Responsável pelo combate à pandemia nos Açores quer cerca sanitária em Rabo de Peixe

Gustavo Tato Borges quer isolar a freguesia e testar todos os cerca de nove mil habitantes. É a “situação mais difícil da região”, assume.

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Rabo de Peixe DANIEL ROCHA/ARQUIVO

O médico Gustavo Tato Borges, que lidera a comissão de acompanhamento da luta contra a pandemia de covid-19 nos Açores, disse ao PÚBLICO que sugeriu ao Governo Regional a implementação de uma cerca sanitária em Rabo de Peixe, a freguesia com mais casos de infecção na região. Além de isolar a vila, o objectivo passa por testar toda a população.

“Essa foi a proposta feita para o conselho de governo poder deliberar e tomar essa posição. É uma cerca sanitária temporária, com o principal objectivo de poder fazer rapidamente uma testagem a todos os residentes”, afirmou o médico, questionado sobre a possibilidade de um cordão sanitário naquela vila a norte de São Miguel. Rabo de Peixe é, por larga distância, a freguesia açoriana com mais infectados, com 61 casos. Seguem-se Porto Judeu, na Terceira, com 25 positivos e Furnas, em São Miguel, com 24. “Rabo de Peixe é neste momento a situação mais difícil da região”, assume.

Além da cerca sanitária, Gustavo Tato Borges, também coordenador regional de saúde pública, quer testar toda a população de Rabo de Peixe, uma das maiores freguesias de São Miguel, com 8866 habitantes, segundo os censos de 2011. Será uma “testagem em massa”, reconhece. “Aquela freguesia é, de facto, a única onde os números continuam a subir e temos de conseguir identificar de forma muito rápida todos os casos, inclusive os que não desenvolveram sintomas e os que ainda não estão identificados”, defende, alertando para a necessidade de travar a “transmissão contínua da doença na freguesia”.

Para já, o líder do combate à covid-19 nos Açores não se compromete com a duração de uma possível cerca sanitária naquela vila piscatória: tudo dependerá do tempo necessário para testar toda a população da freguesia. “Assim que tivermos os resultados com todas as pessoas positivas identificadas e que ainda não estão e das pessoas de alto risco, que deverão ficar isoladas, poderemos levantar a cerca novamente, tendo em conta que a situação estará mais controlada”.

O conselho de governo de que fala Tato Borges realizou-se na noite de segunda-feira. O governo regional esteve reunido para analisar a situação pandémica na região. Ao longo das últimas semanas, o aumento diário do número de casos de covid-19 nos Açores tem estado sempre acima dos dois dígitos. Neste momento, existem 421 casos positivos na região: um na ilha de Santa Maria, 296 em São Miguel, 117 na Terceira, um na ilha de São Jorge, dois na ilha do Pico, três na ilha do Faial e dois nas Flores.

Do lado do Governo dos Açores, os esclarecimentos são remetidos para uma conferência de imprensa do secretário regional da Saúde, Clélio Meneses, a realizar na manhã de quarta-feira. Se o executivo açoriano atender à sugestão de Tato Borges, será o regresso das cercas sanitárias à região, mas agora, ao contrário da primeira vaga, será isolada uma freguesia e não um concelho.

A 30 de Março foi anunciado o primeiro cordão sanitário no concelho da Povoação. Dois dias depois foi anunciado que todos seis concelhos da ilha de São Miguel iriam ficar sob cercas sanitárias durante o mês de Abril. A última a cair foi a do concelho de Nordeste, a 18 de Maio – era então a única cerca do país.

Apesar de ser um cenário improvável de se repetir, Gustavo Tato Borges, que assumiu funções há uma semana, defende uma posição que os anteriores titulares da saúde sempre rejeitaram: a existência de transmissão comunitária em São Miguel e na Terceira.

“Nós sabemos que nas ilhas de São Miguel e da Terceira há transmissão comunitária. Há casos que são identificados e que não conseguimos identificar qual a fonte original e, portanto, o vírus circula nas duas maiores ilhas, mas não de forma totalmente descontrolada”, afirma. O vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública refere que o aumento do número de casos diários ao longo das últimas semanas nos Açores “não é alarmante”, uma vez que os infectados “estão espelhados pelas diversas freguesias”: “são casos que estão espalhados pela comunidade, mas que vão aparecendo e que vão continuar a parecer durante as próximas semanas”.

Desde o início da pandemia, já foram registados 1044 casos de infecção pelo novo coronavírus e 17 pessoas já morreram. Longe vai o dia 5 de Junho, em que a região anunciou não ter qualquer caso de covid-19.