O beijo

No futuro que aí vem continuaremos assustados com o toque e a proximidade, ou, ao contrário, estaremos cansados do mundo digital e ansiosos por ternura e sensualidade?

Era hora de ponta, na zona do Cais do Sodré, em Lisboa, e uma multidão atravessava a passadeira, dirigindo-se para o metro ou comboio, enquanto no trajecto, indiferentes a tudo, um casal adolescente se beijava demoradamente com intensidade. Numa esplanada observava as reacções de quem passava. Há meses seria banal. Agora parecia inusitado. E isso adivinhava-se. Mesmo em passo apressado, havia quem olhasse para trás. Não era censura. Mas pressentia-se uma estranheza difícil de nomear.

Enquanto a massa impaciente se movimentava, tentando manter a distância física, ali estavam aqueles dois corpos, livremente unidos, expressando potência, funcionando como doce provocação, ou ameaça, para todos os outros. O corpo tornou-se lugar de contágio. Ou então, em algo imune e defensivo, quando em isolamento. A energia transformadora dos corpos deu lugar à luta pela sua sobrevivência. É o que há.

Mas que consequências daqui advirão? Para os afectos, o corpo, o prazer, o beijo, o erotismo, o sexo? No Japão existe um fenómeno denominado hikikomori, que designa um comportamento de extremo isolamento doméstico, principalmente entre os mais jovens, que saem raramente de casa, tornando a relação com o exterior mínimo, de modo a evitar o contacto com outras pessoas, com consequências na percepção do outro. Será que nos vamos transformar todos em hikikomoris, revelando alguma inabilidade, ou recusa, em prestar atenção às emoções e corpo do outro?

Não vai ser fácil esquecer o que está a acontecer. Estamos numa zona de transição. Não só afecta o estilo de vida, como a imaginação. Como Albert Camus descreveu em A Peste, num primeiro momento, a pandemia é experienciada com medo, mas também como euforia, uma excitação sombria que nos mantém juntos. As expectativas são idênticas: um regresso rápido à chamada vida normal. Mas o tempo vai passando e, numa segunda onda pandémica, como a que agora atravessamos, os laços vão sendo quebrados. Há mais impaciência e depressão. As expectativas vão sendo frustradas. E surge revolta, agressividade, totalitarismos.

Nos últimos dias, no horizonte, surgiu a vacina. Que tanto pode funcionar, fisicamente e psicologicamente de forma benigna, como agravar a situação actual, se não se cumprirem esperanças, entretanto activadas. O mesmo acontece com o mundo digital onde nos temos movimentado. É unânime a ideia de que as nossas relações serão cada vez mais intermediadas tecnologicamente. Talvez. Mas quase de certeza surgirão importantes vagas de reacção e alternativas. Para muitos o estar continuamente conectado já era percebido como sintoma de ansiedade e isolamento e, agora, é possível que perdure a correspondência, mesmo que de forma inconsciente, entre o estar online, com a doença e o vírus.

Neste período, o corpo digital ganhou ainda mais protagonismo, mas o corpo analógico foi despertado. Fomos obrigados a recordar que temos um. No futuro que aí vem será que seguiremos assustados com o toque e a proximidade, ou, ao contrário, estaremos cansados do digital e ansiosos por ternura e sensualidade? Ninguém sabe o que acontecerá. Poderá vingar a ideia do beijo como acto perigoso, sintoma de laços humanos desfeitos, como haver uma explosão libertadora de beijar e ser beijado.

Afinal, falamos do acto mais humano de todos, a aproximação dos lábios, o afago gradual da língua dentro da boca de outro ser humano. O beijo. Há-os para todos os gostos. Leves, fundos, inteiros, molhados, na testa, desajeitados, na face, na boca, na nuca, por detrás da orelha, no lugar mais desejado ou improvisado, ou assim, quando menos se espera, à hora de ponta, irremediavelmente.