A extrema-direita doutrina criancinhas ao pequeno-almoço

O mundo que se conta a partir do que se diz.

“Em certos momentos da história, quando se perde a razão e as pessoas se movem numa espécie de devaneio, um sem número de acontecimentos terríveis acontece.”  Yan Lianke, escritor chinês

Vem aí os lobos

O ataque de Anders Breivik na Noruega, em 2011, marcou uma nova aurora para o terrorismo de extrema-direita. Uma década que começou com o radicalismo islâmico como a principal ameaça, termina sob a sombra de novos movimentos radicais de direita, com acesso a treino militar, a armas automáticas e empenhados em aproveitar a fragilidade das democracias liberais, afectadas pelas crises económicas e pela pandemia do coronavírus, para ganhar mais apoiantes, recrutar mais operacionais e realizar mais ataques. Do atentado de Timothy McVeigh em Oklahoma, em 1995, que fez 168 mortos, até ao ataque de Breivik, a média anual foram 6,5 incidentes relacionados com a extrema-direita. Desde aí a situação mudou e chegamos ao fim desta década com quase três vezes mais ataques terroristas no Ocidente levados a cabo por neonazis e afins (17,2%) que por jihadistas (6,8%). A extrema-direita é muito mais letal, até pela sua infiltração nas forças armadas e nas forças policiais. Os ataques de extrema-direita cresceram 320% nos últimos cinco anos: com 58 ataques e 77 mortos por ano de média. “É a maior ameaça para nós”, diz o ministro do Interior alemão, Horst Seehofer. O Comité de Antiterrorismo da ONU lançou recentemente o alerta contra a “crescente ameaça transnacional do terrorismo de extrema-direita”. Uma ameaça que pode sobreviver nas sombras, sem grandes contactos, até despontar para um ataque sem detecção: 60% dos atentados de extrema-direita são cometidos por lobos solitários, indivíduos não relacionados com qualquer grupo, de acordo com dados do Instituto de Economia e Paz.

É de pequenino que se radicaliza o destino

Connor Scothern pode ter apenas 19 anos, mas preparava para si grandes planos. Não fosse ter sido apanhado pela polícia e condenado a 18 meses de prisão e a sua “guerra santa” contra negros, judeus e homossexuais podia já ter dado os frutos amargos que o jovem neonazi britânico pretendia colher. Condenado com três outros cruzados, entre eles a ex-Miss Hitler Alice Cutter, Scothern beneficiou da sua idade para se livrar de uma estadia maior na cadeia – e alegando que à altura dos crimes, o seu cliente era menor e, como tal, deveria ter uma pena mais curta, o juiz ainda reduziu agora para metade a condenação do extremista. Criado em 2013, o agora ilegalizado Acção Nacional era considerado o grupo neonazi mais radical do Reino Unido. Os seus membros veneravam Thomas Mair, que assassinou à facada a deputada trabalhista Jo Cox, em 2016. Entre eles, Connor Scothern, que se juntou ao grupo quando tinha apenas 15 anos e era visto como um futuro líder. O radicalismo racista e xenófobo está a atrair gente cada vez mais jovem no Reino Unido – dos 12 menores detidos em 2019 por terrorismo, dez eram de extrema-direita, uma percentagem muito superior a outras faixas etárias, onde costumam corresponder a 20% do total de detenções. Atraídos para espaços de doutrinação na internet, os adolescentes são captados, ideologizados e radicalizados na tranquilidade dos seus quartos e, segundo a polícia britânica, nessas idades, o período de formação de um extremista é assustadoramente rápido.

Asilo político 30 anos depois

Desde 1989 que a Noruega não concedia asilo político a um polaco. Mais de três décadas depois da queda do regime comunista na Polónia, Rafal Gawel tornou-se no primeiro polaco a conseguir esse estatuto. Está na Noruega desde 7 de Janeiro de 2019, onde chegou de carro com a mulher e a filha de dois anos desde a cidade de Bialystok. O seu primeiro pedido de asilo foi rapidamente rejeitado, mas Gawel recorreu e o longo processo judicial terminou agora com a resposta que o activista mais queria ouvir, a Junta de Recursos de Imigração da Noruega decidiu por unanimidade conceder-lhe o estatuto. Fundador do Centro de Monitorização do Comportamento Racista e Xenófobo, Gawel foi condenado a dois anos de prisão por fraude económica no financiamento da sua organização, uma sentença que tem todos os contornos de perseguição política e que o punha em posição de perder a sua liberdade se fosse obrigado a voltar à Polónia. O caso de Gawel é um exemplo do que a União Europeia tem vindo a alertar sobre a falta de independência do sistema judicial polaco e das falhas do Estado de direito na Polónia e um sinal de que como o Governo de Varsóvia, não só tolera as acções dos grupos de extrema-direita racistas e xenófobos, como partilha dessa ideologia. Se um partido chamado Lei e Justiça (PiS) não revelasse já ao que vinha com o seu nome, o comportamento dos seus governos não é mais do que a expressão dessa ideologia autoritária que vai desfazendo a democracia por dentro e de que nem os juízes estão a salvo: “Tentam que os tribunais livres estejam subordinados ao poder político”, declarou o juiz Igor Tuleya, a quem a Sala de Disciplina do Supremo Tribunal (cujas competências a UE quer ver suspensas) quer retirar a imunidade.

A difamação como arma

Líderes autoritários não gostam normalmente de jornalistas, só daqueles que podem usar como veículos transmissores da sua mensagem. Notícias e análises equilibradas, questionamentos, críticas são intolerados por quem pretende governar sem ser perturbado. Nas ditaduras, os jornalistas são eliminados. Nas democracias autoritárias, embora também possam ser eliminados ou ameaçados, o mais comum é serem processados, desacreditados ou despedidos. Nas democracias ocidentais, com as cada vez maiores dificuldades financeiras dos projectos de media, a salvação, por vezes, está em ser conivente, condescendente, amigável. “Isto tem consequências”, escreve Michael Petrou, jornalista e historiador canadiano. “Há muitas razões para o declínio global da democracia nas duas últimas décadas, incluindo as crises financeiras, a falta de liderança dos EUA e a aparente ascensão da China e da Rússia como modelos autoritários que prometem riqueza e poder sem prestação de contas. Mas entre esses factores deve ser incluído o enfraquecimento do jornalismo como força democrática.” Em Julho de 2017, Jaroslaw Kaczynski, líder do Lei e Justiça (PiS), partido no poder na Polónia, anunciou que depois das mudanças no poder judicial, o objectivo do Governo era desmembrar os grandes grupos de media. Seguindo o exemplo da Hungria, o PiS já tinha conseguido para o poder executivo o controlo sobre a difusão pública de informação e a fase seguinte era amansar ou amordaçar a imprensa independente. No World Press Freedom de 2020, a Polónia continuou a descer, desta vez mais três lugares, está agora em 62.º. “A crescente tendência para criminalizar a difamação está a começar a ter os seus efeitos na liberdade de expressão dos media independentes”, lê-se no relatório.