Uma obra “canonizada em vida” que talvez se possa enfim debater

O consenso em torno de Eduardo Lourenço é tão avassalador que pode sabotar a própria discussão do legado. Os historiadores José Neves e António Araújo alertam para o risco de o reduzirmos a um pensador da identidade portuguesa. Já Diogo Ramada Curto acha que a sua obra é “extremamente desigual”.

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Publicado em 1978, O Labirinto da Saudade tornou-se a obra-chavão de Eduardo Lourenço SÉRGIO AZENHA

A “coincidência simbólica” de Eduardo Lourenço ter morrido no dia 1 de Dezembro, o feriado que comemora a Restauração da Independência, foi destacada pelo Presidente da República. Esse “quase que parecia que teria de ser assim”, dito por Marcelo Rebelo de Sousa, veio ligar a memória póstuma do mais destacado intelectual do século XX à questão da identidade nacional. Mas se houvesse tal coisa como um dia adequado para a morte do ensaísta, o historiador José Neves, que se tem debruçado sobre as questões do nacionalismo, proporia o 25 de Abril: “Não só porque ele viveria mais uns meses, mas porque tenho um certo receio de que aconteça a Eduardo Lourenço na sua morte aquilo que lhe foi acontecendo nos últimos anos: confiná-lo a um pensador da identidade nacional portuguesa.”