Sá Carneiro: antes e durante (memórias pueris)

Esta “geração” que apoiou o PSD não teria sido possível sem Sá Carneiro, mas Sá Carneiro também não teria sido possível sem essa “geração”. Era a geração dele, que o gerou a ele e que ele gerou.

1. Para alguém que nasceu em 1968, tinha seis anos no 25 de Abril e 12 em 4 de Dezembro de 1980, muitos julgarão que Francisco Sá Carneiro será apenas uma memória difusa, quando muito “reconstruída” por estudo ulterior dos seus escritos e pelos testemunhos dos que com ele conviveram. Nada de mais erróneo. Para quem nasceu e cresceu numa família do Norte, que, à semelhança de muitos outros milhares, estava altamente empenhada na política no período revolucionário de 1974-1976 e nos anos subsequentes, Sá Carneiro era uma presença quotidiana, familiar, próxima, íntima. E isto diz muito sobre o seu carisma: Sá Carneiro condensava todas as qualidades do líder carismático, designadamente gerando a sensação e a percepção de uma ligação directa, imediata, próxima. Mais do que razão e adesão, Sá Carneiro suscitava paixão. Esta interioridade e familiaridade ficou bem evidente no modo como vivemos a sua morte: lembro-me de ter chorado convulsivamente na noite da morte e na tarde do funeral e de ter feito um luto de seis meses, algo de especialmente bizarro para um adolescente.

2. Porque muitos o farão nesta quadra, não falarei do legado político; mas antes do que ele representou pessoal e até “sociologicamente” para centenas de milhares de famílias. Dito de outro modo, do impacto humano e pessoal que a sua “persona” teve em todos nós. Insisto: a ligação a Sá Carneiro não era apenas de afinidade política, era de “pertença” pessoal, mesmo para a imensa maioria que “não o conhecia”. No meu caso, foi até um pouco mais “física” e “real”, porque, logo em 1975, a sede do PPD em Gaia instalou-se na quinta dos meus avós, já pertencente ao meu pai e mesmo contígua à casa dos meus pais. Foram muitas as vezes em que ali estivemos para “ver e cumprimentar o Sá Carneiro”.

3. O Sá Carneiro de que diariamente ouvíamos falar tinha um rosto e um percurso: era o católico do pós-Vaticano II, que tinha feito do regresso do Bispo do Porto e do divórcio dos católicos duas causas cívicas. Integrava a última geração que escapara à guerra colonial, mas que, tal como as seguintes, havia de ser treinada nos movimentos católicos que irromperam do concílio. Estas gerações começaram por acreditar genuinamente na primavera marcelista, o que as amarrou à “ala liberal” e, a breve trecho, a Sá Carneiro e ao futuro PPD. Estes homens e estas mulheres iniciaram-se em grupos católicos que, no final dos anos 60, estavam mais activos do que nunca. Havia os cursos de cristandade, as equipas de Nossa Senhora, as já vetustas conferências de S. Vicente de Paula ou a moderna Escola de Pais Nacional. Começaram, de resto, aqui e ali, a fundar as primeiras associações de pais. Jovens casais, normalmente entre os 30 e os 40, foram-se treinando no apelo cívico e na criação de um tecido e de uma rede. Neste magma, havia nomes que se destacavam pelo seu dinamismo e convicção: o mais sonante, e com um ímpeto mais progressista, era o de Sá Carneiro, que estes círculos dos “grupos católicos” do Norte abertamente reconheciam como “seu”.

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Francisco Sá Sá Carneiro em Outubro de 1975 CARLOS LOPES/ARQUIVO

4. Quando veio a revolução, estas mulheres e estes homens, embora não o soubessem, estavam apetrechados para a intervenção cívica e para a acção política. Esta foi a geração que, com os filhos ao colo ou ainda pela mão, esteve em todas as manifestações da Avenida dos Aliados contra o PREC e a sua deriva totalitária; que criou associações de pais em todo o tipo de escolas para travar o caos que se apoderara do ensino; que participou nas intimidantes comissões de moradores para evitar ocupações e desalojamentos; que impediu, em muitas fábricas e escritórios, que as greves e os protestos alastrassem e as empresas fossem arruinadas. Uma geração que não se conformava com a deriva militarista, com o ascendente comunista, com o arbítrio caótico dos grupúsculos da esquerda radical.

5. Estes foram também aqueles que, mais tarde, apesar da sua formação católica, apoiaram incondicionalmente Sá Carneiro, não concebendo que a sua vida privada fosse misturada com a política. Também aqui, desde os tempos da ditadura, Sá Carneiro fizera doutrina, separando Igreja e Estado. E depois, já em democracia, chamando ao partido gente de todas as mundividências. Desde mulheres conhecidas pelas suas posições arrojadas como Natália Correia ou Helena Roseta a destacados membros da maçonaria como Emídio Guerreiro ou Nuno Rodrigues dos Santos (com os quais teria encontros e desencontros). E na constituição da AD, teria a abertura descomplexada de se aliar a Freitas do Amaral e a Amaro da Costa, mas logo chamar para a coligação eleitoral um conservador vanguardista como Ribeiro Telles ou os reformadores Medeiros Ferreira, António Barreto (ambos ministros do I Governo de Soares) e Francisco Sousa Tavares.

6. Esta foi a geração que apoiou o PPD, mas que foi cativada e catalisada pelo magnetismo de Sá Carneiro. Esta era a massa de que se fez uma sociedade civil resistente, inconformada, organizada numa rede de malha densa. Uma sociedade civil que em nada se revia no Portugal deixado por Salazar, mas que, muito pela sua proveniência católica, temia o totalitarismo comunista. Todos falam na luta comunista, na pulverização da esquerda radical ou na moderação convicta de Mário Soares; mas ninguém olha para esta rede discreta, que se soube organizar, que se mobilizou em volta da escola dos filhos, que criou associações para defender a iniciativa privada, que escreveu em jornais, editou gazetas e publicou panfletos, que saiu à rua sem medo de barricadas, fogueiras e emboscadas.

Uma sociedade civil que se inspirava em Sá Carneiro, que respirava Sá Carneiro. Uma geração que identificava nele – no seu inconformismo, na sua impaciência, no seu desassombro, na sua lucidez, na sua contundência – o sangue, a seiva e o nervo da sua própria mobilização. Esta “geração” não teria sido possível sem Sá Carneiro, mas Sá Carneiro também não teria sido possível sem essa “geração”. Era a geração dele, que o gerou a ele e que ele gerou.

SIM e NÃO

SIM. Parlamento Europeu e Moçambique. Pela terceira vez em cinco meses, a tragédia de Cabo Delgado será debatida em Bruxelas. Um contraste com a passividade da União, do nosso Governo e da CPLP.

NÃO. Governo e António Costa. Não há como iludir. Antes da cimeira de 17 de Julho, ao lado de Orbán, o primeiro-ministro foi categórico: o Estado de direito não deve condicionar os fundos europeus.