Mais de oito anos depois, o Titan do molhe sul erguer-se-á de novo no porto de Leixões

Tombou há pouco mais de oito anos numa explosão que surpreendeu os que se preparavam para o desmantelar e relocalizar. Agora, das peças que sobraram, será reconstruído, colocado no Terminal de Cruzeiros e aberto ao público, com data prevista para o próximo Verão.

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Foi apresentado esta sexta-feira o projecto para o renascer do Titan no Terminal de Cruzeiros do porto de Leixões. A máquina industrial é um marco histórico na memória colectiva da região, e foi, até 2012, uma figura icónica no horizonte da praia de Matosinhos. Há pouco mais de oito anos, quando estava a ser desmantelada, deu-se uma grande explosão e um incêndio que desfizeram o guindaste Titan em pedaços. Agora, alguns serão recuperados e outros substituídos, num misto entre reconstituição e replicação, sendo que o coração da máquina havia sido retirado antes da explosão e esteve preservado estes anos todos. 

O Titan foi destruído por uma explosão em 2012 DR
O coração mecânico da máquina teria sido retirado dias antes da explosão DR
Algumas partes do Titan foram recuperadas DR
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Nuno Araújo, presidente da Administração dos Portos do Douro e Leixões (APDL), que durante a apresentação lançou uma página online que congrega a história do Titan, garante ser “um dia muito feliz para toda a região”. A decisão de reconstrução foi tomada em 2018, mas apenas em 2020 foi assinado o primeiro contrato com empresas para um dos muitos investimentos em curso na APDL.

Realça o interesse em tornar o Titan em algo que “pudesse ser tocável”, atingível a toda a comunidade. “São muito poucas as pessoas que no passado poderão ter tido a oportunidade de tocar no Titan”, conta ao PÚBLICO. Para isso, pretende facilitar visitas guiadas ao guindaste, que deverá estar pronto, no máximo, pelo “próximo Verão”. E justifica a demora: “Estamos a falar de muitas toneladas de ferro, não é propriamente muito fácil avançar-se para uma reconstrução, até porque também é um investimento considerável”. Nuno Araújo conta que tinham “um património guardado sob a lona e que há muito tempo era reclamado pela comunidade” e, portanto, estava na altura de restituir um dos elementos da identidade de Matosinhos.

O guindaste ficará funcional mas não será utilizado para movimentar carga. A relocalização da enorme estrutura de arqueologia industrial para o Terminal de Cruzeiros pretende aproximar a comunidade desta zona, “promovendo a relação directa entre a cidade e o Terminal”, explica a presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro. “O porto é idiossincrático para os matosinhenses”, sublinha na apresentação. Como tal, espera que se possa ter “outro dia feliz” com a inauguração do Titan.

Numa altura em que “o porto de leixões está a viver um momento histórico de crescimento e de construção de novas infra-estruturas”, é importante permitir “aos mais antigos reencontrarem-se com esta imagem”, destaca ao PÚBLICO. O apoio da Câmara Municipal insere-se na parte pedagógica do projecto, para “explicar às crianças o que é o Titan e como foi a construção do porto de Leixões”.

Peças únicas

A sessão começou com uma viagem até aos primórdios de Leixões, guiada pelo historiador Joel Cleto. O contexto histórico serviu para mostrar o papel fulcral desta máquina na transformação do porto de abrigo de Leixões, que viu muitos navios e marinheiros cair, num porto comercial. Os gigantescos titânicos guindastes, “peças únicas no mundo”, eram movidos a vapor e situavam-se nas duas margens do porto. Hoje, com 135 anos, permanecem “duas relíquias de património industrial nacional e até mundial”, defende Joel.

Além da reconstituição, o projecto contempla uma componente pedagógica, fruto da intenção de educar a comunidade escolar para a história do porto de Leixões. Uma exposição itinerante passará pelas escolas, acompanhada de sessões de formação para os professores e alunos. Serão, ainda, publicados dois livros infantis com a história do Titan e lançado um jogo virtual que simula a sua construção. Por último, haverá ainda um concurso junto do ensino superior artístico inspirado no tema.

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O Titan deverá voltar a fazer parte da paisagem de Matosinhos no próximo verão DR

A 12 de Abril de 2012 deu-se uma grande explosão, seguida de três menores e um incêndio, no molhe sul do porto de Leixões, fazendo um morto, um ferido grave e vários ligeiros. O guindaste Titan estaria a ser desmantelado desde o dia 3 de Abril, para remodelação. 

O acidente foi causado pela queda de uma peça do Titan sobre o pipeline de gás que ligava o local de atracagem dos petroleiros a um depósito de armazenamento em Matosinhos. O inquérito apurou que uma grua de apoio que suportava o contrapeso do guindaste histórico Titan terá tombado graças a uma falha no cálculo do peso. Em comunicado, a APDL garantiu que era impossível pesar o contrapeso antes da operação, pelo que foi feita uma estimativa pela empresa contratada, a Eurocrane.

As chamas foram combatidas com autotanques e canhões de água de dois navios rebocadores. No total, 73 bombeiros, de várias corporações, combateram o incêndio que deflagrou na Doca 1, onde decorriam também obras para a construção do edifício de acolhimento do novo terminal de cruzeiros de Leixões.

Para Guilherme Pinto, o então actual presidente da Câmara de Matosinhos, entretanto falecido, o acidente inseriu-se no “preço que Matosinhos paga pela existência de um pipeline no casco urbano”, cujas condutas poderiam ter cerca de 50 anos, contou ao PÚBLICO na altura. Situação que deixou de existir com a transição do armazenamento de combustíveis para novas instalações em Perafita e Leça da Palmeira.

Texto editado por Ana Fernandes