Cartas ao director

Vacina anti-covid

Não vai ser fácil a distribuição da vacina anti-covid-19 que vier a ser adoptada pelas autoridades de saúde de Portugal. Sou contra a gratuitidade desse medicamento de combate ao novo coronavírus. Há muitos portugueses que não precisam de ajuda do Estado. E há muitos que recebendo apoios sociais, não deixam de comprar bons telemóveis. A vacina é anual, enquanto há necessidades diárias que urge satisfazer. Espero que o Presidente da República não se tenha esquecido dos sem-abrigo. Espero que o Governo não se esqueça das pensões de miséria que muitos portugueses recebem.

Ademar Costa, Póvoa de Varzim

Os intelectuais do meu país

Elogiar a lusofonia é politicamente correcto. Fá-lo qualquer intelectual português de forma automática. Delira em dissertações sobre o Português em Timor Leste. Medita sobre a sobrevivência de vocábulos e apelidos portugueses na Malásia (Malaca). Estremece com a referência a goeses que ainda sabem algo da língua de Camões. Ainda se deleitará com placas toponímicas com apelidos portugueses no Sri Lanka (Ceilão).

Se tiver alguma coragem, referirá as afinidades entre o Português e o Galego. Se não falar duma língua única com dois dialectos, falará duma origem comum ou duma alma comum. Mas... nada de confusões políticas. A Galiza tem de ser tratada sem compromissos! Poderá referir ruas de cidades dos Estados Unidos ou da Inglaterra onde se fala algum Português. Ou de vestígios de lusismos no Uruguai. Fica tão bem a um homem de cultura, consagrado, falar destas coisas! Afinal, ele não é uma pessoa qualquer. É a elite moderna de Portugal, aberto, europeu, obediente a regras internacionais, algo crítica (talvez) em relação aos mercados desregulados que estão a destruir o mundo e até uma determinada ideia de Europa, mas... sem tocar em assuntos mais polémicos. Fica mal. Uma elite assim é asséptica. Gosta de receber prémios... ou de ler opiniões em que se diz que, se ainda os não recebeu, esse dia chegará. Mas, por favor, não se fale de Olivença. Muito menos da recuperação, por locais, de valores culturais e linguísticos (caso de 73 topónimos) portugueses para “aquelas bandas”. Desfaçatez suprema! Ao fim de duzentos anos, tal tipo de eventos assusta. Como é possível ressurgir uma cultura que foi duzentos anos reprimida? E logo... cultura portuguesa e alentejana? Que heresia! Em Olivença? As elites não gostam de surpresas destas. Calam. Silenciam. Para que ninguém saiba.

Carlos Luna, Estremoz

Desprezo pela nossa Língua

Assisti no domingo ao programa emitido pela televisão pública Canal 1 da RTP, The Voice Portugal, e mais uma vez, constato que a nossa língua foi absolutamente desprezada nas canções apresentadas, não representando mais de 25 por cento no total. Como é que é possível que na direcção de programas daquela estação televisiva, paga pelo nosso dinheiro, ninguém ponha cobro a esta invasão da língua inglesa como se o nosso povo fosse bilingue.

Também, em grande parte, os mentores têm culpas no cartório pois incentivam os concorrentes, salvo raras legítimas excepções, a cantarem canções naquela língua algumas que não lembram a ninguém e de nível musical muito duvidoso. Em Portugal continuamos a não dar valor à nossa língua mãe ao contrário dos nossos vizinhos espanhóis que prezam a sua, independentemente dos vários idiomas que se falam no país. Na TVE respeitam muito mais o idioma oficial do que a RTP, o que se lamenta. Pobre do Luís Vaz de Camões.

José Luís Alves, Lisboa

Moçambique

Portugal, a Europa e o mundo tardaram a reagir à instalação do fundamentalismo islâmico em terras onde a miséria e o abandono das suas gentes proporcionou o caldo perfeito para a proliferação de todo o tipo de banditagem e traficâncias, agora em colisão com os projectos milionários do norte de Moçambique. Mas acima de tudo compete aos líderes do próprio país que se libertou das amarras do colonialismo há 45 anos, com autonomia e maturidade, darem o exemplo na defesa do seu povo, o que deveria ser uma prioridade de qualquer governante. Fica-se com a ideia que os próprios dirigentes moçambicanos tardaram a reagir.  Porque levou tanto tempo a assumirem esta tragédia e a pedirem ajuda internacional?  Três anos após o início do terror , há a lamentar crimes sobre uma população indefesa, crianças e mulheres raptadas, mais de 500 mil deslocados. Como foi possível não ter existido uma resposta global e imediata? 

Ricardo Rodrigues, Paço D'Arcos