Ana Gomes tomou a vacina da gripe que amiga lhe trouxe de França (o que é proibido, lembra Infarmed)

A candidata socialista “fartou-se” de esperar pela chegada da vacina e tomou uma dose que uma amiga lhe trouxe de França. Mas Infarmed diz que é proibido e pode ser perigoso.

Foto
Ana Gomes criticou a lentidão de resposta na distribuição de vacinas Daniel Rocha

A candidata à Presidência da República Ana Gomes revelou esta terça-feira no Twitter que, depois de três meses em lista de espera, ficou “farta de esperar” pelo contacto da farmácia a dar conta de que a sua dose da vacina contra a gripe estava finalmente disponível e decidiu tomar uma vacina que uma amiga lhe trouxe de França. A candidata socialista de 66 anos quis denunciar a existência de vacinas “reservadas para certas pessoas, de certas empresas”, mas acabou por involuntariamente confessar que tinha cometido uma ilegalidade – o Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, IP, recorda que a importação de medicamentos para uso pessoal é proibida e que existem “riscos para a saúde” associados a essa prática.

Numa nota do Infarmed enviada ao jornal Observador, o regulador é claro: “A importação de medicamentos para uso próprio pelos utentes não tem suporte legal e acarreta riscos para a saúde dos consumidores.” Além disso, prossegue a nota, “podem não estar garantidas as condições de segurança, qualidade e eficácia exigíveis para um medicamento, quer durante o processo de aquisição, quer durante o próprio transporte”. Por isso, conclui que “os consumidores só podem adquirir medicamentos nas farmácias (comunitárias e hospitalares) e nos locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica.”

Ao mesmo jornal, Ana Gomes garante que não sabia da ilegalidade. “Não tenho conhecimento, ninguém me disse que era ilegal”, afirmou.

Ana Gomes esclarece que a vacina trazida por Portugal foi administrada numa farmácia, como se fosse uma vacina produzida em Portugal. Apesar de terem afirmado nessa farmácia, não identificada, que “normalmente” só administravam vacinas “de lá”, por não terem vacinas disponíveis não colocaram entraves e “registaram tudo” e “deram a vacina”. Foi-lhe pedido o cartão do cidadão e os seus dados foram registados como vacinada.

A candidata assegurou ainda que a vacina esteve sempre guardada no frio e que estava “integral” quando a levou à farmácia. “Essa minha amiga é portuguesa e vive em França, trouxe a vacina para o marido, que é britânico, mas o marido entretanto tinha tomado e ela tinha uma vacina a mais”, explicou ao Observador.

Em Outubro, Marcelo Rebelo de Sousa foi fotografo a ser vacinado contra a gripe e garantiu que não iriam faltar vacinas, mas essa não tem sido a mensagem das farmácias. Ana Gomes estava desde Setembro à espera da vacina contra a gripe, que várias farmácias se queixam de ainda não ter recebido. “Não só me inscrevi, em Setembro, como fui a várias farmácias perguntar e disseram-me que não havia vacina. Já fui a duas ou três farmácias e disseram-me isso...”, acrescentou.

Para 2020, haverá dois milhões de doses para administrar no âmbito do SNS e 500 mil para as farmácias, mas, em ano de pandemia, a corrida às vacinas podem levar a problemas nos stocks das farmácias. 

Apesar de o número de portugueses à espera de vacina continuar alto, a ministra da Saúde, Marta Temido, avisou que “não há mais vacinas disponíveis no mercado mundial”. “É importante que as pessoas percebam que só deve vacinar-se quem tem critério (…). Eu não me vacinei, alguns tê-lo-ão feito sem critério”, afirmou Marta Temido em meados de Novembro, quando o país aguardava ainda a chegada de 200 mil doses de vacinas.