Sintam-se em casa: Frida traz-nos o design nórdico (sem mostrar como ele é)

Decoradora, designer e autora de um aclamado blogue, Frida Ramstedt colocou o conhecimento num livro. Sinta-se em Casa dá dicas práticas sobre como melhorar o espaço que nos rodeia, sem mostrar fotografias. A ideia é convidar-nos a trabalhar com o que temos. “Se mimares a tua casa, ela vai-te mimar de volta”, garante a autora.

Foto
LISA THANNER

Frida Ramstedt sempre achou que o trabalho da irmã era mais importante do que o seu: uma é médica e investigadora no ramo do cancro cervical, outra é designer de interiores. “Afinal de contas, a minha irmã está a salvar vidas”, escreve Frida ao P3, num desabafo que vem acompanhado de uma gargalhada. Mas o confinamento veio mudar-lhe esta ideia.

“Acredito que a maior parte das pessoas que esteve em confinamento pode assegurar o quão importante é sentir-se confortável em casa, e o quão grande é o impacto que o que nos rodeia tem no nosso bem-estar”, refere. A autora arrisca mesmo dizer que, a partir desse momento, passamos a ter “uma abordagem muito mais orientada para a nossa saúde quando pensamos no que nos rodeia — o que foi, provavelmente, a melhor coisa que podia acontecer à indústria do design”. 

Foto
Miguel Costa

E quem esteve semanas dentro de casa poderá, certamente, confirmar esta afirmação. Afinal, foi só quando passamos dias a fio em casa que percebemos que aquele móvel está no meio do caminho, que o sofá podia estar mais perto da tomada, ou que há uma parede demasiado vazia. Talvez até tenhamos olhado para alguns catálogos e sonhado em ter uma casa semelhante.

Precisamente o que Frida Ramsted, uma das mais influentes e premiadas decoradoras de interiores da Suécia, quer contrariar com o livro Sinta-se em Casa​, já à venda. Autora do blogue Trensender, também um dos mais aclamados da região nórdica, a designer juntou uma série de princípios básicos para decorar uma casa em livro, mas com uma (grande) diferença em relação aos já existentes: não utiliza fotografias.

Foto
Miguel Costa
Foto

A ideia é “encorajar os leitores a olharem para a própria casa e criarem soluções pessoais, em vez de copiarem as ideias de outras pessoas”. É que, defende a autora, “focamo-nos tanto em como os interiores devem ser, que deixamos de ponderar se eles funcionam para nós”. O livro divide-se em nove capítulos, passando pelas cores, iluminação, medidas e proporções, até questões que nos fazem pensar sobre quem somos e o que fazemos em nossa casa.

As dicas são simples e directas, desde como organizar uma parede cheia de quadros, as jarras num móvel, ou qual deve ser o comprimento de uma cortina (já agora: se forem de comprimento médio-longo devem terminar dois ou três centímetros abaixo do caixilho; se forem longas devem estender-se até dois ou três centímetros acima do chão).

“Gosto de comparar o design de interiores com a culinária”, refere Frida. “As revistas e livros de interiores estão, hoje em dia, repletas do que seria equivalente a comida já feita — não há receitas. Simplesmente vês onde podes encontrar os mesmos ingredientes, mas ninguém te diz como cozinhar.” Por isso, Frida dá receitas para trabalharmos com os ingredientes que já temos, através de desenhos ilustrativos.

“Se sentes que não estás confortável em tua casa, é porque, provavelmente, não te estás a ter em conta”, avisa. “Um interior bem planeado pode ajudar a evitar dores de costas, dores de cabeça devido à tensão, problemas de visão e até mau humor, devido ao facto de as coisas não funcionarem como gostaríamos que funcionassem.” Se optarmos por materiais melhores, por exemplo, podemos “evitar poluição e exposição a químicos desnecessários dentro da nossa casa”.

Contudo, garante que não escreveu este livro para “apontar dedos” ou dizer que “algumas fórmulas são correctas e outras são erradas”. Ainda assim, refere que “proporções e funcionalidade parecem ser muito complicadas para nós” — provavelmente “porque não estamos treinados a pensar sobre elas”.

Foto
Miguel Costa

A lógica e a ergonomia são aspectos “subvalorizados”, lamenta. E exemplifica: “Quanto espaço precisas para ti e quanto espaço a tua mobília vai precisar para ser utilizada é uma das questões explicadas no livro e, provavelmente, vai ser um abrir de olhos para muitos leitores.” Pode parecer “simples e idiota”, mas tem muito que se lhe diga. É que apesar de “muitas vezes ouvirmos que não há regras no design de interiores”, a verdade é que “há consensos em coisas como as proporções, composição e harmonia”.

Porque nem sempre é fácil obter uma resposta directa junto de profissionais, Frida tentou fazer um caldo com o que os anos de experiência lhe ensinaram. Desde a capa em tecido, a organização da informação, aos esquemas que nos fazem soltar um “Ah! Faz todo o sentido!”, este livro deixa-nos um bocadinho mais perto de entrar no mundo do design nórdico que tanto admiramos.

Foto
Miguel Costa

“O que é agradável para os nossos olhos e para o nosso corpo nem sempre é o mesmo”, conclui. Sabemos disso e, por isso mesmo, tantas vezes ficamos presos numa dualidade entre funcionalidade ou estética. Mas a autora desvenda que não tem de se tratar de uma escolha: “Um interior harmonioso é onde a estética e a antropometria se encontram.” Como comprar sapatos. “Quando compramos calçado sabemos de que tamanho vamos precisar para nos sentirmos confortáveis.” E há sempre opções que correspondam ao nosso gosto.

O segredo é simples: “Se mimares a tua casa, ela vai-te mimar de volta.” E as boas escolhas envolvem “todos os nossos sentidos, não apenas os nossos olhos”. Vale a pena, então, dedicarmos algum do nosso tempo a cuidar do nosso espaço. É que ter uma casa com um bom design pode não salvar a nossa vida… mas poupa umas boas dores de cabeça.