque este vírus não só nos adoece, como nos separa, perversamente castigando os gestos que nos aquecem a alma, que é mais importante do que nunca celebrarmos o Advento e o Natal.

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"Com imaginação — e Internet — se calhar até ficamos mais criativos e focados do que no meio de muita gente, e muita confusão" @designer.sandraf

Querida Ana,

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Escrevo-te a olhar o céu azul, a apanhar sol pela janela, profundamente grata por viver esta pandemia num país cheio de luz. Vejo como os dias custam muito mais a passar aos teus irmãos, lá a norte, e compreendo perfeitamente como a escuridão pode sugar a alegria, sobretudo num tempo em que anda por aí um inimigo invisível, que virou o mundo do avesso. Mas é porque este vírus não só nos adoece, como nos separa, perversamente castigando os gestos que nos aquecem a alma, que é mais importante do que nunca celebrarmos o Advento e o Natal.

Sinceramente, Ana, não aguento a conversa do “Salvem o Natal”, porque objectivamente — e se não fosse o dano irremediável que uma baixa de consumo causa nos postos de trabalho das pessoas —, o verdadeiro Natal ficava bem a salvo sem o frenesim das compras, do trânsito, do desespero porque nos faltam ainda 20 presentes, que acabam comprados num gesto mecânico e sem sentido. É claro que o pior de tudo é estarmos fisicamente longe uns dos outros — tenho chorado baba e ranho com uns anúncios de um avô, uma neta e um ursinho, já viste? Pronto, nem sequer sei o que é que pretende vender, mas o que importa é que com imaginação — e Internet — se calhar até ficamos mais criativos e focados do que no meio de muita gente, e muita confusão. E ainda mais gratos por nos termos uns aos outros.

Por isso vamos inventar um Calendário de Advento Avós e Netos — Pandemia 2020, ideias para avós e netos, e filhos, não fiques triste, se sentirem mais próximos, e num caminho que nos vai levar ao grande dia.

Pronto, decidi por ti, que a tua resposta é “Sim, minha querida mãe, vamos!”. Por isso, começo já a dar ordens (ou melhor, orientações, que é mais simpático). Pede às gémeas que desenhem com urgência uma grelha dos dias até ao Natal, em formato gigante, para irmos inscrevendo as nossas actividades.

Começamos já amanhã, e eu lanço os primeiros desafios.

Sexta-feira, dia 4 
Aprender código morse com lanternas, o que é que queres de repente lembrei-me disto, e agora não consigo abandonar a ideia. Deve ser uma dor de cabeça aprender, mas vamos conseguir, ou melhor elas vão conseguir. Cá em casa vou por o avô a aprender, é mais seguro. Há vídeos no YouTube que explicam tudo. Tenho em vista que a demonstração é no sábado.

Sábado, dia 5
À noite, com casacos e gorros, saiam para o jardim ou fechem-se num quarto escuro. Façam um filme com a mensagem para nós, e nós fazemos o mesmo. Dez minutos depois, reunimo-nos numa chamada Facetime para comprovar que a mensagem foi recebida e compreendida. Se em segredo eu e tu trocarmos umas SMS com o conteúdo respectivo, a coisa é capaz de correr melhor!

Domingo, dia 6
O nosso dia de Acção de Graças. A proposta é escrever aquilo pelo qual estamos mais gratos em etiquetas de cartão, daquelas tradicionais que têm um buraco por onde se passa uma fita ou um fio de cordel. O destino final destas obras é serem penduradas na árvore. Uma vez acabadas devem ser enfiadas num envelope e mandadas para os netos, recebendo um envelope com os cartões dos filhos e netos. Podem incluir nisto os tios, claro. A gratidão é a maior guardiã da saúde mental.

Segunda-feira, dia 7
É dia de Tik-Tok. A Carminho já me disse que a minha carreira profissional depende de me aventurar neste novo mundo. Marquem uma hora, para me darem uma lição online. Vamos fazer uma carta ao Pai Natal em versão Tik-Tok, será que é possível?

Terça-feira, dia 8
Hoje é feriado, dia da Imaculada Conceição, e embora a confusão destes fins-de-semana prolongados e semi-confinados baralhem tudo e todos, convém lembrar que antigamente se celebrava nesta data o dia da mãe. Por motivos comerciais decidiram afastá-lo do Natal, mas acho que em ano de pandemia podíamos recuperá-lo. Vamos marcar o dia da Mãe virtual. A proposta é desenhar ou fazer em barro, uma Maria, adolescente, a semanas de ter o seu bebé, uma mãe pronta a assumir o maior dos desafios. Pode ser a primeira peça do nosso Presépio de Pandemia.

É claro que se juntarmos uns chocolates a tudo isto, melhor ainda.

Beijinhos

Mummy


Querida Mãe,

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Sempre adorei o Natal. Mesmo. Lembro-me perfeitamente do ano em que não senti exactamente a mesma coisa do que nos anos anteriores. Não foi mau. Mas já era um bocadinho mais crescida, os presentes não eram tão grandes em tamanho, já não eram bem brinquedos. De repente via o jantar de Natal com os mesmos olhos com que via outros jantares de família. Maravilhoso na mesma, mas fora da “bolha” em que estava tudo o que fazíamos naqueles dias — o dia 24 e 25 parecia-me sempre um mundo à parte.

Qualquer coisa mudou nesse ano. E foi triste. Passei vários anos à procura dessa sensação. Apanhei-a por segundos aqui e ali, mas só por segundos. Quando tive filhos comecei a sentir uma irmã dessa sensação. Não podia voltar para a bolha mas via-os lá dentro e conseguia sentir o Natal de uma forma nova. Extraordinária outra vez. Mas há um veneno que corrói essa sensação rapidamente: o stress. O consumismo. A irritação de estar a comprar presentes totalmente ao calhas. A preocupação com o dinheiro gasto, misturada com o impulso de gastar. O medo de provocar desilusão nos outros – principalmente nos nossos filhos – a forçar-nos a comprar só mais um, a gastar mais ainda. As crianças de férias, a vontade de fazer qualquer coisa de diferente, a cozinha, a roupa por engomar. O cansaço...

Sobre algumas destas coisas não há nada a fazer, e para dizer a verdade, a pandemia resolveu algumas delas. Outras fazem parte do pacote de ser adulto. Mas há aquelas que dependem de nós: podemos respirar fundo e procurar discernir as que actividades que nos ajudam a construir o Natal que queremos, que nos aproximam do essencial, e aquelas que nos afastam dele, e apostar nas primeiras.

As suas propostas aproximam-me imenso desse lugar e por isso faço-as com todo o prazer, amor e entusiasmo. São coisas como essas que me levam ao “meu Natal”! Mas, Mummy querida, se não houver barro vale massa com farinha e água e ficarmos só a brincar? É que a ideia de ir comprar materiais stressa-me! Mas antes disso tenho de ir aprender o código morse... Até já.

Beijinhos!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram