Desabou o radiotelescópio gigante do Observatório de Arecibo

O radiotelescópio, um dos maiores do mundo, era usado há 57 anos. Os problemas começaram em Agosto e o seu fim era certo, mas a estrutura acabou por ruir sozinha.

Foto
Os danos na estrutura após o seu colapso na manhã desta terça-feira NSF/DR

O radiotelescópio gigante do Observatório de Arecibo, que tinha uma estrutura de 900 toneladas suspensa sobre uma parabólica reflectora nas colinas de Porto Rico, desabou na manhã desta terça-feira. A decisão para desmantelar o telescópio tinha sido tomada já em meados de Novembro por questões de segurança, depois de dois cabos terem partido e deixarem toda a estrutura em risco. Mas os danos fizeram com que a estrutura cedesse sem dar tempo para uma demolição planeada.

“Sinto um aperto no estômago”, afirmou o director do Instituto Espacial da Florida (responsável pela gestão do radiotelescópio), Ramon Lugo, da Universidade Central da Florida, citado pela revista Science. “Foi tanto trabalho árduo feito por tantas pessoas para tentar restaurar a estrutura. É decepcionante que não o tenhamos conseguido. É uma manhã complicada”, admitiu, quase em lágrimas.

O telescópio que permitia o estudo de ondas rádio estava há 57 anos ao serviço da Fundação de Ciência Nacional (NSF, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. A parabólica reflectora deste radiotelescópio tem 305 metros de diâmetro; a cerca de 140 metros dessa superfície estava a plataforma que caiu, antes apoiada por cabos a três torres.

Foto
O Observatório de Arecibo em Novembro Universidade Central da Florida

Apesar do estrondo e dos estragos causados, não há feridos a registar na sequência da queda, refere a NSF em comunicado. Ramon Lugo diz que ninguém estava perto da estrutura quando se deu o colapso, mas não se sabe ao certo o que causou a queda da plataforma – talvez tenha havido uma falha num dos outros cabos que mantinham a estrutura ligada a uma das três torres de apoio, explica. Os cabos estavam sujeitos a ainda mais pressão e, desde sexta-feira que se iam rompendo, um a um. Ramon Lugo diz que avisou a NSF de que a estrutura só aguentaria mais uma ou duas semanas.

Dois cabos auxiliares tinham partido já em Agosto, danificando a estrutura e obrigando os responsáveis a fechar o observatório. O fim do radiotelescópio, um dos maiores do mundo, era já conhecido: seria impossível reparar a estrutura sem pôr em risco a vida de quem fizesse as obras.

Agora, foi aberta uma investigação à queda da plataforma de investigação. Ramon Lugo tem outras preocupações em mente, como o futuro das 130 pessoas que trabalham no observatório: “Nem imagino o que devem estar a sentir.” A NSF garantiu que os trabalhadores do observatório continuarão a ter rendimentos e que o objectivo é continuar-se a fazer investigação espacial em Porto Rico.

Foto
O observatório nesta terça-feira REUTERS/GABRIELLA N. BAEZ

O radiotelescópio foi construído no início da década de 60 para servir de instrumento de estudo da ionosfera, uma das camadas da atmosfera terrestre – mas passou a ter um uso mais generalizado. Servia para estudar explosões de rádio no Universo, para seguir o rasto a asteróides potencialmente perigosos para a vida na Terra, e até para procurar sinais de vida inteligente vindos do espaço. O telescópio foi também importante para detectar os dois primeiros exoplanetas (um planeta que orbita uma estrela que não o Sol), em 1992. Ao longo dos anos, o instrumento científico apareceu ainda em obras de ficção, como o filme 007 GoldenEye (1995) e o filme Contacto (1997), inspirado na obra de Carl Sagan.