Eleições municipais no Brasil, um leve cheirinho de alecrim?

Apesar do período sombrio que o Brasil vive, as tendências dessas eleições dão algum sinal de esperança dentro do atual cenário de crise.

No Brasil, no último domingo 15 de novembro, a primeira volta das eleições municipais iniciou o processo de definição não só dos novos vereadores e “prefeitos” (presidente da câmara) dos 5569 municípios brasileiros, mas deram um bom panorama dos rumos da política partidária no país para os próximos anos.

Tão importante quanto perceber a queda da popularidade de Jair Bolsonaro, já que quase todos os candidatos que declararam apoio perderam logo no primeiro turno, é constatar os impactos de sua política autoritária e neofascista na vida de milhares de brasileiros, o que tem culminado numa deriva dos eleitores na busca por partidos mais de centro-direita. A direita, burguesia e pequeno burguesia reforça-se nos candidatos “racionais” do neoliberalismo “democrático”, enquanto os trabalhadores e movimentos sociais seguem à procura de novas alternativas e com força eleitoral.

Na esquerda o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) teve um crescimento significativo, viu a sua bancada de vereadores triplicar na maior capital do Brasil, São Paulo, e lança na mesma cidade ao segundo turno o ex-candidato a presidente e líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos. Na região norte do Brasil, na cidade de Belém, o professor Edmilson Rodrigues do PSOL também segue na disputa.

A falta de estratégia política dos partidos de esquerda em algumas capitais importantes como Rio de Janeiro levaram o segundo turno das eleições a uma disputa entre Marcelo Crivella, apoiado pela Igreja Universal do Reino de Deus - IURD, e o ex-prefeito Eduardo Paes, figura já conhecida por diversos escândalos de corrupção. Marcelo Freixo (PSOL) um dos personagens mais representativos na luta contra as milícias no Rio de Janeiro, que conseguiu bons resultados nas últimas eleições contra o pastor Marcelo Crivella, desistiu da disputa pela falta de apoio de partidos de centro-esquerda, como o Partido Democrático Trabalhista – PDT, e esquerda, como o Partido dos Trabalhadores - PT. Partido que ainda que tenha tido uma queda significativa na sua hegemonia na esquerda, em alguns municípios ainda teve dificuldade em apoiar outros partidos mesmo em momentos decisivos como esses.

Contudo, é importante ressaltar que o controlo das milícias e do tráfico sobre a vida de milhares de pessoas nas periferias do Rio de Janeiro agrava ainda mais a situação e torna ainda mais urgente o fortalecimento de frentes populares de esquerda que representem a população periférica e consigam fortalecer as bases na luta contra o obscurantismo.

Apesar do enorme apelo e visibilidade para eleições presidenciais, esse é o pleito que incide mais diretamente na vida cotidiana de milhares de cidadãos – o abandono do debate à volta da política autárquica nos últimos anos pode ser percebido no processo de degradação política, carreirismo individual, corrupção e abandono da população mais vulnerável.

Apesar do período sombrio que o Brasil vive, as tendências dessas eleições dão algum sinal de esperança dentro do atual cenário de crise, a entrada de pessoas periféricas, racializadas, transsexuais e ativistas das comunidades LGBTQIA+ como um todo na câmara de vereadores traz alguma esperança de abertura à um cenário político mais progressista, que equilibre minimamente as relações de poder locais, para que seja possível pensar-se em uma mudança estrutural mais profunda. Afinal, pensar em reforma urbana, reforma agrária, redistribuição de riquezas só é possível diminuindo o poder do grande capital.