O menino Diego

Adeus, Maradona, adeus jovem Diego, todos quisemos, queremos e havemos de querer ser como tu. Mas só há um Maradona e já não está no céu, mas muito acima, uma constelação de estrelas, estás a ver, está ali um braço e depois uma perna, a baliza e o golo na rede.

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Reuters/YARA NARDI

As origens de Maradona não são apenas humildes, são o resultado da pobreza óbvia, não de um povo, mas um continente inteiro. Diego Armando Maradona nasceu a 30 de Outubro de 1960 em Villa Fiorito, um bairro de lata nos arredores de Buenos Aires. Sendo a quinta criança da família, ainda viu os pais acrescentar mais três irmãos ao total de oito filhos para alimentar.

O pai, Don Diego, trabalhava, ora como operário fabril ora como pedreiro, horas sem fim fora de casa numa tarefa tão hercúlea como impossível ou não fossem tantas as bocas por alimentar. Que o diga a mãe de Maradona, a qual, apesar de nunca ter sofrido de dores de barriga, clamava repetidamente sofrer das mesmas sempre que chegava a hora de comer. A verdade era a da comida não chegar para todos, optando a mãe por não comer em benefício da prole.

E se para Maradona foram precisos 13 anos, os primeiros da sua vida, para se aperceber desta realidade, o jovem Diego jurou a si mesmo e ao mundo não mais esquecer as origens e o sacrifício de uma mãe a tudo disposta pelos filhos.

De igual modo, Maradona não esqueceu a sua primeira bola de futebol, oferecida por um primo aquando do seu terceiro aniversário. A paixão pela bola de futebol não foi apenas imediata, mas assolapada, ou não tivesse Maradona dormido com a mesma enfiada e aconchegada por debaixo da t-shirt durante seis meses para que não a roubassem.

Não obstante o esforço, a bola de futebol foi repetidamente confiscada pela mãe na infrutífera tentativa de levar Maradona a concentrar-se nos estudos e a cumprir o sonho maternal de um dia ver o filho como contabilista. As expectativas de quem nada tem eram, e são, expectáveis quando se almeja a ascensão social como premissa básica para se poder ter comida na mesa. Para todos.

O futebol, no entanto, falou sempre mais alto e aos nove anos o pequeno Diego, sempre pequeno e mais pequeno do que os adversários, juntou-se à equipa local, Los Cebollitas, para de imediato ganhar 140 jogos de seguida e sem interrupção.

Nesta supernova de vitórias, nasceu uma estrela.

Os dribles, as assistências e os passes certeiros eram dignos de um prodígio do futebol e motivo de furor entre o público incrédulo a assistir à rapidez do pequeno Diego a passar por entre adversários tantas vezes maiores do que ele. 

Sendo Los Cebollitas a equipa de infantis dos Argentina Juniors, equipa da Primeira Divisão, não tardou ao jovem Maradona o papel de entreter a assistência com as suas acrobacias futebolísticas durante os intervalos dos jogos.

Aos 15 anos, Maradona integrou o plantel principal dos Argentina Juniors, o mais jovem jogador de sempre num clube da Primeira Divisão, batendo mais um de muitos recordes de uma longa carreira da terra ao céu e onde Deus teve um papel preponderante, como todos sabemos.

A mão de Deus? Ou a paixão sem fim, o calor, as emoções sempre à flor da pele, a vida como um carnaval e a vida para se viver, e tudo isto aliado a uma necessidade sem fim de ganhar, ganhar à fome, ganhar à pobreza e aos bairros de lata, ganhar à vida, viver de uma vez por todas o céu que é de todos nós por direito, mas onde apenas alguns conseguem chegar?

Adeus, Maradona, adeus jovem Diego, todos quisemos, queremos e havemos de querer ser como tu. Mas só há um Maradona e já não está no céu, mas muito acima, uma constelação de estrelas, estás a ver, está ali um braço e depois uma perna, a baliza e o golo na rede.