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Megafone

O tempo dos musicais já passou

Conheço histórias muito díspares, mas a maioria de nós, jovens, quer tenhamos acabado de nos licenciar ou de acabar um mestrado, encontramo-nos encurralados.

No dia 30 de Setembro de 2006, avisei os meus pais que o High School Musical ia estrear-se e que, portanto, o telejornal não estaria à sua disposição às 20h. Eu andava há meses a cantar as canções num inglês meio aldrabado e os meus pais sabiam que, caso me fosse roubada aquela noite, eu amuaria para o que me parecia ser o resto da minha vida. Acabaram por ceder, e acho que até encomendaram pizza para o jantar. Tal como os meus pais, muitos outros tiveram de dar o braço a torcer. No dia seguinte, só se falava sobre o Troy e a Gabriella na escola. A grande mensagem do filme: “Segue os teus sonhos”. E, durante os próximos anos, eu acharia realmente que poderia seguir o meu grande sonho de ser uma estrela de musicais como os miúdos do High School Musical.

O High School Musical não foi o único culpado. Cresci numa época em que a televisão ainda acreditava em príncipes encantados, finais felizes e outras fantochadas que nos imbuíam o espírito de que, sim, nós conseguiríamos chegar até onde bem quiséssemos. Sempre defendi esse lema, mesmo quando me disseram que o melhor era ir para Ciências, não para Humanidades, ou quando acusaram a minha ideia absurda de seguir uma carreira no Teatro de ser isso mesmo: um absurdo. O mundo estava cheio de contrariedades: de um lado, os adultos, do outro, o High School Musical.

As coisas já estavam difíceis que bastasse. A Pixar chegou tarde demais para mim, com as suas histórias sobre o fracasso, os sonhos com pés de barro e até mesmo as complexas emoções humanas que ninguém me soubera explicar. Eu já estava contaminada pelo bichinho de que sim, ia conseguir tudo aquilo que queria para depois ver os muros a serem impostos, ali mesmo, à minha frente. Tentei muitos caminhos, aventurei-me por labirintos, fiz umas quantas mazelas e, quando finalmente achava que tinha encontrado um beco com saída, as portas voltaram a fechar-se perante uma pandemia.

Conheço histórias muito díspares, mas a maioria de nós, jovens, quer tenhamos acabado de nos licenciar ou de acabar um mestrado, encontramo-nos encurralados. Os nossos sonhos, que fomos alimentando ao longo destes anos, foram caindo por terra. Uns com mais sorte, outros com mais azar, mas já todos nos cruzámos com o significado da precariedade ou com o medo de termos de começar tudo de novo. Ninguém sabia que seria assim. Se estava difícil encontrar um lugar para nós, imaginem agora.

Se, durante anos, sonhar era isso mesmo, um sonho, agora trabalhar também assim nos afigura, a não ser que abdiquemos de tudo o que é nosso e que procuremos para além do mundo que fomos construindo, tijolo a tijolo… O tempo de querermos ser estrelas de musical já passou, mas será tarde demais para querermos encontrar um lugar no mundo onde possamos ser aquilo que, sem purpurinas ou cenários exuberantes, realmente queremos ser?

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