O Orçamento da crispação

Visto daqui, o PS comporta-se neste debate orçamental como se já tivesse tirado o BE da equação.

Há um Orçamento do Estado para 2021 que continua a discutir-se e a votar-se às claras, no Parlamento, e há um orçamento que está a ser alvo de acertos longe dos olhares atentos ao processo orçamental. Se não é isso que está a acontecer, pelo menos, é o que parece. Quando PCP e PS pedem o adiamento da votação de uma das principais medidas em discussão – o novo apoio social –, esse pedido sugere que é preciso desbastar arestas e fazer ajustes para que a medida mereça o voto favorável dos comunistas.

Ao contrário do que aconteceu em anos anteriores (desde 2015), a crispação entre o PS/Governo e o Bloco de Esquerda é desta vez mais notória e fez-se sentir antes, mas também durante os debates. Isto significa que as conversas (ou algo parecido) deverão estar a acontecer com o PCP, o PAN e deputadas não inscritas. Cristina Rodrigues assumiu-o, aliás, ao anunciar as medidas por si propostas que vão contar com o apoio dos socialistas. Isso é mais do que o Bloco pode dizer. O que os bloquistas têm recebido do PS, nos últimos dias, é uma sucessão de chumbos às suas medidas, que eram pouco mais de uma dezena

Seria uma enorme surpresa se, na quinta-feira à tarde, os 19 deputados do Bloco de Esquerda mudassem o sentido de voto e viabilizassem o OE 2021. Em primeiro lugar, porque não é esse o sinal que vem do Parlamento, das sucessivas intervenções. Em segundo lugar, porque também já não é esse o sinal que vem do Governo.

Visto daqui, o PS comporta-se neste debate orçamental como se já tivesse tirado o BE da equação, sem inseguranças em relação ao resultado final e evitando ultimatos sobre crises políticas. Uma postura curiosa, já que o PCP parece indiferente a esse divórcio e esforça-se por mostrar que ainda não se comprometeu a aprovar coisa nenhuma.