Eficácia das vacinas para maiores de 75 anos está por demonstrar, defendem especialistas

Para definir a estratégia de vacinação, especialistas terão de ter em conta os resultados dos ensaios clínicos que estão a ser feitos para testar as várias vacinas. E advertem que desconhecem os resultados dos ensaios clínicos com maiores de 75 anos.

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Reuters/David Himbert

Os residentes em lares, sem qualquer limite de idade, os funcionários destas estruturas, os profissionais de saúde que prestam directamente cuidados à população, além dos idosos com doenças graves, figuram na lista de prioridades numa versão preliminar da proposta que a comissão de especialistas encarregada pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) para definir os primeiros grupos alvo da imunização esboçou, esclareceu esta sexta-feira o ex-secretário de Estado Francisco Ramos, o coordenador da task force criada pelo Governo para delinear o plano de vacinação.

Também as forças de segurança, e eventualmente a população prisional, poderão ser incluídas na primeira fase da vacinação, além de outras pessoas com doenças severas, acrescentou Francisco Ramos, que estima que esta etapa inicial poderá vir a abranger perto de um milhão de pessoas. Enfatiza contudo que ainda se está na fase de ultimação de detalhes e que a definição dos grupos prioritários deverá ser conhecida apenas na próxima semana. 

Mas no documento de trabalho que ainda não era o definitivo – o prazo de entrega da proposta final da comissão técnica terminava esta sexta-feira e ainda estava marcada uma reunião em que se previam vários ajustes – estabelecia-se um limite de idade, 75 anos, nos restantes casos. Porquê 75 anos? “A questão de eventuais limites [etários] tem a ver com as características das vacinas. Estamos a trabalhar em cenários, no meio de grande incerteza”, explica ao PÚBLICO o coordenador da task force. 

Para elaborar esta versão preliminar e que está sujeita a ajustamentos, os especialistas da equipa da DGS focaram-se naquele que é o elo mais fraco na actual situação epidemiológica, as unidades de cuidados intensivos. E o que os dados indicam é que estas têm sido ocupadas sobretudo por pessoas entre os 55 anos e os 79 anos com outras patologias.

Basearam-se igualmente nos dados que existem até ao momento fornecidos pelas empresas farmacêuticas relativos a segurança e à eficácia das vacinas (que ainda não estão aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento). E o problema é que, segundo apontam especialistas ao PÚBLICO, se até aos 75 anos já existem dados, para o grupo dos mais idosos há apenas “resultados muito preliminares com amostras muito pequenas”. São dados que resultam dos ensaios de fase 1 e 2 (as primeiras fases, com menos participantes), em que foi avaliada a resposta imunológica através de amostras de sangue e não propriamente a eficácia das vacinas. “Não se percebe ainda a relação entre a concentração de anticorpos e a capacidade de não ser infectado, a resposta imunitária e a protecção contra o agente real”, explicam, frisando que as farmacêuticas apenas adiantam que têm uma percentagem de pessoas acima dos 65 anos nos ensaios, mas não dão mais pormenores.

“O problema é que ainda se sabe muito pouco sobre os resultados dos ensaios de fase 3”, corrobora o infecciologista António Silva Graça, que lamenta a divulgação desta proposta, que é “um documento de trabalho e não a versão final”. O infecciologista especifica, a propósito, que tanto a Pfizer como a Moderna, duas das farmacêuticas que já adiantaram alguns dados sobre os ensaios clínicos de fase 3, mencionam que incluíram pessoas com mais de 65 anos, mas sem grandes detalhes. A Moderna refere que são 25% do total e a Pfizer não quantifica, precisa. “O que se pode fazer nesta fase é esboçar critérios que depois terão de ser ajustados, consoante as vacinas que forem aprovadas, até porque ainda se sabe muito pouco. O que temos para já é o que a farmacêuticas divulgaram”.

Por isso, tanto os especialistas que integram a comissão técnica de vacinação, como Francisco Ramos, da task force do Governo, sublinham que a todo o momento a proposta preliminar pode ser revista, à medida que as farmacêuticas forem libertando informação adicional sobre os resultados dos ensaios de fase 3 das vacinas. Na avaliação dos especialistas também foi levada em conta a experiência anterior de vacinação contra outras doenças, que indica que a resposta imunitária até aos 60 anos é muito boa e que depois disso diminui.

Já no caso dos lares de idosos, a inclusão de todos sem limite de idades justifica-se tendo em conta a componente epidemiológica nestas estruturas, onde são frequentes surtos e é muito elevado risco de contágio, devido à partilha de quartos e de outros espaços comuns.

Sendo que da parte da DGS não houve qualquer comunicação acerca do assunto, coube ao secretário de Estado e Adjunto da Saúde abordar as questões mais técnicas, mas também políticas. “Sendo que as faixas mais vulneráveis sempre foram uma prioridade para este Governo, nomeadamente os mais idosos, não seria agora – não será com certeza – que a idade será um limite para a vacinação. Obviamente, como sabemos, existem determinadas vacinas que por determinados critérios e características das próprias têm uma indicação para determinadas faixas etárias”, explicou António Lacerda Sales.

“Isso é a única limitação e tem só a ver com as características das vacinas”, salientou o responsável, lembrando que este é “um processo muito complexo”. “Não sabemos qual vai ser o primeiro lote de vacinas que iremos receber. Teremos de nos adequar esse lote que vier”, acrescentou, salientando ainda um outro factor importante que determina que estratégia vá sendo ajustada à realidade: “As vacinas vão chegar por tranches e haverá grupos prioritários em função dessas vacinas.” Não será possível vacinar todos ao mesmo tempo, mas Lacerda Sales reforça que com os 16 milhões de doses que Portugal vai receber será possível “atingir um grau de cobertura e um espectro muito amplo”.

A versão preliminar da proposta é da autoria da comissão técnica de vacinação que a DGS nomeou no início de Novembro especificamente para a covid-19 e que inclui 11 especialistas, desde médicos a virologistas, epidemiologistas e farmacêuticos. É a esta comissão que cabe sugerir prioridades, mas a proposta, que é meramente técnica, terá depois que passar pelo crivo do Governo e da task force - que foi criada na segunda-feira e tem um mês para apresentar o plano global de vacinação, o qual incluirá todas as questões logísticas (transporte, armazenamento, distribuição), a estratégia de vacinação e de comunicação com a população e a farmacovigilância.

Com Ana Maia