As “betas“ (e não só) também podem ser feministas: a revolução passa pelo Instagram

Se escutarmos bem, conseguimos ouvir os tambores e os movimentos compassados da revolução que se prepara no Instagram: as páginas de celebração e revolta pelos direitos de quem tem vulva vão-se multiplicando em diversos formatos e com várias premissas.

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O Instagram tem adquirido uma qualidade pedagógica, e hoje em dia é cada vez mais comum tropeçar-se em contas defensoras dos direitos da mulher que pretendem disseminar informação útil. Embora com motivações diferentes, todas estas contas partilham um objectivo: empoderar as mulheres ou, num termo menos binário, quem tem vulva. O PÚBLICO falou com as responsáveis de quatro páginas dinamizadoras de vários conceitos relativos ao universo feminista. Da emancipação dos “betos” [jovens de classe alta] à sensibilização contra partilha de conteúdo íntimo, passando pela educação sobre o corpo feminino e terminando com a arte da ilustração como espelho da actualidade.

Betas Descontroladas: uma página para o “beto” que existe dentro de cada um

“Num serão em Campo de Ourique, entre pizzas e alguns gins tónicos” nasceram as Betas Descontroladas, há cerca de um ano, num bairro lisboeta. “Desabafava-se um bocadinho o desejo de liberdade sexual e de identidade”, contam, ressalvando que se trata de algo particularmente difícil de conquistar para os “betos”. “São tão privilegiados em tanta coisa, mas nisto conseguem estar associados a uma castração talvez até um bocadinho maior”, justificam as responsáveis por esta página que preferem manter o seu anonimato. 

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As Betas Descontroladas querem acabar com as caixas da sociedade DR

Assim, esta página “é uma pura sátira social, mas tenta passar uma mensagem importante de uma forma positiva”, defendem. O confinamento foi o impulsionador da ideia que até então estava na gaveta. Todo o conteúdo é produzido internamente, garantindo uma coesão estética à página. “Temos uma beta descontrolada que é um prodígio da ilustração”, brincam.

A reacção da comunidade amplificou-se de forma inesperada: “Num mês, de repente, tínhamos dez mil seguidores com essa semana a bater um milhão de impressões e sempre muito mais visitantes de página do que efectivamente seguidores. Acabou por ser um engagement louco.” 

Com o sucesso da página cresceram também as mensagens a pedir conselhos, a partilha de dores e as sugestões de temas a abordar — deixando a caixa de emails “absolutamente entupida”. Contudo, não são psicólogas ou sexólogas, e deixam-no claro: “Falamos um bocadinho da nossa experiência e também os encaminhamos para artigos científicos que os possam ajudar melhor do que nós.”

As Betas Descontroladas querem usar o feminismo para acabar com a categorização da sociedade. “Embora o nosso nome seja Betas Descontroladas (queremos também tirá-lo dessa caixa), nenhuma caixa devia existir hoje em dia e continua a existir em tudo.” Nos media tradicionais, “todas as opiniões, ideologias e causas, os líderes de opinião são sempre de extremos”, criticam, enquanto no Instagram “consegue-se estabelecer uma plataforma de opinião em que [uma mulher] ser religiosa não implica que não possa ser feminista”. Na rede social, “não tem de ser de direita ou de esquerda, porque pode ser contra o aborto e a favor da eutanásia, ou a favor do casamento gay e contra a legislação das drogas leves”, exemplificam.

No Instagram encontraram um veículo de informação que não existia na sua adolescência, relembram. “Havia três maneiras de obter a informação: os pais, as escolas e os media.” Agora, na Internet, há acesso facilitado a visões e vozes diferentes que ajudam a formar a opinião individual de cada um. Quem são as Betas Descontroladas não interessa, a representatividade individual das histórias que contam dificilmente é o foco deste projecto. Interessa, sim, que os seguidores se identifiquem com o conceito; por isso, “são bonecos de vários tipos de pessoas”.

Corta a Corrente: um movimento que quer combater o preconceito

Mariana Fernandes tem 30 anos e trabalha num banco. Nas horas vagas gere a conta Corta a Corrente no Instagram, uma página que denuncia a partilha de conteúdo íntimo na Internet — nascida da revolta perante “o vídeo da CP”, conta. A atenção que o vídeo ganhou fez com que Mariana se apercebesse de como “julgamos diferentemente o género nestas situações”. “Ela foi completamente achincalhada, houve memes a circular, os media abordaram o caso como ‘a mulher que fez sexo no comboio’ — como se ela estivesse sozinha”, comenta.

Uma amiga da rapariga envolvida contou-lhe que “mesmo offline as mulheres da família dela, a mãe e a tia, estavam a sofrer assédio na rua”. “É completamente incrível as discrepâncias de consequências”, lamenta, dizendo que ninguém deveria ser culpabilizado independentemente do género. Então, criou quatro imagens para sensibilizar “a pessoa comum que recebe este tipo de conteúdo e que não se apercebe de que aquilo vai ter consequências”

Além de informar sobre apoio à vítima e sensibilizar sobre o problema no geral, recorrendo a artigos científicos e estatísticas, Mariana quer desencorajar a partilha desumanizada online de algo que “nem sabemos se foi consentido ou não”. A jovem acredita que quem recebe esses conteúdos “tem uma acção subvalorizada”, pois pode “deixar de partilhar e cortar ali a corrente e até denunciar e sensibilizar os amigos”

“Este comportamento de partilhar conteúdo íntimo já acontece há bastante tempo naqueles grupos do WhatsApp e nas redes sociais”, diz, garantindo que não compactua com a sua normalização. Os vídeos e fotografias de raparigas seguem acompanhados dos seus perfis online, identificando a pessoa e as redes sociais têm um papel fulcral na disseminação, continua. Ao chegar a mais pessoas, as consequências ganham outra dimensão e, portanto, Mariana Fernandes tem duas petições em curso na Assembleia da República: uma para responsabilizar as redes sociais pela permissão de circulação de pornografia não consentida; outra para elevar a partilha de pornografia não consentida a crime público (para que todas as testemunhas possam fazer queixa-crime).

Inicialmente, a jovem bloqueava as pessoas que eram ofensivas nas suas publicações, mas agora procura ter “paciência para dialogar”, pois, por vezes, são pessoas que desconhecem a realidade desta situação e sentem-se ameaçadas quando as mulheres reivindicam igualdade. “Com movimentos feministas há a tendência de os homens acharem que as mulheres querem mais direitos do que os que eles têm”, explica. E sugere: “A nossa tendência é cortar logo com as pessoas que achamos que não concordam com coisas básicas, mas se tivermos um bocadinho de paciência para dialogar com elas, quem sabe se não é útil?”

Mariana acredita que o sexismo está enraizado na cultura portuguesa, que continua bastante conservadora e religiosa. “De alguma maneira continua a perpetuar-se esta cultura em que um homem é um garanhão por ter mais mulheres, enquanto se a mulher for mais sexual torna-se indesejável para casamento e só serve para dar umas voltas”, retrata. E termina criticando a hipocrisia que circunda esta questão: “Parece que a sociedade está sempre a incentivar a mulher a expor-se e depois aproveita logo para a julgar em praça pública quando algo acontece.” 

Cosmic Feminine: um olhar sobre o cosmo que é o corpo feminino

Inês Martins Almeida, 27 anos, é formada em Enfermagem, mas está a estudar para ser parteira, em Londres. A sua área profissional, que sempre girou em torno da saúde da mulher, mostrou-lhe que estas “tinham pouco a dizer sobre as suas próprias escolhas, principalmente reprodutivas e no parto”. “Acho que estamos ainda a viver numa sociedade patriarcal que exerce muito poder sobre a liberdade de escolha das pessoas com útero”, constata.

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Inês vive em Londres, onde está a estudar para ser parteira DR

Fascina-a, então, conseguir empoderar as mulheres através do conhecimento e, para isso, criou a conta Cosmic Feminine no início de 2019. Inicialmente queria apenas partilhar o que estava a aprender sobre o método de percepção de fertilidade — um método de contracepção natural, que ensina actualmente. Perplexa com tudo o que estava a descobrir, e que nem na sua profissão era divulgado, sentiu que “as pessoas tinham de conhecer isto”. “Criei a minha conta de forma totalmente despretensiosa e sem o sentido de ser um projecto ou negócio, foi simplesmente para partilhar, do género ‘olhem isto existe’.”

Inês reconhece que vive num nicho, por si criado, em que as mulheres são conscientes em relação às suas escolhas. “Quando eu saio desta bolha, vejo que realmente há muitas mulheres que ainda não sabem que têm o direito e até o dever de fazer as suas próprias escolhas e informarem-se sobre as suas opções”, observa. Contudo, já pressente um interesse crescente nestes assuntos, por mais que o estranhem à primeira. A própria admite ter sentido alguma vergonha no arranque do projecto. “A minha mãe seguia-me, as minhas amigas de infância seguiam-me, e eu estava a falar de períodos e de vulvas de uma forma muito aberta”, relembra. 

O empoderamento é, de certa forma, contagioso e Inês não vê razões para a vergonha. “É uma parte do corpo como todas as outras”, contrapõe. Assim, parte da sua missão é desmistificar estes tabus que tratam o órgão genital feminino, e a saúde da mulher no geral, como “algo sujo e feio”. Inês realça que já não tem praticamente filtros, de acordo com o contexto: “No meu nicho, no Instagram, sinto-me à vontade para falar sobre vulvas, vaginas, úteros e períodos, mas se calhar na minha bolha social do trabalho não.”

Inês conta que a vêem como uma referência e procuram o seu acompanhamento. Com a sua conta consegue ajudar as mulheres, que se “sentem apoiadas e ouvidas” — uma abordagem humana que “não acontece quando consultam um profissional de saúde que não está tão desperto para isto, numa consulta de ginecologia de 15 minutos em que não se sentem compreendidas”. Oferece como exemplo o caso de uma mulher com síndrome de ovário policístico, a quem “a opção apresentada é a pílula”. “Eu quero que elas saibam que de facto esse não é o único caminho. Existem outras opções, existem maneiras de melhorar a saúde fora da medicina convencional, apesar de eu ser da medicina convencional”, defende.

Para Inês Martins Almeida, o problema advém de questões sociais, e não da educação. “A maioria das mulheres cresceu num ambiente mais opressor, ainda que de forma inconsciente”, explica. A mãe, professora de Bioquímica, foi a primeira a falar-lhe do ciclo menstrual. “Para ela era científico, era algo natural, mas ao mesmo tempo não podíamos falar. Num certo ponto havia ali muito tabu e vergonha”, recorda. Quando for a sua vez, promete falar abertamente com as filhas, “e isso vai fazer alguma mudança na forma como elas vêem o mundo e os seus corpos”

No Reino Unido, o cenário é bem diferente, assegura. Os direitos da mulher no parto são protegidos por um consentimento informado. “Ninguém faz nada antes de a mulher assinar ou dar consentimento verbal, e para dar o verbal têm de lhe ser dadas informações da intervenção.” Já em Portugal, é algo que não acontece tanto, considera. O método de percepção de fertilidade que Inês ensina no Instagram é a contracepção ensinada no sistema nacional de saúde britânico. “Em Portugal vemos o oposto, temos profissionais de saúde a desaconselhar este método”, compara, garantindo que no Reino Unido todas as práticas medicinais são baseadas em provas. Para Inês, estas disparidades são fruto de um “machismo mascarado nos profissionais de saúde, que não precisam de ser homens”, muito marcado em Portugal. “Existe ainda muito aquela [ideia da] autoridade que temos de respeitar, ainda que seja muito subtil”, avalia, lamentando a falta de profissionais de saúde com mentes mais abertas.

Kimono em Português: a actualidade espelhada em ilustrações pela mão de uma mulher

Ao contrário das jovens anteriores, Joana Rasteiro exprime-se através das cores e formas que dá a assuntos da actualidade com as suas ilustrações. É licenciada em Design de Moda e criou a Kimono em Português, há uns anos, com o lançamento de uma colecção dedicada aos diferentes tipos de corpos das mulheres. Munida do seu material artístico, seja ele analógico ou digital, quer destruir o estigma à volta da mulher.

Aponta as questões corporais, a sexualidade e a menstruação como tabus que persistem de geração em geração, mas confia que as redes sociais são a ignição da mudança. “As pessoas acompanham o conteúdo e é uma forma de se conseguirem expressar.” Aproxima-se dos 29 anos e confessa não se lembrar de ter tido educação sexual na escola, embora tenha crescido num ambiente familiar com abertura. “Tenho plena consciência de que há muitos pais que não se sentem confortáveis a falar de certos temas, e acho que ainda precisa de se mudar muita coisa nas escolas.”

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Joana quer ser uma porta-voz das mulheres DR

Joana quer tornar-se uma porta-voz para as mulheres, pois acredita que não se pode ficar calado em certas situações. “A arte é uma forma fantástica de o fazer”, confia, pois permite transformar os sentimentos difíceis de compreender em algo contemplável e “causar sensações nas outras mulheres” — razão pela qual recebe tantos pedidos. As reacções que recebe dizem-lhe que é, de facto, empoderador e transformador, já que com as suas ilustrações ajuda a melhorar a vida ou o dia de alguém.

Além das sugestões dos seguidores, a inspiração flui de várias fontes. Parte vem de algo que lhe aconteceu ou que viu acontecer. Conta que tinha acabado de fazer uma ilustração sobre o caso da Mariana Ferrer, no Brasil. “Eu não podia ficar indiferente a essa situação. Aconteceu a ela como acontece a muitas mulheres”, exclama. Como gosta de ler, é também dos livros que retira conteúdo: “Estou a ler um livro, vejo uma frase que faz todo o sentido e penso: ‘Isto dá uma ilustração excelente.’”

Texto editado por Bárbara Wong