Senhores, todos estamos a morrer lentamente

O senhor Presidente continua a debitar pausadamente, e a filha de Alice grita: “A minha mãe ainda morre e eu não vou vê-la nem abraçá-la.”

Lá fora estão as bananeiras com as grandes folhas rasgadas pelo vento. Os papiros estão corcundas. O céu é escuro. A chuva cai ao ritmo do xilofone. Quando era jovem, os amigos de turma ofereceram-me um livro que estava muito na moda — O Livro em Branco. Servia para nos tornarmos escritores. Ou melhor, sentirmo-nos escritores. Fiz algumas tentativas. Não passei da primeira folha. Estava mais talhado para escrever as cartas de amor dos outros, os que viam a vida a andar para trás sem amor correspondido.

Quando me espreito ao espelho, vejo os sinais na pele a aparecerem. Uma ruga a dizer olá. O bigode a ficar branco. E o médico a pedir exames estranhos e a catalogar doenças, como quem diz: vamos lá ver o que lhe calha na rifa! O espelho diz-me que estou a ficar velho. Fico contente pelo que já vivi. Fico triste porque já não tenho muito mais para viver. É estranho este sentimento. Faz sentir borboletas na barriga. Enrolar-me nos lençóis de flanela para esquecer as saudades da erecção matinal. Coisas de homem acabado. Talvez seja ainda cedo achar que já nada resta. E talvez seja a hora de desvendar um segredo aos teimosos seguidores que me lêem quando a prosa sai. Já tenho idade para ter juízo, mas nunca lacrei O Livro em Branco. Sempre o desejei. Mas sempre tive medo de casar palavras. O casamento é uma coisa séria. E agora que estou naquele limbo do novo recauchutado, deu-me para escrever — o que me consome a alma e faz subir a tensão arterial.

Não tem o leitor a obrigação de saber como no dia-a-dia se constrói um jornal. Ainda bem, a ignorância por vezes é amiga do ser humano. Mas quando recebo na minha caixa de email “Adriano, tens crónica esta semana”, as pernas tremem e a primeira folha de O Livro em Branco volta a pairar como um fantasma. É assim que estou. Sentado a olhar a vidraça suja e molhada. Os papiros corcundas nunca mais conseguem endireitar-se. A chuva continua a alimentar a terra e os seres vivos que dela fazem morada. O fantasma está divertido. Um som estridente no telhado. Deve ser um melro. Uma porta que bate. Deve ser uma corrente de ar. Uma gargalhada contagiante. Deve ser o filho da vizinha. E no meio das bananeiras saudosas de sol, uma imagem difusa aparece. Uma mulher. Um rosto. Abro bem os olhos e é a Alice que ali está. A rir. Feliz. Com o neto ao colo. A vidraça reflecte a fotografia grande que está em cima do aparador. A Alice feliz. O fantasma também.

Foto
Adriano Miranda

A Alice foi uma mulher de trabalho. Em casa. No campo. O marido, homem sereno e culto, saía cedo para desbravar a terra. Regressava à noite. Um dia houve que saiu e só voltou passados alguns anos. Foi para a Alemanha à procura do que em Portugal não encontrava. Só e tão simplesmente uma vida digna. Por lá fabricou, a perder a conta, muitos pneus de automóvel. Até que voltou. Tinha saudades da sua Alice. Da terra. Do ar e da brancura da sua aldeia. Alice cuidou da filha. Da mãe. Da terra. Das cabras. Do mantulho. Escreveu cartas. Leu cartas. Amassou pão. Manteve sempre a fotografia do seu homem na mesa-de-cabeceira. E o crucifixo na cabeceira.

Alice perdeu a mãe. Depois perdeu o seu homem. No cimo da aldeia estão as cruzes todas aprumadas. Já lá não vai. Já perdeu a conta ao tempo. Alice está num lar onde não existe pele sem rugas. O melhor porto de abrigo. Ali pode ancorar os seus 82 anos de existência. Na paz que merece. Como o soldado que finda a guerra. Mas Alice está a desistir aos poucos. Não sabemos em que mundo está. Parece que se desligou num desespero angustiante. Nove meses de clausura em nome de um vírus. Ora sem visitas, ora com visitas. E o maldito vidro a abafar as palavras confidentes e o beijo eterno. Até que Alice deixou de falar. Não se sabe porquê. Resta a esperança de que Alice, no seu íntimo, realize as suas fantasias e corra pelo campo com os netos atrás das cabras. Se deixe pentear pela filha e à noite bebam café no quintal ainda escaldante. Alice olha no vazio o monitor do computador. Dizem-lhe que é a filha. Alice acena, mas sem vigor. Muito diferente do dia em que se despediu do seu homem na estação de comboios. Alice não sabe tactear o teclado. Nem quer aprender. Se fosse uma enxada. Removia montanhas à procura da filha a quem já não sente o cheiro nem a pele macia. Que falta lhe faz. A vida não é só respirar.

Pela sala, a voz pausada do senhor Presidente como se falasse para uma plateia de mentecaptos ecoa que o pior ainda está para vir, que não se pode circular, que não podemos juntar-nos e no Natal vamos ver como será. Num labirinto de dias e horas misturados com recolheres obrigatórios e concelhos verdes, laranjas e vermelhos, a filha desenha a estratégia para visitar Alice. Será impossível fazer a distância de 500 quilómetros que as separa. O senhor Presidente continua a debitar pausadamente, e a filha de Alice grita: “A minha mãe ainda morre e eu não vou vê-la nem abraçá-la.” O chumbo pesado gelou a sala. Ninguém falou. À filha resta a revolta. À Alice restam as suas fantasias.

Desculpe o leitor se o meu fantasma nos encaminhou para aqui. Mas a história de Alice é verdadeira. E tantas Alices existem por aí. Se O Livro em Branco não me ensinou a escrever, não passo de um péssimo aprendiz, mas uma coisa eu sei e aposto, amigo leitor, que, se deixassem, Alice abraçaria a sua filha num dia de sol com as poucas forças que lhe restam, mesmo que de seguida viesse o último suspiro. A vida é muito mais do que respirar.