Espanha: 73 oficiais na reforma acusam Governo de ameaçar a “unidade nacional”

Carta assinada por generais e coronéis retirados, dirigida ao rei Felipe VI, assume o discurso usado pelo partido de extrema-direita Vox na moção de censura contra o Governo de Pedro Sánchez.

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Felipe VI e o rei emérito numa cerimónia no Palácio Real, em Madrid, antes de Juan Carlos abandonar Espanha Juanjo Martin/EPA

Um total de 73 oficiais reformados do Exército subscreveram uma carta ao rei de Espanha, onde assumem a terminologia usada pelo Vox na sua recente moção de censura ao Governo, garantindo que o país vive uma situação de “degradação” e avisando que a “coesão nacional” corre graves riscos, “tanto na sua vertente política como económica e social”. A missiva, a que o jornal El País teve acesso, segue-se a outra, escrita há dias por comandantes da Força Aérea na reforma.

Os signatários responsabilizam o Governo de coligação do Partido Socialista com o Unidas Podemos, que descrevem como “social-comunista, apoiado por pró-etarras e independentistas”, de ameaçar “com a decomposição da Unidade Nacional”. Ou, nas palavras usadas em Outubro pelo líder da extrema-direita parlamentar, Santiago Abascal, um “punhado de traidores” ao serviço de interesses como uma “oligarquia com pretensões soviéticas”.

A referência a “pró-etarras” prende-se com o apoio que o executivo liderado pelo socialista Pedro Sánchez já garantiu dos deputados do Bildu (independentistas bascos) ao Orçamento, que será votado na quinta-feira no Congresso.

Apesar de estarem reformados e terem, por isso, recuperado todos os seus direitos, incluindo a liberdade de opinião, estes oficiais fazem questão de assinar como militares, não como cidadãos, e incluíram os postos que ocuparam junto às assinaturas. É por exprimirem esta posição enquanto militares que dirigem a carta a Filipe VI, que é comandante supremo das Forças Armadas. Os militares afirmam ainda o seu apoio e lealdade ao rei “nestes momentos tão difíceis para a Pátria”.

Para o Foro Milicia y Democracia (FMD), associação criada para defender “os valores democráticos” no seio das Forças Armadas, “algo assim seria impensável em França, no Reino Unido ou na Alemanha”. Os peritos da associação, citados pelo El País, criticam o facto de estes oficiais pretenderem representar o conjunto do Exército assumindo o discurso político de um partido, o Vox.

“Atitudes como esta só servem para que a opinião pública identifique as Forças Armadas com um partido político concreto e nada prejudica tanto a sua imagem como isso”, avisam.

A carta é assinada por cerca de metade dos oficiais ainda vivos que entraram na academia em 1964 e inclui um tenente-general, dois generais de divisão e quatro generais de brigada, para além de 66 coronéis.